Já lá vão 24 anos desde que a atriz Jasmine Trinca despontou para o cinema em “O Quarto do Filho”, drama de Nanni Moretti que narra as dificuldades de uma família em ultrapassar e viver o peso da morte de um filho. Nesse filme, Jasmine era Irene, a irmã do rapaz, apanhada no centro de um turbilhão emocional. Dois anos depois, a atriz surge em outra obra que se tornou lendária no recente cinema italiano, “A Melhor Juventude” (2003), de Marco Tullio Giordana, seguindo-se colaborações com outros cineastas como Giovanni Veronesi (Manual do Amor, 2005), Michele Placido (Romance Criminal, 2005), Bertrand Bonello (Apollonide – Memórias de Um Bordel, 2011), Emanuele Mouret (Une autre vie, 2013), Valeria Golino (Miele, 2013) e novamente Moretti (O Caimão, 2005).



Vencedora da categoria de melhor atriz na Un Certain Regard do Festival de Cannes de 2017, por “Fortunata”, a atriz, que já completou duas décadas de carreira, voltou ao certame posteriormente como realizadora, com a comédia de forte toada biográfica “Marcel!” (2002).
Mantendo agora várias frentes criativas, ora como atriz, ora como realizadora, em diferentes meios, dos filmes às séries, Jasmine Trinca tem mostrado uma apetência enorme para explorar personagens complexas, sejam estas freiras, como o fez na série “A Arte da Alegria”, trabalhadoras do sexo, como o fez em “Supersex”, sobre a estrela pornográfica Rocco Siffredi, ou como uma mulher pobre e perseguida nos tempos da 2ª Guerra Mundial em “La Storia”, ou ainda como a lendária pedagoga Maria Montessori, no filme homónimo que chega esta semana às salas portuguesas.
“Não gosto de falar em escolher papeis pelo desafio, pois não sou esse tipo de atriz, naquele sentido americano do ‘Changeling’, mas a ideia de dar complexidade a uma personagem feminina atrai-me muito”, disse a atriz ao C7nema em 2024, por ocasião da Festa do Cinema Italiano. “No ‘Supersex’ havia muita complexidade e ambiguidade na personagem. Não era aquilo que hoje em dia elevamos como uma história de emancipação (…) No ‘La Storia’ não era a complexidade da personagem que me atraia, mas sim o facto de eu ter uma atração por personagens que vivem nas sombras. Ela era uma pobre mulher a lidar com a vida durante a guerra. A ideia era ver que pessoas miseráveis durante uma guerra podem ser os nossos heróis sem que exista um holofote sobre elas. Para a personagem, o que faz é o seu dia a dia, não é nada heroico (…) No ‘Maria Montessori’, mais que falar de todo o seu trabalho, o que me atraia e pretendia encontrar era o seu espírito (…) O cinema é mais forte que conceitos. A imagem é mais poderosa que as palavras. Com isso, sinto que os atores têm uma grande responsabilidade. Por isso, hoje em dia, não aceito fazer papéis que não se enquadrem na minha ideia, não de definição do feminino ou masculino, mas de sermos seres complexos. Em Itália, frequentemente, vemos as mulheres como mães, santas e pouco mais. Não existe um progresso das personagens”.

Reconhecendo que em “Maria Montessori” – que acompanha não apenas a vida profissional da lendária pedagoga que olhou de forma diferente para a educação de crianças com deficiências, estigmatizadas pelas suas próprias famílias e socialmente maltratadas, mas também para o sofrimento da sua vida privada – a maioria do trabalho de investigação sobre a personagem foi feito pela cineasta Léa Todorov, Trinca explica que procurou ser honesta na sua abordagem, ouvindo, como nunca, o que os outros atores do filme, em particular as crianças, tinham para lhe dizer. “Quis tornar-me nela sem estudar todo o trabalho que fez, mas captar essencialmente o seu espírito”, explica, acrescentando que durante a produção aprendeu que, muitas vezes, os ‘acidentes’ durante as filmagens podem enriquecer muitíssimo um filme. “Como estávamos a trabalhar com crianças, aconteceram muitos acidentes. Aconteceram coisas sem controle e isso torna tudo tão difícil como excitante. Como atriz, isso é libertador e as filmagens deste filme, dentro de alguma rigidez do texto do guião, foram bastante livres”.
E livre também foi a sua estreia na realização, “Marcel!”, onde contou com Alba Rohrwacher no protagonismo. “Já era atriz há 20 anos, mas começar algo de novo, como ser realizadora, foi muito desafiante e entusiasmante”, disse Jasmine, alfinetando o seu país natal no que concerne ao facto dele não receber muito bem atores que se transformam em realizadores: “O filme não foi bem recebido, creio, devido à sua forma. Não procurava fazer um filme para massas, apenas uma comédia de coração aberto. Ninguém entendeu o filme. Não fiquei triste, mas pensei que talvez tenha de simplificar o cinema que faço. Era um objeto muito pessoal e muito livre, não apenas pelo tema, mas pela forma. Foi um grande prazer filmar e certamente quero voltar a filmar novamente. Aprendi muito com a experiência, particularmente quando me sentei na mesa de montagem.”






