“Há ternura, há humor negro”: Entre o riso e o luto, “De Bicleta” chega a Portugal

Dois amigos, duas bicicletas, um cão e uma ausência. Após arrecadar vários prémios no Festival de Cinema de Angoulême, e emocionar mais de meio milhão de espectadores em França, À Bicyclette! chega a Portugal com todos os ingredientes para fazer uma bela pedalada pelas bilheteiras nacionais. O ponto de partida desta tour portuguesa aconteceu na Festa do Cinema Francês, chegando a 11 de dezembro às salas de cinema nacionais.

Em À Bicyclette !, Mathias Mlekuz transforma o luto pela morte do filho, Youri, numa viagem de reencontro, guiado pela cumplicidade e amizade que estabeleceu com o ator Philippe Rebbot, que conheceu nas filmagens de Nos Enfants Chéris (2003), de Benoît Cohen.

Entre o riso e a dor, a dupla recria – num registo de docuficção – uma viagem de bicicleta que Youri fez de França à Turquia. Na casa dos 50 e 60 anos, Mathias e Philippe têm a perfeita noção que não estão nas melhores condições físicas para fazer esse longo trajeto. Mathias fala de obesidade. Phillipe do tabagismo. Partiram à mesma nessa aventura sem guião e sem um plano concreto do filme que iriam fazer. Nas suas mentes, apenas a verdade do que viviam.

Aproveitando a exibição na Festa do Cinema Francês e a presença da dupla em Portugal, estivemos à conversa com eles. E nesse diálogo a três falam sobre a amizade, o luto, a improvisação e a força artística que nasceu a partir de uma tragédia. Aqui ficam as suas palavras.

O filme lida com questões muito íntimas — não apenas pela dor que o inspirou, a morte do Youri, mas também pela forma como expõem a vossa amizade. Como foi separar o que queriam mostrar ao público daquilo que era demasiado pessoal? Existia uma fronteira?

Mathias: Na realidade, não existia mesmo uma fronteira. Concebemos o filme a partir da improvisação. Não havia texto escrito — são, antes de tudo, conversas entre amigos. Somos amigos há vinte anos e não controlámos a nossa fala, não nos censurámos. Essa era a ideia. E, no fundo, não havia nada a censurar. Somos apenas dois homens a partilhar coisas.

Mathias Mlekuz e Philippe Rebbot

Mas depois, na montagem, há escolhas a fazer. Como foi a seleção do que mostrar ou não?

Mathias: Sim, claro. Depois há a montagem, e aí surgem as escolhas, inevitavelmente. Confesso que não sei muito bem onde coloquei a fronteira. Fiz escolhas, mas nunca pensei: “isto não se mostra”. Perguntava-me antes: “isto serve a história? O que é que quero contar?”.

Tinha muito material — cerca de 150 horas de filmagens — e fiquei com apenas quatro horas de cenas montadas, para fazer um filme de uma hora e meia. Tive de escolher isto em vez daquilo, mas a partir de um ponto de vista narrativo, não de censura da intimidade.

Qual foi o momento preciso em que decidiu que queria fazer este filme?

Mathias: No início havia apenas a vontade de fazer a viagem. O Philippe sugeriu o filme.

Philippe: Bem, não tive propriamente “a ideia”. Apenas pensei: “esta viagem, não vamos conseguir fazê-la”. Quando o Mathias me convidou, disse logo que sim, mas depois pensei: “não temos idade, não vamos conseguir pedalar durante seis meses”. Nenhum de nós andava de bicicleta há muito tempo!

Então, no dia seguinte, disse-lhe: “se somos artistas, há uma coisa que sabemos fazer — transformar isto em arte. E se quisermos prestar homenagem, podemos fazê-lo através da arte”.

E havia uma coisa em que pensei desde logo: o pretexto das câmaras ia permitir-nos falar mais facilmente. As câmaras dão-nos uma razão para falar, quase uma autorização para trocar palavras e emoções.

Mathias: No fundo, não sabíamos que filme estávamos a fazer. O filme decidiu-se na montagem. Com a minha montadora, a Céline Cloarec, fiz escolhas que permitiram que se revelasse o filme que tínhamos. Não foi um filme planeado enquanto o filmávamos, nem antes. Foi um filme que se construiu a posteriori, com o que tínhamos em mãos.

O filme é uma obra artística, mas também, de certa forma, uma terapia. Como trabalharam isso?

Mathias: Depois da morte do meu filho, senti necessidade de me aproximar dele. Procurei formas de o fazer. Comecei por estudar o mundo dos palhaços. Depois viajei com o meu outro filho, Josef — que também aparece no filme. Fomos ao Brasil, uma viagem que o meu filho Youri também tinha feito.

Mais tarde pensei: “vou refazer o percurso de bicicleta”. Isso fez parte, digamos, não exatamente de uma terapia, mas de uma forma de consolo. De algo que me aproximava da presença dele. Logo que comecei as aulas de arte do palhaço, senti-me mais próximo dele — era uma maneira de me ligar ao que ele foi.

E, no filme, fiz a escolha de privilegiar antes de tudo a amizade. É uma história de amizade. É também uma história de luto, mas, no fundo, é uma história de amizade profunda.

A cena na Áustria é maravilhosa — aquela no apartamento, com as regras todas, em particular na cena da casa de banho. Foi tudo improvisado?

Mathias: Sim, completamente. O meu filho tinha ficado num Airbnb em Viena e contou-me que a dona da casa era muito rigorosa, cheia de regras. Não consegui reencontrá-la, mas tinha uma amiga atriz que vive em Viena, a Adriane Grządziel, e pedi-lhe para nos receber. Disse-lhe apenas: “diz-nos as regras do teu apartamento — e usa o Google Tradutor”.
Ela não tinha guião nenhum, improvisou durante quase uma hora. Eu sabia que o Google Tradutor ia gerar mal-entendidos engraçados. E, de facto, toda a equipa ria tanto que tive de cortar 80% da cena, porque a câmara tremia!

E a cena seguinte, a do banho no Danúbio?

Mathias: Também foi improvisada. Perguntei-lhe: “O que é que se faz em Viena?” e ela respondeu: “Vai-se nadar no Danúbio.” Então fomos.

Eles são naturistas, e eu tinha dito que não me ia despir. Sabia que íamos filmar e pensei: “não, não o farei”. Mas quando a cena começou, a Adriane disse-me “vá, despe-te”, e eu despi-me. Foi completamente espontâneo. Nada disso foi pensado.

E aquela cena na Roménia, com o homem com quem conversa — ele é ator?

Mathias: Não, é fotógrafo. Vive na Roménia. Encontrámo-lo por acaso. Tínhamos vontade de conhecer um francês a viver por lá, até por questões linguísticas.

Alguém nos disse que havia um homem nos Cárpatos cuja casa tinha ardido e que aceitava receber-nos. Fomos até lá sem o conhecer. Acabámos por ter uma conversa que durou mais de duas horas, muito íntima. Chamamos-lhe “o normando dos Cárpatos”. Era um homem frágil, poético, melancólico — um espelho de nós próprios.

Foi um acaso feliz. Podíamos ter encontrado alguém muito mais reservado, mas encontrámos alguém que parecia uma extensão de nós.

Qual foi o maior desafio da viagem? O cansaço? O tabagismo do Phillipe? (risos)

Philippe: (risos) O maior desafio foi… continuar vivos! Mas não era bem um desafio. Era apenas “a coisa a fazer”.

Eu tinha-me comprometido a acompanhar o Mathias de tal dia de outubro a tal dia de novembro. Entre esses dias, simplesmente avançávamos. Não havia um objetivo de superação, havia apenas o gesto.

Mathias: Sim. Este filme é, antes de mais, um gesto. Por isso é tão difícil de definir. O desafio, se houve, foi mais para mim — atravessar tudo isso, manter-me de pé. Para o Philippe, o desafio foi talvez impedir que eu me afundasse. Fazer o filme ajudou-me a não parar, a não cair num tempo morto.

Philippe: Não foi fácil. Tivemos momentos de alegria, sim, mas também de muita dureza — física e emocional. E o vinho rosé do Leste não ajuda! (risos)

Há um momento no filme, num autocarro, em que o Phillipe tosse e o Mathias mostra um desconforto de preocupação. Essas conversas sobre o tabagismo fazem parte da vossa amizade, não é?

Philippe: Sim! (risos) Ele fala-me do meu cancro todos os dias. E eu digo-lhe: “tu também vais ter um dia!”. Todas as manhãs, quando tusso, ele diz-me: “vais morrer de cancro!”.

Agora a nossa piada é: “não faz mal, fazemos um filme sobre isso!”. (risos) Brincamos com os nossos medos. Faz parte da nossa amizade. Há ternura, há humor negro.

Eu olho para ele e penso: “parece mais em forma do que eu, mas será que está mesmo?”. Ele é mais novo, eu sou mais velho — e ainda cá estamos, a rir disto tudo.

E a cena da chegada à Turquia, quando reencontra o seu filho Josef — foi planeada ou também improvisada?

Mathias: Sabia que ele estava lá, mas o reencontro foi improvisado. Não sabíamos em que rua ele estava. Eu desci sem ter a certeza — e quando o vi, a emoção foi verdadeira. Mesmo agora, quando falo disso, posso chorar. Ver aquele rapaz a chegar…

Lembro-me de uma cena no sofá — falávamos de Marzie, estávamos um pouco alcoolizados, muito emocionados. Tudo isso mostra em que estado estávamos ao chegar à Turquia: esgotados, vulneráveis, à flor da pele. O Josef chegou como uma presença exterior, necessária. Durante um mês, éramos só nós dois e uma pequena equipa de cinco pessoas. Ele trouxe outro olhar, uma nova energia.

E há aquele momento engraçado das chaves, quando percebem que ninguém as trouxe. Isso também aconteceu mesmo?

Mathias: (risos) Sim, é totalmente verdade! Nenhum de nós tinha pensado em levar as chaves do apartamento. Descemos todos para filmar e só percebemos depois — estávamos trancados fora de casa! (risos)

Foi o tipo de detalhe que mostra bem o espírito do filme: nada era encenado. Vivíamos o que acontecia, mesmo o absurdo. E esse caos real dava vida às cenas.

A morte do seu filho e o filme que fez a partir disso mudou a sua forma de trabalhar e o “artista” que há em si?

Mathias: Sim, profundamente. Descobri uma forma de fazer cinema sem a pressão do resultado. O cinema tradicional é uma indústria — há planos, figurantes, locais, dinheiro. Tudo precisa de “funcionar”.

Aqui, não havia essa obrigação. Filmámos livremente. Se algo não era interessante, cortava-se. Se era bom, ficava. Aprendemos que só vale a pena filmar quando há algo para dizer. Não se fazem filmes por fazer. Quando há algo a viver e a partilhar, então sim, faz-se.

Philippe: É um pouco a mitologia [John] Cassavetes — filmar a vida como ela vem, com o que há.

E agora? Há um novo projeto a caminho?

Mathias: Sim. Pensámos em vários. A certa altura, até considerámos um road movie em Paris, sobre um homem com cancro e o seu amigo — mas nenhum de nós tem cancro, felizmente. (risos)

Agora vamos fazer outro filme, chama-se Mon Fils Président (O Meu Filho Presidente). O meu filho mais novo, Manolo, desde os 10 anos que quer ser Presidente da República Francesa. Está convencido de que vai candidatar-se em 2027.

Toda a gente achava que era uma brincadeira, mas é algo sério. Tem um programa, quer fazer uma Tour de France para recolher as assinaturas necessárias para se poder candidatar.

E nós — eu, o Philippe, o Josef e o cão — vamos acompanhá-lo. Vai ser outro filme de viagem, cheio de encontros com autarcas e conversas sobre política, paternidade e a vida.

Não sabemos que filme vai ser. Pode ser sério, pode ser caótico. Tal como À Bicyclette !, vai nascer da estrada.

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