Enquanto muitos ainda se perguntam se talvez noutro tempo, talvez noutra galáxia, será possível existir uma banda igual a esta, Bernard MacMahon e a produtora Allison McGourty decidiram mapear as origens do fenómeno. Um período relativamente pouco documentado que exigiu escavações profundas: foram a arquivos esquecidos, sótãos, caves e coleções pessoais em busca de fotos, vídeos, entrevistas, jornais — qualquer vestígio que pudesse lançar luz sobre como o “zeppelin de chumbo” (nome sugerido por Keith Moon que John Paul Jones achou horrível!) levantou voo.
Uma das grandes histórias do filme é a descoberta de um raro áudio com John Bonham, falecido em 1980 e que raramente deu entrevistas em vida. Trata-se, nas palavras do próprio realizador, da grande “Eureka” do projeto: uma gravação em que o baterista narra, com detalhes, episódios exatamente do período coberto pelo documentário — que vai até ao lançamento de Led Zeppelin II, marco da consagração mundial do grupo.
Complementando esse acervo impressionante, o filme conta com entrevistas detalhadas e generosas dos três membros remanescentes — um feito em si, considerando a habitual reserva do trio. Robert Plant rememora histórias singulares da juventude, como o tempo em que praticamente vivia como sem-abrigo, ou o momento em que reencontra os rabiscos da primeira letra que escreveu, “Ramble On”. Jimmy Page, por sua vez, fala das “bruxarias” de estúdio e faz uma declaração curiosa: tocou com praticamente todos os músicos da Inglaterra nos anos 60 como guitarrista de estúdio — com exceção, para o seu pesar, com os Beatles. Já John Paul Jones revela um lado surpreendentemente bem-humorado e pessoal, narrando desde os dias em que começou improvisando hinos numa igreja até o momento em que o pai, um pianista de “vaudeville”, foi vê-lo orgulhoso no Royal Albert Hall.
Na segunda metade do filme, a música assume o protagonismo. Sessões raríssimas — algumas hilárias, como uma versão pesadíssima de “Communication Breakdown” tocada num evento diante de mães, idosos e crianças tapando os ouvidos — demonstram a fúria criativa e a obstinação dos quatro músicos na busca pelo sucesso.
Ao final da conversa, deixamos uma pergunta essencial para MacMahon: o que fez — e continua a fazer — dos Led Zeppelin uma banda tão especial?
Um dos momentos mais marcantes do filme é ouvir a voz de John Bonham — especialmente com aquele impacto emocional no final, quando os outros escutam. Como essa gravação chegou até vocês?
Diziam-nos que não existiam entrevistas com o John Bonham além de algumas frases soltas, mas eu, a produtora Allison McGourty e o editor Dan Gitlin recusámo-nos a desistir! Acabámos por encontrar um bootleg com o John a falar com um jornalista australiano. Não sabíamos o nome dele, então enviámos a gravação a amigos e colegas na Austrália, até que conseguimos identificá-lo: Graeme Berry, um DJ que trabalhou na rádio 2SM de Sydney.
Ligamos para a rádio e pedimos que procurassem a fita, mas não encontraram nada. Então perguntei se tinham enviado os arquivos antigos para algum repositório. Responderam que algumas fitas tinham ido para a NFSA (Arquivo Nacional de Filmes e Som) da Universidade de Canberra. Contatamos para a universidade, mas após uma semana de buscas, também não encontraram nada. Quando já me preparava para desligar, perguntei se tinham fitas ainda não catalogadas — e responderam que tinham milhares. Consegui convencê-los a começar a ouvir e, após alguns meses, recebi a chamada: tinham encontrado a fita. Foi um verdadeiro momento “Eureka”.
E ainda melhor: o conteúdo superou os nossos sonhos mais ambiciosos. John falava de coisas que nenhum outro membro da banda tinha mencionado, e a entrevista aconteceu precisamente na época que o filme aborda. Pouco depois, encontramos mais duas gravações com ele. Agora o mundo — e a própria banda — pode ouvir a sua história contada na sua própria voz. É uma prova da perseverança da nossa equipa e mostra que, se acreditarmos que algo está por aí, provavelmente está mesmo!
O filme apresenta uma variedade impressionante de achados de arquivo — de comunicados de imprensa e agendas a contratos e, claro, fotografias incríveis. Até Robert Plant encontrou o rascunho da primeira letra que escreveu! Imagino que tenha sido um prazer descobrir tudo isso, mas também um pesadelo localizá-los, certo?
É o maior prazer encontrar esses materiais, mas é um dos trabalhos mais difíceis que se pode imaginar. Faço filmes em que a história vem em primeiro lugar, e só depois ilustramos com o arquivo. Por isso, estou sempre à procura de imagens muito específicas — filmes, fotografias, objetos — para contar essa história, o que torna a missão ainda mais desafiante. Muitos documentários constroem a narrativa em torno do que já existe no arquivo; nós fizemos o contrário.

E depois há os vídeos. Algumas imagens, como as do Bath Festival, que surpreenderam até os próprios membros da banda…
Quando a Allison e eu mostramos o filme pela primeira vez ao Robert Plant, ele ficou entusiasmado com a ideia, mas cético quanto à existência de material suficiente para um longa-metragem. Eu adoro esse tipo de desafio, e durante a produção fizemos disso um jogo: tentávamos surpreender a nós próprios e aos entrevistados com o que descobríamos.
Sabemos que temos algo realmente especial quando nem os próprios membros da banda tinham visto antes — ou quando um colecionador de cartazes dos Led Zeppelin nunca viu aquele exemplar. Isso garante que, quando o filme for lançado, o público vai ficar de queixo caído. Outra maneira de surpreender é com a qualidade do som e da imagem — e isso exige buscas longas e exaustivas para localizar os elementos originais e convencer os arquivos a enviá-los para nosso laboratório, onde conseguimos extrair o melhor possível daquele material.
À medida que o filme avança, as sequências musicais tornam-se mais imersivas, quase convidando o público a parar e simplesmente escutar. Foi uma escolha deliberada — deixar as músicas falarem por si?
Completamente. Foi uma decisão consciente e está no coração da abordagem do filme. Becoming Led Zeppelin é, na prática, um musical construído a partir de arquivos. As canções avançam a narrativa tanto pelas imagens quanto pelas letras.
Quando a banda está a lutar para conquistar o público europeu, ouvimos “Communication Breakdown”. Quando voam para Nova Iorque em busca de um contrato, ouvimos “Your Time Is Gonna Come”.
O mais importante: se o tema do filme é um grupo musical, então as suas canções merecem ser tocadas na íntegra — senão, qual o sentido de fazer o filme? As músicas completas permitem que o público compreenda o impacto da banda com os seus próprios ouvidos e ainda lhes dá tempo para digerir a informação que receberam antes da canção começar. Tudo apontava para este caminho, e fico muito feliz por termos seguido por aí!
Os membros dos Led Zeppelin sempre foram bastante reservados. Como foi a aproximação para garantir a participação deles — e como foi captar essas reflexões diante da câmara?
Abordámos como sempre fazemos quando queremos fazer um filme sobre alguém: com uma enorme preparação antes do primeiro encontro. Neste caso, foram mais de sete meses de trabalho intensivo — escrevemos um guião, fizemos o “storyboard”, buscamos arquivos, estudámos todos os detalhes da história. Só uma preparação profunda garante que o tema nos leve a sério.
A partir daí, uma relação de colaboração pode surgir. E neste caso, levou a uma série de entrevistas muito emocionantes, em que os membros da banda falavam connosco de forma íntima e direta, como se estivessem a falar com alguém da família. A pesquisa rigorosa gera confiança — e isso é fundamental.
A música dos Led Zeppelin continua tão poderosa e luminosa hoje como há décadas. O que acha que os tornou (e ainda os torna) tão especiais?
Eram quatro pessoas muito diferentes, com uma paixão absoluta pela música, que encaravam o grupo como um projeto profissional. Havia duas facções culturais muito distintas dentro da banda, cada uma vinda de uma parte diferente do Reino Unido. Todos tinham uma dedicação imensa à sua arte, o que os tornou mestres nos respetivos instrumentos.
Tinham uma visão única do que queriam fazer — e de como o queriam fazer — que estava completamente fora do que a indústria da música praticava na altura. E, por fim (mas não menos importante): era um grupo que não tinha nada dos Beatles no seu ADN. Isso, por si só, já os fazia destacar-se, após sete anos de Beatlemania. Ofereciam ao mundo algo radicalmente diferente. Tal como nós fizemos uma pesquisa intensa para criar este filme, eles fizeram o mesmo em termos musicais — e por isso estavam num nível extraordinário quando se lançaram.






