Jia Zhangke: De “O Homem da Câmara Digital” a “Marés Vivas”

Distanciando-se dos realizadores da dita “Quinta Geração” da China, como Zhang Yimou (Esposas e Concubinas; Viver) e Chen Kaige (Adeus Minha Concubina; Terra Amarela), que utilizaram frequentemente o melodrama histórico e épico, de visuais poderosos, como plataforma para a sua internacionalização, os cineastas da “Sexta Geração”, onde se insere Jia Zhangke, optaram por aproximar a sua lente a histórias de pessoas comuns, acirradamente apresentadas num estilo austero de forte influência documental. Foi assim com “Pickpocket” (1997), filme estreia do realizador, onde definiu muitas das marcas do que viria a seu cinema, com o uso de atores não profissionais e frequentes comentários sobre uma China em mutação.

Realizador de filmes como “Plataforma” (2000), “O Mundo” (2004), “24 City” (2008), “Histórias de Shanghai – Quem Me Dera Saber” (2012), “China – Um Toque de Pecado” (2013), “Se as Montanhas Se Afastam” (2015) e “As Cinzas Brancas Mais Puras” (2018), entre outros, Jia Zhangke foi filmando, paralelamente à concretização destes projetos, vídeos (ficção e não ficção) sem uma ideia concreta na mente ou um fim à vista. Mais de duas épocas depois, esses registos serviram de base para concretizar “Caught By The Tides” (Marés Vivas), lançado em 2023 no Festival de Cannes, e que chega agora aos cinemas nacionais.

Este filme esteve em produção desde 2001”, disse o cineasta ao C7nema, numa entrevista no Palais des Festivals. “Nesse período, a China passou por enormes transformações e as pessoas estavam muito entusiasmadas com o que o futuro lhes reservava. Não era apenas a entrada num novo milénio, mas havia uma abertura do país a algo mais. Isso coincidiu com as transformações no mundo do cinema com o vídeo digital, que surgiu como algo muito conveniente para mim. Estávamos muito atraídos pela energia da sociedade e queria captar isso com a minha câmara digital”.

Marés Vivas

Na época, e em homenagem a Dziga Vertov (O Homem da Câmara de Filmar, 1929), o cineasta denominou este projeto como “O Homem da Câmara Digital”, pretendendo criar algo não linear que capturasse imagens, de alguma forma poéticas, sem necessidade de efetivamente existir, sequer, uma narrativa. Porém, décadas depois, e com a chegada da pandemia Covid, Jia viu-se parado e começou a olhar para o material que tinha reunido com um outro olhar. “Foi aí que comecei a pensar concretamente no que fazer com o material e em usá-lo como na forma de história de uma época. No diálogo com os montadores, falámos sobre essa seleção e organização, de forma a dar uma continuidade através de uma linha narrativa. É aí que entra em cena o guião, particularmente construído para as filmagens do terço final que nos restava para ter um filme. Não só pensávamos como iriamos introduzir  ⅔ das coisas que fui filmando, como também no agora, no mundo contemporâneo, dando assim coerência como um todo (…) No processo de produção, nunca pensei como este filme seria encerrado. Quando trabalhas com o tempo, no imediato, é difícil ver e entender o que está realmente a acontecer no momento. Apenas a distância deste tempo dá-te pistas para veres realmente o que aconteceu. Usando uma metáfora, vou usar a do grande salto. Para o fazeres, tens de ter um início de corrida muito forte para conseguir saltar uma barreira. Assim era a China, em 2001. Para saltar a barreira, tínhamos de ter muita energia e correr muito. Ultrapassada a barreira, a modernidade chegaria, tal como uma melhor vida e mais liberdade. E tivemos um início explosivo, mas quando demos o salto aterrámos na era do Covid, de grande isolamento. O sentimento foi de grande desilusão, numa oposição entre o que achávamos que ia acontecer e o que realmente sucedeu. A aceitação disso, não é apenas da realidade, mas também um rastilho para a esperança e percepção que temos ainda de voltar a correr para fazer o nosso caminho. Temos de recomeçar o processo novamente e esperar que as coisas corram melhor da próxima vez. Uma esperança que é mostrada no início do filme, através de ervas que não serão extintas pelos fogos intensos, pois na próxima primavera volta tudo a nascer. É isso que defino que temos de fazer com os desafios que temos pela frente”.

Marés Vivas

Em “Marés Vivas”, que começa nos anos 2000, Qiaoqiao [Zhao Tao, esposa de Jia e protagonista de muitos dos seus filmes] e Bin (Li Zhubin) vivem uma história de amor. Quando Bin desaparece para tentar a sorte noutra província, Qiaoqiao decide ir procurá-lo. Seguindo a sua heroína ao longo da vida, Jia Zhang-ke envolve todos os seus filmes e mais de 20 anos de história de um país em mudança. “Foi um projeto bastante desafiante pela quantidade de material que juntei nos últimos 20 anos”, diz-nos o cineasta, que por causa disso sentiu a “necessidade de criar uma estrutura narrativa para dar a noção de continuidade” que faltava: “Dei-me muitas liberdades nessa busca da estrutura e organização de forma orgânica, sem conceitos prévios de como o filme deveria ser” e com cuidado para ter uma coerência visual e sonora de tudo o que reunia: “Queria um trabalho muito linear sem flashbacks, pois pretendia levar a audiência nesta jornada em tempo real. Queria mostrar como as pessoas mudaram, internamente e externamente, passo a passo. Depois, entre outras coisas que mantive na mente, quis sempre oferecer a sensação de uma era. Queria que as pessoas ficassem agarradas menos ao enredo, que é bastante simples e claro, e tivessem mais atenção ao subtexto, ao zeitgeist e à transformação que acontecia.

E é via o som que Jia diz que o seu filme tem uma força especial. “O som é aquilo que é mais fácil de esquecer e se olharmos para os tempos antigos, temos acesso a uma ideia dos visuais, mas nunca do som. Nesse ponto, tive o privilégio de captar e queria mostrar detalhadamente às pessoas essa experiência”, diz-nos, acrescentando que optou que as suas personagens e atores se apoiassem mais nas expressões faciais e na linguagem corporal, e menos no uso da palavra: “Através dos diálogos consegues facilmente descrever o que queres dizer, mas simultaneamente simplificamos algo que é tão detalhado, profundo e complexo. Tento evitar isso desenhando a minha protagonista, não para simplificar ou aclarar o enredo, mas para tornar a personagem mais abstrata. E recorro principalmente a atalhos visuais que servem para dar mais atenção à sua complexidade e dos tempos em que vive”.

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