“Uma parte de mim é todo mundo / outra parte é ninguém: fundo sem fundo.” Os versos de Traduzir-se, de Ferreira Gullar (1930-2016), parecem encontrar em Border uma espécie de tradução clandestina. No filme de estreia do chinês Ah Biao, em competição pela Concha de Ouro do 74.º Festival de San Sebastián, amar é justamente tentar transportar uma parte de si para outra — operação que, em vez de produzir completude, pode conduzir ao abismo.
Há algo de profundamente gullariano na maneira como Ah Biao constrói as suas personagens: homens que parecem existir entre a multidão e a solidão, entre aquilo que sentem e aquilo que aprenderam a esconder. Numa povoação esquecida, um jovem mineiro sobrevive numa rotina sem horizonte. Trabalha, volta para casa, come, dorme. A sua existência parece ter sido reduzida ao mínimo necessário para que o corpo continue a funcionar. O festival descreve-o como alguém marcado por uma vida de abusos, arrastado para o crime depois do encontro com uma mulher enigmática.
É nesse ponto que Border começa a falar de amor sem jamais se comportar como um filme de amor. A chegada de Su Qing, interpretada por Feng Qi, introduz no quotidiano do mineiro algo que parecia definitivamente enterrado: curiosidade. Ela não representa apenas a possibilidade de uma relação; representa a possibilidade de sentir. E sentir, naquele universo, já é uma forma de transgressão. A personagem não sabe exatamente o que procura nela porque, antes dela, talvez nem sequer soubesse que procurava alguma coisa.
Ah Biao trata, assim, o verbo amar como uma perspetiva de perigo. Não porque o amor seja necessariamente destrutivo, mas porque desejar o outro significa abandonar a anestesia que mantinha o protagonista protegido. Amar é sair da fronteira — geográfica, moral, afetiva — na qual aprendeu a sobreviver. É atravessar uma linha sem saber o que existe do outro lado.
O título Border ganha então uma dimensão menos geográfica do que existencial. As suas personagens estão sempre diante de alguma coisa que não conseguem atravessar: a masculinidade silenciosa, a violência acumulada, a pobreza, o isolamento, a incapacidade de nomear aquilo que sentem. Quando o protagonista finalmente se move em direção a alguém, esse gesto implica abandonar o território onde aprendeu a existir.
É aí que Ah Biao se aproxima de Jia Zhangke. Não apenas pela geografia humana de uma China interiorizada, distante das imagens de postal do país em transformação, mas pela maneira como o espaço social parece depositar os seus conflitos sobre corpos que raramente encontram uma linguagem para os expressar. A Touch of Sin (2013), de Jia, também encontrava a violência em personagens empurradas para situações-limite por um quotidiano económico e social que lhes roubava qualquer sensação de pertença. O filme de Jia articulava histórias distintas de indivíduos atravessados pelo trabalho e pela desigualdade, incorporando inclusive formas do wuxia.
Em Border, Ah Biao reduz essa escala e concentra a tensão. Não há o mosaico de A Touch of Sin (2013), mas existe uma espécie de eco subterrâneo: a violência não aparece como acontecimento extraordinário; parece estar inscrita na paisagem, nos silêncios e nas relações de trabalho.
A diferença é que Ah Biao encontra no amor o detonador dessa violência. O gesto amoroso, ou aquilo que a personagem imagina ser amor, abre uma fissura numa existência até então organizada pela contenção. A mulher que surge diante dele não é simplesmente uma promessa romântica. É uma passagem.
Daí a força do filme estar menos em explicar quem é essa mulher do que em acompanhar o efeito da sua presença sobre aquele homem. Ah Biao não parece interessado em transformar Su Qing numa chave psicológica que permita decifrar o protagonista. Ela permanece enigmática porque o filme está interessado justamente naquilo que o enigma produz: o desejo de saber e de se aproximar.
O amor começa como curiosidade. Depois transforma-se em movimento. E o movimento conduz ao crime.
Essa progressão dá a Border a natureza de uma parábola sobre o amor, mas também sobre homens que foram ensinados a não amar. Para eles, a expressão dos sentimentos tornou-se quase tão perigosa quanto a violência que os rodeia. O silêncio deixa de ser apenas um recurso narrativo e passa a funcionar como sintoma de um mundo no qual falar demasiado pode significar revelar uma vulnerabilidade imperdoável.
Nesse sentido, Ah Biao trabalha com uma economia formal coerente com o seu universo. Os corpos parecem dizer aquilo que as bocas não conseguem. O espaço é árido e os diálogos parecem existir sempre à beira de alguma coisa que não chega a ser pronunciada.
É um cinema de contenção que, paradoxalmente, fala de explosão. E há algo do cinema de Lou Ye nessa perceção de que o desejo nunca é puramente íntimo. Em Lou Ye, o amor confronta-se frequentemente com forças sociais maiores do que os indivíduos que tentam vivê-lo. Em Border, Ah Biao não reproduz essa linguagem nem essa dramaturgia, mas partilha uma intuição: o corpo apaixonado não está isolado do mundo. O desejo também é atravessado pelas estruturas que organizam a existência.
O que torna o filme particularmente interessante é justamente essa recusa de separar o íntimo do social. O mineiro não encontra uma mulher e simplesmente se apaixona. Encontra, através dela, a possibilidade de imaginar outra vida. É essa possibilidade que o coloca em perigo.
A frase final de Traduzir-se — “que é uma questão de vida ou morte” — poderia funcionar como uma chave secreta para o filme. Traduzir uma parte de si na outra parte é o que o protagonista tenta fazer quando se aproxima daquela mulher. Só que, em Border, a tradução não produz harmonia. Produz choque. A parte adormecida encontra a parte desejante; o homem que aprendeu a sobreviver encontra o homem que ainda quer viver.
Entre uma coisa e outra existe uma fronteira. Ah Biao faz dela o seu cinema. E talvez esteja aí uma das descobertas mais interessantes desta edição de San Sebastián: uma primeira longa-metragem de apenas 78 minutos que entende o amor não como abrigo, mas como rutura.
No mundo de Border, amar não significa necessariamente encontrar alguém. Significa deixar de ser quem se era. E, para alguns homens, essa pode ser a forma mais perigosa de liberdade.

















