Tornando-se Led Zeppelin: filme reconstroi os primeiros passos de uma banda lendária

“Led Zeppelin – O Nascimento da Lenda” (“Becoming Led Zeppelin”, no original) estreia nos cinemas portugueses a 15 de maio, numa distribuição da Zero em Comportamento. O C7nema conversou com o realizador Bernard MacMahon sobre este ambicioso mergulho nos primórdios da mítica banda britânica.

Enquanto muitos ainda se perguntam se talvez noutro tempo, talvez noutra galáxia, será possível existir uma banda igual a esta, Bernard MacMahon e a produtora Allison McGourty decidiram mapear as origens do fenómeno. Um período relativamente pouco documentado que exigiu escavações profundas: foram a arquivos esquecidos, sótãos, caves e coleções pessoais em busca de fotos, vídeos, entrevistas, jornais — qualquer vestígio que pudesse lançar luz sobre como o “zeppelin de chumbo” (nome sugerido por Keith Moon que John Paul Jones achou horrível!) levantou voo.

Uma das grandes histórias do filme é a descoberta de um raro áudio com John Bonham, falecido em 1980 e que raramente deu entrevistas em vida. Trata-se, nas palavras do próprio realizador, da grande “Eureka” do projeto: uma gravação em que o baterista narra, com detalhes, episódios exatamente do período coberto pelo documentário — que vai até ao lançamento de Led Zeppelin II, marco da consagração mundial do grupo.

Complementando esse acervo impressionante, o filme conta com entrevistas detalhadas e generosas dos três membros remanescentes — um feito em si, considerando a habitual reserva do trio. Robert Plant rememora histórias singulares da juventude, como o tempo em que praticamente vivia como sem-abrigo, ou o momento em que reencontra os rabiscos da primeira letra que escreveu, “Ramble On”Jimmy Page, por sua vez, fala das “bruxarias” de estúdio e faz uma declaração curiosa: tocou com praticamente todos os músicos da Inglaterra nos anos 60 como guitarrista de estúdio — com exceção, para o seu pesar, com os Beatles. Já John Paul Jones revela um lado surpreendentemente bem-humorado e pessoal, narrando desde os dias em que começou improvisando hinos numa igreja até o momento em que o pai, um pianista de “vaudeville”, foi vê-lo orgulhoso no Royal Albert Hall.

Na segunda metade do filme, a música assume o protagonismo. Sessões raríssimas — algumas hilárias, como uma versão pesadíssima de “Communication Breakdown” tocada num evento diante de mães, idosos e crianças tapando os ouvidos — demonstram a fúria criativa e a obstinação dos quatro músicos na busca pelo sucesso.

Ao final da conversa, deixamos uma pergunta essencial para MacMahon: o que fez — e continua a fazer — dos Led Zeppelin uma banda tão especial?

Um dos momentos mais marcantes do filme é ouvir a voz de John Bonham — especialmente com aquele impacto emocional no final, quando os outros escutam. Como essa gravação chegou até vocês?

Diziam-nos que não existiam entrevistas com o John Bonham além de algumas frases soltas, mas eu, a produtora Allison McGourty e o editor Dan Gitlin recusámo-nos a desistir! Acabámos por encontrar um bootleg com o John a falar com um jornalista australiano. Não sabíamos o nome dele, então enviámos a gravação a amigos e colegas na Austrália, até que conseguimos identificá-lo: Graeme Berry, um DJ que trabalhou na rádio 2SM de Sydney.

Ligamos para a rádio e pedimos que procurassem a fita, mas não encontraram nada. Então perguntei se tinham enviado os arquivos antigos para algum repositório. Responderam que algumas fitas tinham ido para a NFSA (Arquivo Nacional de Filmes e Som) da Universidade de Canberra. Contatamos para a universidade, mas após uma semana de buscas, também não encontraram nada. Quando já me preparava para desligar, perguntei se tinham fitas ainda não catalogadas — e responderam que tinham milhares. Consegui convencê-los a começar a ouvir e, após alguns meses, recebi a chamada: tinham encontrado a fita. Foi um verdadeiro momento “Eureka”.

E ainda melhor: o conteúdo superou os nossos sonhos mais ambiciosos. John falava de coisas que nenhum outro membro da banda tinha mencionado, e a entrevista aconteceu precisamente na época que o filme aborda. Pouco depois, encontramos mais duas gravações com ele. Agora o mundo — e a própria banda — pode ouvir a sua história contada na sua própria voz. É uma prova da perseverança da nossa equipa e mostra que, se acreditarmos que algo está por aí, provavelmente está mesmo!

O filme apresenta uma variedade impressionante de achados de arquivo — de comunicados de imprensa e agendas a contratos e, claro, fotografias incríveis. Até Robert Plant encontrou o rascunho da primeira letra que escreveu! Imagino que tenha sido um prazer descobrir tudo isso, mas também um pesadelo localizá-los, certo?

É o maior prazer encontrar esses materiais, mas é um dos trabalhos mais difíceis que se pode imaginar. Faço filmes em que a história vem em primeiro lugar, e só depois ilustramos com o arquivo. Por isso, estou sempre à procura de imagens muito específicas — filmes, fotografias, objetos — para contar essa história, o que torna a missão ainda mais desafiante. Muitos documentários constroem a narrativa em torno do que já existe no arquivo; nós fizemos o contrário.

E depois há os vídeos. Algumas imagens, como as do Bath Festival, que surpreenderam até os próprios membros da banda…

Quando a Allison e eu mostramos o filme pela primeira vez ao Robert Plant, ele ficou entusiasmado com a ideia, mas cético quanto à existência de material suficiente para um longa-metragem. Eu adoro esse tipo de desafio, e durante a produção fizemos disso um jogo: tentávamos surpreender a nós próprios e aos entrevistados com o que descobríamos.

Sabemos que temos algo realmente especial quando nem os próprios membros da banda tinham visto antes — ou quando um colecionador de cartazes dos Led Zeppelin nunca viu aquele exemplar. Isso garante que, quando o filme for lançado, o público vai ficar de queixo caído. Outra maneira de surpreender é com a qualidade do som e da imagem — e isso exige buscas longas e exaustivas para localizar os elementos originais e convencer os arquivos a enviá-los para nosso laboratório, onde conseguimos extrair o melhor possível daquele material.

À medida que o filme avança, as sequências musicais tornam-se mais imersivas, quase convidando o público a parar e simplesmente escutar. Foi uma escolha deliberada — deixar as músicas falarem por si?

Completamente. Foi uma decisão consciente e está no coração da abordagem do filme. Becoming Led Zeppelin é, na prática, um musical construído a partir de arquivos. As canções avançam a narrativa tanto pelas imagens quanto pelas letras.

Quando a banda está a lutar para conquistar o público europeu, ouvimos “Communication Breakdown”. Quando voam para Nova Iorque em busca de um contrato, ouvimos “Your Time Is Gonna Come”.

O mais importante: se o tema do filme é um grupo musical, então as suas canções merecem ser tocadas na íntegra — senão, qual o sentido de fazer o filme? As músicas completas permitem que o público compreenda o impacto da banda com os seus próprios ouvidos e ainda lhes dá tempo para digerir a informação que receberam antes da canção começar. Tudo apontava para este caminho, e fico muito feliz por termos seguido por aí!

Os membros dos Led Zeppelin sempre foram bastante reservados. Como foi a aproximação para garantir a participação deles — e como foi captar essas reflexões diante da câmara?

Abordámos como sempre fazemos quando queremos fazer um filme sobre alguém: com uma enorme preparação antes do primeiro encontro. Neste caso, foram mais de sete meses de trabalho intensivo — escrevemos um guião, fizemos o “storyboard”, buscamos arquivos, estudámos todos os detalhes da história. Só uma preparação profunda garante que o tema nos leve a sério.

A partir daí, uma relação de colaboração pode surgir. E neste caso, levou a uma série de entrevistas muito emocionantes, em que os membros da banda falavam connosco de forma íntima e direta, como se estivessem a falar com alguém da família. A pesquisa rigorosa gera confiança — e isso é fundamental.

A música dos Led Zeppelin continua tão poderosa e luminosa hoje como há décadas. O que acha que os tornou (e ainda os torna) tão especiais?

Eram quatro pessoas muito diferentes, com uma paixão absoluta pela música, que encaravam o grupo como um projeto profissional. Havia duas facções culturais muito distintas dentro da banda, cada uma vinda de uma parte diferente do Reino Unido. Todos tinham uma dedicação imensa à sua arte, o que os tornou mestres nos respetivos instrumentos.

Tinham uma visão única do que queriam fazer — e de como o queriam fazer — que estava completamente fora do que a indústria da música praticava na altura. E, por fim (mas não menos importante): era um grupo que não tinha nada dos Beatles no seu ADN. Isso, por si só, já os fazia destacar-se, após sete anos de Beatlemania. Ofereciam ao mundo algo radicalmente diferente. Tal como nós fizemos uma pesquisa intensa para criar este filme, eles fizeram o mesmo em termos musicais — e por isso estavam num nível extraordinário quando se lançaram.

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