Traduzido em 75 línguas e considerado um dos romances franceses mais influentes do século XX, O Estrangeiro assinala o regresso de François Ozon à competição oficial da Mostra de Veneza, depois de ali ter apresentado Frantz (2016). O realizador, que já havia passado pela seleção veneziana com 5×2 (Cinq fois deux) (2004) e Potiche (2010), ambos igualmente em competição, enfrenta agora um clássico absoluto da literatura, voltando a colaborar com Benjamin Voisin — com quem trabalhou em Verão de 85 (2020) — para dar corpo a Meursault, um francês a viver na Argélia dos anos 1930. A sua indiferença perante o mundo — e perante os códigos sociais que o rodeiam — culmina num homicídio a sangue-frio e num julgamento que acaba por escrutinar não apenas o crime, mas a própria natureza da personagem, expondo as fraturas morais de uma sociedade colonial.

Com Rebecca Marder, Pierre Lottin, Swann Arlaud e Denis Lavant no elenco, e rodado a preto e branco, O Estrangeiro chega às salas de cinema nacionais a 12 de março. “Se me tivessem dito há dois ou três anos ‘vais fazer O Estrangeiro’, teria respondido: ‘nunca vou atacar uma obra-prima da literatura francesa!’”, afirmou ao C7nema o cineasta em Paris, em janeiro passado. “Temos sempre medo nas adaptações. Mas é isso que é excitante. Já adaptei peças de teatro, livros, mas eram obras menores. O Estrangeiro surgiu porque tinha outro projeto com Benjamin Voisin, um jovem que comete uma tentativa de suicídio e é confrontado com a absurdidade do mundo. Não consegui montar o projeto, não encontrámos dinheiro, senti que assustava toda a gente. E havia essa personagem de um jovem um pouco perdido face ao mundo. Lembrei-me de O Estrangeiro, que tinha lido como todos os franceses no liceu. Ao reler, percebi que o livro continuava tão poderoso, moderno, estranho. E ainda não compreendia tudo”.
Admitindo que, ao reler, sentiu a necessidade de mergulhar na história da França e da Argélia, para compreender porque é que Camus, em 1938, escreveu esta história — porque mata um árabe e não um espanhol —, Ozon admite que, de repente, tudo se tornou evidente: era preciso fazer um filme de 2025 sobre uma história de 1938-40 e contextualizá-la. “Mergulhei nos arquivos sobre a relação entre França e Argélia. No início há medo, depois há trabalho e esquece-se. O medo volta quando o filme sai. Agora estou tranquilo, o filme saiu, resultou”.
Camus e o cinema
“Camus não queria que o livro fosse adaptado. Gérard Philipe quis fazê-lo. Camus disse: ‘Ok, se for Jean Renoir a filmar’. Teria sido extraordinário. Mas Renoir foi para os Estados Unidos, Gérard Philipe morreu, Camus morreu, o projeto caiu. Depois veio Visconti, que conseguiu os direitos através da viúva de Camus, mas não fez o filme que queria. Ela estava sempre no set, exigia respeito absoluto pelo livro. É uma adaptação muito linear. Quando se adapta um livro é preciso fazer escolhas. Cinema e literatura são experiências diferentes. Há sempre uma traição necessária. Visconti queria ligar à guerra da Argélia. A viúva não quis. E houve o casting: Visconti queria Alain Delon, não Mastroianni. Para nós, franceses, é chocante — Mastroianni é italiano, encantador, não é Meursault. Alain Delon, seco, como em Le Samouraï (1967), de Melville, teria sido perfeito. Fui falar com Catherine Camus. Sabia que tinha recusado muitos realizadores. Disse-lhe claramente que queria contextualizar, fazer um filme para o público de hoje, desenvolver as personagens femininas. Ela confiou em mim. Está contente com o filme, embora preferisse um final mais próximo do livro.”
Preto e branco
“Era evidente para mim. Tinha feito um filme passado em 1914-18 também a preto e branco. Todas as imagens de arquivo da época eram a preto e branco. Trabalhámos a ideia de encandeamento, o sol. O preto e branco permite puxar as altas luzes. Como seguimos uma personagem que observa o mundo, o preto e branco obriga também o espectador a olhar de outra forma, cria distanciamento. E há razões económicas: num filme de época, facilita cenários, figurinos, custa menos. Filmámos em digital.”
Meursault
“A sensualidade é muito importante em Camus. Ele gostava de se banhar, de fazer amor, teve muitas amantes. Escreveu muito sobre a beleza do corpo das mulheres, da natureza, da Argélia. O livro é um monólogo interior. Não quis usar voz off como no filme de Visconti. Quis algo imersivo. Como Meursault não exprime emoções, sente através dos sentidos. Era preciso que sentíssemos a beleza de tudo. Depois, a beleza de Benjamin Voisin… é o preto e branco. Vão vê-lo a cores, ele é feio (risos). Estou a brincar. O preto e branco estetiza, torna mais sensual. Desperta memória cinéfila. Às vezes parecia um plano de Pasolini, ou Rebecca Marder, de fato de banho branco na praia, fazia-me lembrar Elizabeth Taylor em Suddenly, Last Summer (1959). (…) Benjamin é o contrário de Meursault na vida real — sedutor, alegre e divertido. Pedi-lhe para não representar. E é muito difícil para um ator não representar (…) É uma personagem complexa. Condenável pelo crime, mas diz a verdade. Não chora a mãe, diz que não ama Marie. Todos nós jogamos um jogo social e mentimos constantemente. Vivemos num tempo de pós-verdade, onde tudo parece equivalente. Isso é profundamente angustiante.”
Personagens femininas
“As personagens masculinas são tóxicas. Um bate nos cães, outro bate na mulher e outro mata um árabe por causa do sol. Para mim, as personagens femininas, que estão no livro mas não são desenvolvidas, eram interessantes como espelho dos homens. Muitas vezes têm mais sensibilidade face ao que se passa.”

Colonialismo
“Para os árabes, sobretudo os argelinos, o livro de Camus é problemático. Compreendo. Ao reler hoje, pensei: esta invisibilização dos árabes, o que significa? Em 1938 fazia sentido. Era o colonialismo, franceses e árabes viviam lado a lado, mas eram duas comunidades separadas. Uma forma de apartheid. Camus vivia na Argélia, não falava árabe, não tinha amigos árabes. Correspondia à época.
Hoje, em 2026, isso choca-nos. Há interpretações americanas que atacam Camus dizendo que é um livro colonialista — o que não é verdade — mas reflete o espírito colonial da época. Camus sabia que a França se comportava mal, escreveu sobre a Cabília, sobre a pobreza. A invisibilização tem sentido para ele. Mas para nós, espectadores, era preciso compreender isso.
O livro Meursault, contre-enquête, de Kamel Daoud, foi interessante porque analisa, do ponto de vista argelino, essa invisibilização da sua dor. Para mim era evidente que tinha de dar um nome ao árabe e dar-lhe também uma sepultura no fim, como forma de reconciliação, mesmo que as relações entre França e Argélia continuem tensas.”
Autocensura?
“Sente-se pressão. Sabe-se que os filmes são políticos, analisados com novas grelhas de leitura. Talvez filmes que fiz há anos os fizesse de maneira diferente. Mas neste não me autocensurei. Sinto que esclareci mais do que transformei, porque sou fiel ao livro.”
Reflexão e entretenimento
“Fiz Mon Crime (2023), uma comédia. O Cinema é entretenimento, mas também confronto com temas fortes. Quando fiz Grâce à Dieu (2018), não imaginava a dimensão política que teria. O Cinema abre debates. Com O Estrangeiro, que foi um grande sucesso em França, encontrei comunidades argelinas, franceses que viveram na Argélia. É uma história ainda dolorosa para ambos os lados. O filme saiu no meio de uma crise diplomática. A crise é permanente entre França e Argélia. Politicamente não saiu na Argélia, mas saiu em Marrocos e Tunísia. Gostava de ter filmado na Argélia, mas não foi possível. Filmámos em Tânger.”
Financiamento
“Pensava que, por ser O Estrangeiro, seria fácil. Mas diziam: não se passa nada durante 45 minutos. Como no livro. Os financiadores são muito conservadores. As plataformas diziam: adoramos trabalhar consigo, adoramos O Estrangeiro, é o nosso livro preferido. Enviava o argumento e diziam: é complicado, não se passa nada. Netflix, Disney, todos disseram que era arriscado. Estão muito formatados, não querem risco.”






