“O Projeto” decolonial de Sabrina Fidalgo: “Sentir culpa não significa abrir mão de privilégios”

O Projeto leva Sabrina Fidalgo à Mostra de São Paulo com um documentário decolonial sobre racismo, representação e as estruturas que mantêm privilégios.

Pelas vias da curta-metragem, com Alfazema e Rainha, Sabrina Fidalgo ganhou respeito em festivais de diferentes pontos do planeta, não apenas pelo refinamento estético no trânsito entre factos e fabulações, mas pelo seu trabalho como porta-voz da batalha antirracista. Tem usado um termo que as elites segregadoras consideram mais abrangente: decolonial. O seu discurso é inflamável. Desenrola-se nos seus colóquios, em eventos como a FLUP, a Festa Literária das Periferias; nas suas colunas para a Vogue Brasil; no seu trabalho para resgatar a obra teatral do seu pai, o dramaturgo Ubirajara Fidalgo (1949-1986), recém-compilada em livro; e no grande ecrã. Nessa seara, tem arrancado aplausos com a sua estreia nas longas-metragens, em forma de um documentário, O Projeto, agendado para quinta-feira, na 50.ª Mostra de São Paulo, no Espaço Petrobras 2, às 21h10. Haverá outra exibição no dia 27, às 17h40, no Cinesystem Frei Caneca 2.

“Sentir culpa não significa abrir mão de privilégios. O filme entra nesse desconforto”, explica a realizadora.

Aríete cinematográfico contra a lógica preconceituosa que fez do racismo um dos pavimentos do colonialismo, O Projeto pode ser sintetizado numa imagem icónica: a própria Sabrina, com um pregador no nariz, para afinar os traços da sua herança ancestral africana, em prol de um histórico de embranquecimento da população preta do seu país. Lançado em agosto, no Festival de Gramado, esse exercício autoralíssimo foi filmado a quatro mãos com o fotógrafo suíço Yvan Rodic (chamado Face Hunter). É um road .doc no qual Sabrina escuta, regista e incendeia reflexões sociais e políticas.

“As pessoas não brancas que estão no filme não ficam aprisionadas naquele desenho fácil da vítima, como se só pudessem existir pela violência que sofreram. Elas pensam, criam, confrontam o sistema e afirmam a potência da própria existência. Há depoimentos muito duros, mas essas pessoas não se resumem à dor que relatam”, conta Sabrina, nesta entrevista ao C7nema.

Existe um cânone racista nas representações? Se sim, como O Projeto o subverte?

Penso no mapa invertido de Joaquín Torres García. O gesto de inverter o mapa desorganiza uma hierarquia que aprendemos a tratar como natural. É esse deslocamento que me interessa: olhar o mundo a partir do Sul e colocar sob investigação aquilo que se acostumou a ocupar o lugar de medida universal. Cada deslocamento trazia novas relações entre histórias, territórios e pessoas. A viagem foi se tornando uma forma de aproximar experiências que a geografia separa, mas que a história colonial conecta.

Sabrina e Yvan Rodic, o Face Hunter, em Gramado – Foto de Rodrigo Fonseca

As suas filmagens iniciais colidiram com a pandemia. Como o desenho dramatúrgico da sua forma de narrar foi estruturado, à sombra da covid-19?

Existe uma atmosfera daquele período que permaneceu no filme, mesmo de maneira sutil. A incerteza, a suspensão, a fragilidade de um mundo que parecia tão seguro de si. Filmamos entre 2020 e 2024 e tivemos cerca de dois anos de montagem e pós-produção. Foi um processo longo, de muita elaboração, até encontrarmos a forma de reunir essas experiências.

Qual foi a sua principal descoberta, durante as filmagens, sobre a prática do racismo?

Eu começaria questionando a ideia de “prática do racismo”, porque ela pode dar a impressão de que estamos falando apenas de atos pontuais, identificáveis, cometidos por determinadas pessoas. O racismo também é uma maneira de ver e organizar o mundo, transmitida de geração em geração. Está naquilo que se aprende a reconhecer como bonito, competente, civilizado, confiável ou digno de ocupar uma posição de poder. Quando observo a renovação da obsessão pela magreza, por exemplo, interessa-me perguntar quais corpos voltam a ser impostos como ideais e quais são tratados como inadequados. Essa pressão pela padronização também pode ser lida à luz de uma história de controle dos corpos. O filme aprofundou minha percepção de como essa mentalidade consegue se reproduzir dentro de discursos aparentemente progressistas. Não basta reconhecer a violência do passado se as hierarquias continuam intactas no presente.

O que essa descoberta lhe mostra sobre as práticas da empatia?

A imagem icónica do pregador da branquitude

Em Gramado, chamou-me a atenção o fato de que o júri de longas documentais fosse inteiramente branco. A questão não é presumir que a identidade de alguém determine seu julgamento, mas perguntar por que ainda se considera natural reunir apenas pessoas brancas numa instância de legitimação. Que experiências e perspectivas ficam ausentes dessa composição? A pessoa pode defender pautas de esquerda e continuar reconhecendo autoridade artística quase exclusivamente em seus semelhantes. Precisamos olhar para quem seleciona, quem julga, quem escreve e quem recebe reiteradamente o direito de representar o cinema brasileiro.

Como essa lógica colonial ainda assombra o cinema brasileiro?

Tenho a sensação de que muito do debate sobre inclusão e representatividade que ganhou força há dez anos perdeu consequência concreta. Continuamos tendo de reivindicar que nossos filmes sejam vistos, discutidos e lembrados. E queremos ser reconhecidos também pela invenção formal, pela complexidade, pelo humor, pelo desejo, por tudo o que podemos criar. Driblamos o racismo fazendo cinema, construindo alianças e insistindo na circulação das nossas obras. Mas transformar essa estrutura não pode continuar sendo uma responsabilidade só nossa.

Em que ponto está a sua primeira longa-metragem de ficção, já escrita?

A ficção já faz parte da minha trajetória nos curtas e médias, e KARNAVAL é a oportunidade de ampliar essa experiência numa outra escala, com toda a liberdade de criação que venho buscando no meu cinema. Nós estamos a trabalhar no desenvolvimento e na estruturação financeira do projeto. Estamos em busca também de parcerias internacionais.

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