No terreno dos melhores argumentos de ADN europeu de 2026, Un Bon Petit Soldat distinguiu-se com louvores em Veneza, onde disputou o Leão de Ouro e conquistou a Osella d’Oro de Melhor Argumento pela precisão da sua dramaturgia, capaz de aliar ensaio sociológico, drama existencial e reflexão sobre a condição feminina. A longa-metragem de Stéphane Brizé encontra na extraordinária Alba Rohrwacher uma intérprete à altura da sua ambição política. Nela, o realizador francês, coautor do script com Coralie Amédéo e Olivier Gorce, coloca os espectadores no encalço de Carla Moretti, uma executiva de 43 anos, recentemente contratada como responsável pelos Recursos Humanos de uma seguradora, incumbida de reconstruir a confiança dos funcionários num ambiente empresarial onde a vulnerabilidade não é considerada um ativo. Em terras cariocas, o título desse ensaio crítico ao capitalismo é Um Pequeno Bom Soldado, em tradução literal.

Há muito que Brizé se dedica a filmar o trabalho como um campo de batalha moral. Em La Loi du Marché (2015), En Guerre (2018) e Un Autre Monde (2021), o cineasta construiu uma espécie de trilogia sobre os mecanismos de desumanização do capitalismo contemporâneo, recorrendo à extraordinária presença de Vincent Lindon para encarnar diferentes posições numa engrenagem económica que exige sacrifícios individuais em nome de uma prosperidade coletiva cada vez mais abstrata. O desempregado, o sindicalista e o executivo daqueles filmes eram variações de uma mesma figura trágica: o indivíduo confrontado com instituições que transformam a dignidade humana numa variável de gestão.

Com Un Bon Petit Soldat, Brizé prolonga esse projeto, mas altera significativamente a sua perspetiva. Pela primeira vez neste ciclo, a protagonista é uma mulher, interpretada por uma atriz cuja sensibilidade permite ao realizador deslocar o conflito social do confronto ostensivo para uma guerra de desgaste psicológico. Carla não chega à empresa como revolucionária. Pelo contrário, acredita na possibilidade de conciliar eficiência económica e responsabilidade humana. O problema é que o seu superior, Arnaud Boronat, interpretado por Lindon, exige resultados que entram progressivamente em contradição com os princípios que justificam a própria existência do departamento que ela dirige.

É precisamente nessa contradição que o filme encontra a sua maior força. O departamento de Recursos Humanos, expressão que já encerra uma perversidade semântica ao converter pessoas em recursos, transforma-se num laboratório de violência institucional. Não são necessárias armas, perseguições ou ameaças explícitas. Bastam reuniões, avaliações de desempenho, discursos motivacionais e uma sucessão de pequenas concessões éticas para que a organização empresarial revele a sua natureza predatória. Brizé filma o quotidiano corporativo como quem disseca um organismo doente, procurando compreender a maneira como a linguagem da produtividade consegue disfarçar práticas de humilhação e submissão.

Alba Rohrwacher é absolutamente magnífica nesse processo. A atriz italiana, tantas vezes associada a personagens de delicadeza quase etérea, constrói aqui uma mulher cuja fragilidade não exclui a determinação. Há qualquer coisa de profundamente comovente na maneira como Carla procura preservar uma imagem de competência enquanto o mundo à sua volta lhe exige a amputação gradual das convicções. Rohrwacher trabalha sobretudo com o olhar, a respiração e as pausas, fazendo da contenção um instrumento de resistência dramática. Cada hesitação parece carregar uma batalha interior. Cada tentativa de manter a compostura denuncia o esforço necessário para sobreviver num sistema que recompensa a obediência e penaliza a consciência.

A sua interpretação é também decisiva para impedir que o filme se transforme numa simples demonstração de tese. Nas mãos de uma atriz menos subtil, Carla poderia tornar-se uma representação esquemática da mulher virtuosa confrontada com homens sem escrúpulos. Rohrwacher, porém, introduz zonas de ambiguidade na personagem. A sua protagonista deseja reconhecimento, teme o fracasso, precisa de preservar o emprego e conhece demasiado bem o preço das escolhas profissionais. Não se trata de uma heroína imaculada, mas de alguém que descobre, com crescente desconforto, a distância entre aquilo que acredita ser e aquilo que a instituição espera que se torne.

Vincent Lindon, por seu lado, oferece um contraponto particularmente interessante à atriz. Depois de ter sido o rosto da resistência e do sofrimento laboral em parte significativa da filmografia recente de Brizé, surge agora associado ao poder hierárquico. A inversão possui uma dimensão quase metacinematográfica: o ator que tantas vezes representou os esmagados pela máquina económica passa a integrar a engrenagem que os esmaga. A sua presença acrescenta espessura a um antagonismo que seria demasiado fácil reduzir à oposição entre bons e maus.

Formalmente, Brizé mantém a austeridade que caracteriza a sua obra. A fotografia de Antoine Héberlé privilegia uma observação rigorosa dos espaços, enquanto a montagem de Géraldine Mangenot procura extrair tensão de situações aparentemente banais. O realizador continua a acreditar que o cinema pode encontrar intensidade dramática na duração de uma conversa, na disposição dos corpos à volta de uma mesa ou no desconforto provocado por uma ordem transmitida com absoluta serenidade. É uma linguagem que recusa a espetacularização do sofrimento e aposta na capacidade do espectador para reconhecer, nos gestos mais pequenos, as manifestações quotidianas da violência.

Essa disciplina estética, contudo, também evidencia algumas limitações. Por vezes, o argumento aproxima-se de uma arquitetura demasiado demonstrativa, na qual as situações parecem organizadas para confirmar uma leitura previamente estabelecida do universo empresarial. O didatismo que atravessa determinados momentos reduz a margem de surpresa e torna algumas personagens secundárias mais funcionais do que propriamente humanas. Brizé conhece tão bem os mecanismos do seu cinema social que, ocasionalmente, corre o risco de transformar a denúncia numa fórmula.

Ainda assim, a mudança de protagonista impede que Un Bon Petit Soldat seja apenas mais uma variação de La Loi du Marché. A dimensão feminina introduz novas camadas de leitura, sobretudo quando a narrativa confronta as expectativas profissionais de Carla com as renúncias pessoais que sustentaram a sua carreira. O filme compreende que a violência do trabalho não termina quando alguém abandona o escritório. Ela prolonga-se na vida familiar, nas relações afetivas e na própria perceção de valor individual. O sucesso profissional pode converter-se numa forma sofisticada de solidão.

Se há uma razão para que Un Bon Petit Soldat ultrapasse a condição de exercício sociológico, essa razão chama-se Alba Rohrwacher. A sua Carla possui uma humanidade que resiste à rigidez do discurso político e à previsibilidade de algumas soluções dramatúrgicas. Brizé pode continuar a filmar o capitalismo como uma máquina de triturar consciências, mas encontra na atriz italiana algo que os números, os relatórios e as metas de produtividade jamais conseguirão contabilizar: a expressão silenciosa de uma dignidade ameaçada. É nesse rosto, mais do que em qualquer discurso, que o filme encontra a sua verdadeira força.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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