Prestes a passar para o terreno da animação, pelas via do Festival de Annecy (agendado de 8 a 14 de junho), com a curta “Magicianul” (“O Mágico”), o romeno Bogdan Mureşanu chega agora às salas de cinemas nacionais um mês depois de receber um tributo argentino no 26º Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires, o Bafici. O realizador conhecido por “The Christmas Gift” (2018) passa agora por Portugal com “The New Year That Never Came” (“O Ano Novo Que Não Aconteceu”).
Foi dele o prémio principal da mostra Horizontes do Festival de Veneza do ano passado. O enredo passa-se em 20 de dezembro de 1989, quando o povo romeno se encontra à beira de uma revolução. As ruas estão repletas de manifestações, os estudantes tripudiam do regime por meio da arte e os programas do fim do ano glorificam a figura do ditador Nicolae Ceauşescu. Ao mesmo tempo, no desconforto das casas sem aquecimento, famílias enfrentam conflitos pessoais. Esse turbilhão redesenha caminhos… e os afetos.
Nesta entrevista a seguir, ele faz uma análise do papel geopolítico da Roménia no audiovisual.

O seu novo filme, “Magicianul” (“O Mágico”), concentra-se num dia, em 1910, numa cidade da Roménia. Em geral, as suas produções retratam figuras em condição solitária. Qual é o lugar da solidão no seu cinema?
As minhas personagens são como ilhas num arquipélago. São ilhas que tentam criar pontes. Nesse processo, crio espaço para que apareçam dúvidas.
Como define a Roménia hoje?
Um dos países mais pobres do mundo civilizado, a Roménia é uma micro Europa, com a mistura de três impérios na base da sua cultura, baseada numa língua de origem latina, com influências eslavas e turcas. É um país com um senso de humor muito sombrio, que aplicamos a tudo. Todos os nossos filmes, de certa forma, são tragicomédias.
Nessa dimensão tragicómica, vocês exorcizaram o fantasma de Nicolae Ceaușescu, que governou a Roménia de 1965 a 1989 como secretário do Partido Comunista?
Ele ainda está lá. Sente-se isso sempre que alguém fala bem do Comunismo. Ele é bem falado por quem esqueceu como o regime comunista era. A sensação que tinha na época era de que era noite a toda a hora no meu país. Quando fiz a minha primeira viagem, aos 15 anos, e desci em Budapeste, a impressão era de que estava a ver a luz pela primeira vez.
Em tempos de streaming, quando muitas produções acabam por estrear diretamente em plataformas digitais (como a Netflix, MUBI, Filmin.pt), a presença de uma longa como “The New Year That Never Came” num festival como o Bafici, dá crédito à natureza histórica do audiovisual de ocupar espaços de projeção, de manter os filmes em salas, em circuitos que vão além dos centros comerciais. Como olha para o papel geopolítico do cinema hoje?
O poder do cinema permanece e se renova em expressões assim. “The New Year That Never Came” está na Netflix romena e pode ser visto no sistema de entretenimento de bordo da Qatar Airways, que são montras importantes, mas os filmes são designados para o grande ecrã.






