Artesã da literatura no Japão, onde mantém também uma forte ligação ao universo das artes plásticas, Maha Harada constrói há cerca de duas décadas mundos no papel, embora sempre se tenha deixado encantar por formas narrativas visuais, em especial pela pintura do americano Mark Rothko (1903-1970). Nascida em 1962, a escritora japonesa, autora de uma extensa obra de ficção marcada pela memória, estreia-se como realizadora e argumentista de longa-metragem com In My Father’s Room (Muyou no Hito). É a adaptação de um conto seu, “Muyou no hito”, apresentado internacionalmente como “An Unnecessary Man“. O filme integra a Competição Oficial do Festival de San Sebastián e causou impacto pela beleza do seu argumento na exibição desta segunda-feira, com Issey Ogata no elenco.
“Existe muito simbolismo neste filme, em especial em relação à cerimónia do chá no Japão, muito forte na minha cultura”, disse Maha ao C7nema, em Donostia, onde contou que começou o projeto da longa-metragem há quatro anos.
A passagem da prosa literária ao cinema não representa, no caso de Harada, uma rutura tão radical quanto poderia parecer. Antes de se tornar escritora, trabalhou como consultora de arte e passou por instituições como o Mori Art Museum e o Museum of Modern Art (MoMA), em Nova Iorque. Em 2002, tornou-se curadora independente e, em 2005, ganhou o primeiro Japan Love Story Award por Waiting for Good News, estreando-se como escritora no ano seguinte. Entre os seus livros está Canvas of Paradise, romance sobre a autenticidade de uma pintura atribuída a Henri Rousseau e vencedor do Prémio Yamamoto Shūgorō em 2012. É justamente nessa ligação entre a arte e a memória que In My Father’s Room parece encontrar a sua origem mais natural.
A protagonista, Satomi, trabalha num museu de arte. Um mês depois da morte solitária do pai, recebe um envelope contendo uma chave. Descobre então um quarto cuja existência desconhecia, pertencente ao homem que, aparentemente, havia sido deixado à margem da sociedade.
A partir desse pequeno objeto, Satomi começa a reconstruir os últimos dias do pai e, aos poucos, a descobrir o mundo silencioso que ele habitava, marcado pelas palavras e pela arte do chá, com uma atenção particular à beleza. “Relaciono-me com obras de arte há muito tempo e queria transcender aquilo que via nas imagens”, disse a autora, agora também realizadora, ao C7nema, citando a francesa Marguerite Duras (1914-1996) como inspiração. “Quando as pessoas falam alto, tapamos os ouvidos para nos proteger do barulho. Com os sussurros, não. O sussurro chega mais depressa ao coração.”
Em In My Father’s Room, o que se ouve é justamente esse tipo de voz: a de uma filha que tenta reconstruir um pai que nunca conheceu inteiramente. Harada encontra essa quietude também na experiência estética que teve com O Espírito da Colmeia, de Víctor Erice. “Vi esse filme há 40 anos, mas ainda sinto a sua presença em mim”, diz.
San Sebastián chega ao fim neste sábado.

