O grande vencedor do Festival do Rio 2026 parece nascer de um casamento improvável e fascinante: nota-se um perfume do Apichatpong Weerasethakul de Tropical Malady (2004) a cruzar-se com as ancestralidades de um Brasil dos manguezais, historicamente atravessado pela perseguição aos corpos pretos, gays e trans. A Margem do Rio, de Enock Carvalho e Matheus Farias, é um tratado político desenhado com as ferramentas de um suspense tenso, húmido e febril. Abraça uma dimensão espectral como resposta à intolerância. Fala frontalmente com as plateias sobre o querer, sobre o prazer de gozar e sobre a liberdade de um corpo desejar outro corpo, mas também sobre a fronteira cada vez mais turva entre religião, poder e ordem de governo. No seu Pernambuco de águas escuras, encantarias e fundamentalismos, a mais assustadora das assombrações não vem do sobrenatural: nasce da vontade humana de vigiar, disciplinar e interditar o desejo.

Essa mistura de erotismo, política e mistério saiu consagrada da Première Brasil, na 28.ª edição do Festival do Rio, em muitas frentes, de modo a desenhar-se como um alerta para os perigos que rondam a sua pátria numa fase de votação eleitoral presidencial, onde fossas bolsonaristas se abrem mais uma vez. Carregado de reflexão crítica, como um aríete contra o conservadorismo, A Margem do Rio conquistou o Troféu Redentor de Melhor Longa-Metragem de Ficção e deu à produção ainda as estatuetas de Fotografia, Som e Atriz Secundária — esta última partilhada por Renna Costa, Artia e Ísis Broken —, além do Prémio Félix, dedicado ao cinema LGBTQIAPN+. O resultado carioca amplia uma carreira internacional iniciada em agosto, quando o filme estreou na competição oficial do Festival de Locarno, na Suíça, na disputa pelo Leopardo de Ouro, e saiu de lá com o Prémio Especial do Júri presidido pelo cineasta belga Fabrice Du Welz.

O Brasil já pode, aliás, celebrar a consagração internacional de Luciana Baseggio como uma das mais inventivas artesãs da luz do seu cinema. A sua fotografia em A Margem do Rio desafia convenções historicamente testadas na seara do suspense, convertendo sombras, reflexos e texturas aquáticas numa dramaturgia visual do desejo. Baseggio já havia impressionado a Europa em 2025 com Ato Noturno, uma das sensações da Berlinale, trabalho que lhe valeu igualmente um Redentor no Festival do Rio. Locarno referendou essa ascensão e o Rio acaba de lhe acrescentar outra moldura.

Numa narrativa sinestésica, em permanente flerte com o mistério, A Margem do Rio acompanha Izaquiel (Caique Copque), um auxiliar de serviços gerais do Recife que, noite após noite, se aventura em encontros secretos com outros homens pelas rotas fluviais e pelos manguezais da cidade. Numa dessas incursões em busca de gozo, cruza-se com Jeremias (Ítalo Martins, ator em momento particularmente inspirado), pescador de magnetismo quase sobrenatural. O encontro deixa o jovem zelador hipnotizado pelo querer. Durante o dia, porém, a encantaria do sexo desaparece para dar lugar a uma rotina laboral capitalista opressiva, agravada quando Izaquiel é destacado para trabalhar na sede de um culto evangélico.

É aí que a fantasia se cruza com o retrato de um Brasil dominado por interditos morais. O pastor que controla aquele espaço, interpretado com brilhantismo por Robério Diógenes, o delegado “imperfeito” de O Agente Secreto (2025), não tolera piercings nas orelhas nem unhas pintadas entre os seus funcionários. Há nele qualquer coisa do bispo maléfico de Ladyhawke (1985), figura de autoridade que transforma a fé num instrumento de vigilância e punição. O verdadeiro assombro, neste Nordeste cercado de elementos místicos, não vem das águas do mangue, mas do avanço de um fundamentalismo religioso empenhado em disciplinar corpos e desejos.

Na montagem taquicárdica assinada pelo próprio Matheus Farias com Will Domingos, à medida que Izaquiel se vê cercado por fanáticos, Jeremias convida-o para uma viagem às profundezas do coração do manguezal. A maneira como os realizadores — anteriormente conhecidos pela curta Inabitável — articulam erotismo, perigo e paisagem evoca L’Inconnu du lac (2013), de Alain Guiraudie, embora o território espiritual em que mergulham tenha algo da floresta sensual, masculina e fantasmagórica de Tropical Malady. O desenho sonoro é outra das grandes virtudes do filme e também saiu reconhecido pelo júri carioca.

O que torna A Margem do Rio singular é justamente a recusa em separar forma, desejo e discurso. A fotografia não ilustra a opressão: transforma-a numa experiência sensorial. O som não acompanha simplesmente o medo: dá-lhe corpo. O mangue não funciona como cenário: é organismo, esconderijo e possibilidade de fuga. E o sexo não aparece como provocação decorativa, mas como afirmação política do direito ao prazer. Depois de Locarno, o Festival do Rio confirmou que Enock Carvalho e Matheus Farias encontraram uma linguagem própria para o filão do suspense contemporâneo, num viés brasileiro — uma linguagem na qual, entre fantasmas, águas e corpos que se procuram, o terror mais profundo continua a ser produzido pelos vivos, em especial aqueles que acreditam mandar no povo mais pobre.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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