Um filme de artes marciais é, antes de tudo, um exercício de expressão coreográfica. A narrativa constrói-se a partir da beleza que os movimentos do corpo podem produzir ao serviço da violência, mesmo quando os golpes são ampliados por efeitos visuais digitais. Quando a matéria-prima vem dos videojogos, o desafio aumenta: é preciso traduzir para a fisicalidade humana uma gramática eletrónica nascida de comandos e combinações, além de muitas vezes movimentos impossíveis.

Realizado por Kitao Sakurai, Street Fighter encontra nessa transposição o caminho para se afirmar como uma banda desenhada viva, projetada a 24 fotogramas por segundo e mergulhada numa espécie de aguarela sinestésica. A estrutura dramática recupera tanto a tradição dos torneios clandestinos de Bloodsport como a investigação criminal de Enter the Dragon. A diferença está no frenesim visual de uma produção da Legendary em parceria com a Capcom, que transforma a mitologia dos arcades num espetáculo cinematográfico.

Ambientado em 1993, seis anos depois da criação do jogo original, o filme reúne Ryu (Andrew Koji) e Ken Masters (Noah Centineo), antigos companheiros convocados por Chun-Li (Callina Liang) para participar no World Warrior Tournament. A competição rapidamente se revela parte de uma conspiração que envolve rivalidades, segredos e fantasmas do passado, com M. Bison (David Dastmalchian) no centro da ameaça — uma escolha de elenco que está longe de convencer.

A conceção visual é um dos grandes trunfos desta aventura. Cores saturadas, figurinos extravagantes, cenários exuberantes e referências à cultura popular dos anos 90 compõem um universo que parece ter escapado diretamente dos videojogos. A montagem de Luke Lynch e a fotografia de Ken Seng intensificam a vertigem, aproximando a ação de um desenho animado feito de carne, osso e energia digital. Também a memória do anime associado à saga encontra espaço nesta celebração visual, que não receia o exagero nem procura esconder a origem eletrónica da sua fantasia.

Entre as atrações do elenco, Jason Momoa merece destaque como Blanka, a fera verde brasileira. O ator percebe a dimensão caricatural da personagem e diverte-se com a sua aparência monstruosa, sem perder a fisicalidade necessária para a fazer funcionar nos combates. Cody Rhodes como Guile, 50 Cent como Balrog, Roman Reigns como Akuma e Vidyut Jammwal como Dhalsim reforçam a impressão de que cada intérprete foi escolhido para ocupar um espaço muito próprio neste painel de figuras maiores do que a vida.

O resultado não procura a solenidade dos dramas realistas. Prefere a expressividade dos corpos, as poses reconhecíveis e a teatralidade dos confrontos. Há aqui uma ode assumida aos anos 90, com as suas delícias, excessos e contradições. O Hadouken, a descarga de energia lançada pelas mãos de Ryu e Ken, deixa de ser apenas um comando conhecido por gerações de jogadores para se tornar no emblema de uma aventura nostálgica que faz da memória afetiva parte do seu combustível.

A história cinematográfica da franquia, contudo, aconselha alguma cautela. Street Fighter, lançado em 1994 com Jean-Claude Van Damme e Raúl Juliá, arrecadou cerca de 99 milhões de dólares em todo o mundo, mas não conseguiu criar uma saga cinematográfica à altura do fenómeno dos videojogos. Street Fighter: The Legend of Chun-Li, de 2009, teve um destino ainda mais duro. Agora, Hollywood tenta acompanhar o sucesso recente das adaptações de videojogos, depois de The Super Mario Bros. Movie ter ultrapassado 1,3 mil milhões de dólares de receitas mundiais e de A Minecraft Movie ter chegado aos 960 milhões.

A diferença é que Street Fighter aposta menos na solenidade de uma aventura convencional do que na exuberância da sua própria artificialidade. Sakurai percebe que a coreografia dos videojogos exige uma relação particular com o movimento, o espaço e a cor e faz dessa compreensão uma virtude. Entre a nostalgia dos arcades, a estilização quase animada e o prazer de ver Momoa encarnar uma das figuras mais singulares da franquia, o filme encontra a sua razão de ser: aqui, a pancadaria também é desenho, ritmo e espetáculo.

Não parece haver game over à vista para a diversão que este filme gera.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
street-fighter-quebra-a-pasmaceira-pop-no-resgate-dos-anos-1990A diferença é que Street Fighter aposta menos na solenidade de uma aventura convencional do que na exuberância da sua própria artificialidade.