Les Survivants du Che: Christophe Dimitri Réveille e como Che Guevara foi “morto fisicamente e depois pelo marketing”

(Fotos: Divulgação)

Quase sessenta anos depois da morte de Ernesto “Che” Guevara (1928-1967) na Bolívia, Les Survivants du Che, de Christophe Dimitri Réveille, regressa aos homens que ficaram fora do mito.

Estreado no Festival de Cannes, numa sessão especial, o documentário recupera a história dos seis guerrilheiros que sobreviveram à captura e execução de Che Guevara, iniciando uma fuga de 2.400 quilómetros através de montanhas, florestas e povoados hostis, perseguidos pelo exército boliviano.

Resultado de uma investigação de 22 anos, o documentário articula material de arquivo, animação e testemunhos de sobreviventes, militares bolivianos, antigos agentes da CIA e outras figuras ligadas aos últimos dias de Che. Mais do que construir uma hagiografia ou transformar a guerrilha num gesto puramente heroico, Réveille procura lidar com as zonas cinzentas e ambíguas da memória.

Ao C7nema, o realizador falou sobre os homens nas sombras, a morte física e simbólica de Che, a animação como “grão da memória” e a obsessão de terminar um filme que, para ele, tinha de existir antes que os seus protagonistas desaparecessem para sempre.

Christophe Dimitri Réveille

O que significa Che Guevara para si?

É uma pergunta muito ampla, podia levar uma hora a responder. Muitas vezes, quando chego a uma festa, perguntam-me: “Então, para ti, Fidel Castro ou Che?” Se gostam deles, dou razões para não gostarem. Se não gostam, dou razões para gostarem.

A resposta é complexa. O que posso dizer é que aquilo que o fez mover-se, aquilo que viu e aquilo que o empurrou para querer mudar o mundo me interessa profundamente.

Digo isto sabendo que sou privilegiado, portanto não tenho lições a dar. Mas tenho privilégios, e parece-me louco não querer partilhá-los, não nos perguntarmos se não podemos construir um mundo melhor.

Depois há a questão mais complicada: ele quis mudar o mundo através da violência. Interrogo-me muito sobre isso. Tenho medo da minha própria violência. Ao mesmo tempo, olho para alguém como Allende, que tentou outro caminho, e vemos que acabou derrubado. No mundo atual, pergunto-me se não continuam a ser apenas os que usam a violência para serem ouvidos. Mas essa violência produz algo que não podemos validar: não podemos impor aos outros a nossa forma de ver as coisas.

Por isso, não tenho a resposta. Mas interessa-me dizer que houve pessoas movidas por um ideal. Podiam ter ficado nos seus privilégios, e nada teria mudado para elas. Ainda assim, moveram-se.

Porque decidiu contar aquilo que falta, os bastidores, os sobreviventes, em vez de fazer um filme diretamente sobre Che Guevara e os seus companheiros mais conhecidos? Talvez tivesse sido mais fácil financiar o filme se tivesse escolhido o próprio Che.

Nem pensei no financiamento. Gosto muito de biografias e de História. E percebi uma coisa: quando era mais novo, e mesmo quando entrei neste projeto, dizia: “Ele é um traidor, é um canalha.” Mas quanto mais entramos na grande História através da pequena história, mais percebemos que tudo é mais complexo.

Aquilo que me interessa nas revoluções são muitas vezes as pessoas nas sombras. Interessa-me o processo, a fabricação, as pessoas de quem ninguém fala nos livros de História e sem as quais, no entanto, não haveria revolução nem mudança.

Achei louco existirem homens que saíram vivos. Pensei: “Espera, como assim? Há homens que saíram vivos quando Che morreu?” A história deles deu sentido à minha.

Tive um choque na minha vida e é por isso que no filme há também um trabalho de memória com a animação. A minha memória falhou-me de alguma forma e depois segui um caminho errado. Quando encontrei a história deles, pensei: há pessoas que atravessaram coisas muito duras, coisas que eu nem toquei num centésimo, e ainda assim puseram-se em movimento para que outros não passassem pelo mesmo.

Isso fez eco em mim. Talvez possamos mexer-nos um pouco para contar a história de pessoas que merecem que a sua história seja contada.

Como encontrou esta história rocambolesca?

Tinha acabado de falhar um projeto. Adaptara, com um amigo, uma obra de Albert Camus, e a Catherine Camus respondeu-nos — e ela tem razão em relação à obra do pai — que validava moralmente aquilo, mas que, em termos de ceder direitos, era muito novo. Começava a perceber que nunca conseguiríamos adaptar Albert Camus.

Um pouco deprimido, entrei numa livraria em Saint-Germain e vi um livro sobre Che. Pensei: “Ah, Che. É curioso.” No fim desse livro havia uma frase: “Che caiu, a história pára aí. Seis homens saíram vivos.”  Comecei por um, depois dois. No início, ia fazer um documentário sobre um deles. Depois escrevi a biografia dele. Mas ele tinha sido condenado à morte por Fidel Castro e, de repente, as pessoas não queriam ver-me porque eu estava com o “traidor”. Só que percebemos que o traidor diz: “Não fui eu que traí a revolução, foi a revolução que me traiu.”

Tentei não ser dogmático e ouvir todos os pontos de vista, até o do exército boliviano. Muitas vezes dizem: “Che morreu e parecia Cristo.” Sim, mas isso carrega todo um pensamento. Era preciso encontrar quem foi Pôncio Pilatos, quem foi Judas, quem são os romanos.

Ao entrevistar as pessoas, percebemos que os traidores não são necessariamente aqueles que foram acusados de traição. Como Che, no diário, questionou certas coisas, e como está morto, parece que Che não se pode enganar. Eu digo: pois, mas pode.

Também conheci o exército boliviano. O homem que prendeu Che na ravina era mais de esquerda do que o resto do exército. Continua a ser exército, mas era mais à esquerda.

Por isso mantive no filme quando ele diz: “Cumprimos o nosso dever em consciência, para defender o nosso território.” Tentei dar a palavra a todos, sem julgar. Estou profundamente do lado dos heróis, porque faço deles heróis, mas não quis acusar estupidamente quem os perseguiu.

Les Survivants du Che

Como pensou a estética do filme, com animação, imagem real e entrevistas?

No início, estava muito focado nas entrevistas, sem saber exatamente o que aquilo ia dar. Como eles eram velhos, diziam-me: “Tens de escrever, tens de ir buscar dinheiro.” E eu pensava: eles têm entre 80 e 90 anos. Quando os apanhamos, não podemos dizer: “Volto daqui a seis meses.” Quando os temos, temos.

Às vezes tinha uma câmara, às vezes três. Em Cuba tive de fingir que era turista. Com um dos meus três protagonistas principais, só tinha uma câmara, e pensava: “Não é possível filmar.”

Depois perguntei-me como mergulhar os espectadores na pele daqueles homens. Adoro ver estas pessoas a falar, mas isso reduziria muito o público e, sobretudo, não colocaria o espectador dentro da experiência.

Mesmo os espaços eram fundamentais. Uma coisa é dizer que eles estão na selva, atravessam a cidade ou o deserto. Mas esse espaço é quase uma sétima personagem. Quando o vemos, sentimos.

Ao refazer esse caminho da memória, faltava colocar o espectador dentro da ação. Eles passam muito depressa sobre a ação, porque não querem falar muito disso. Estão habituados a ouvir: “Qual foi a última vez que viu Che? O que é que ele lhe disse?” Eu também fiz essa pergunta, está no filme. Mas depois dizia: “E antes? E depois?” E eles respondiam: “Mas o seu documentário é sobre Che.” Eu dizia: “Não, vocês saíram vivos.”

No início, resistiam. Insistindo, acabavam por contar. E percebi que era preciso fazer o espectador viver essa ação.

Como sou fã de banda desenhada, pensei nessa linguagem. Se filmamos um acidente de carro, onde cortamos? No impacto ou antes, quando o carro trava e a personagem se vira, passando depois para a animação?

Com o orçamento que tínhamos, podíamos fazer 18 minutos de animação. Uma animação de memória, com poucos elementos. Tentámos reconstruir fotografias. Faço muita fotografia analógica e disse ao CNC que, quando envio uma fotografia da minha filha ao meu pai, não lhe digo se é analógica ou digital, mas quando é analógica ele diz sempre: “Esta é bonita.”

Tentámos encontrar esse grão analógico, que para mim é o grão da memória. A animação mergulha as pessoas na ação. Pelo retorno que temos tido, parece que funciona.

Benigno em Les Survivants du Che

A morte de Che parece ter algo de Cristo. Com o trabalho que fez, o que compreendeu sobre essa aura, esse carisma de Che Guevara?

A imagem de Cristo é mais para quem não o conheceu. Para os sobreviventes, acho que é diferente. Digo na voz-off que os três bolivianos perdem um líder, enquanto os três cubanos perderam muito mais.

Quando conheceram Che, os três cubanos tinham 14 ou 15 anos. Para Benigno (Dariel Alarcon), era uma figura paterna. Para Pombo (Harry Villegas), era mais político, um irmão mais velho. Havia conversas políticas reais. Urbano (Leonardo Tamayo) estava entre os dois: também havia nele algo de figura paterna.

Havia os homens de Fidel e os homens de Che. Régis Debray diz muitas vezes: “Sou visto como companheiro de Che, mas era mais companheiro de Fidel.” Pombo era mais próximo de Che. Urbano estava entre os dois. Benigno não era realmente próximo de nenhum dos dois, mas vejo-o mais ligado à figura de um pai duro.

Quando Che morreu, eles queriam sair para contar a Fidel o que tinha acontecido e recomeçar a luta. Não era: “Quero sobreviver.” Era: “Quero sair para voltar.” Nesse sentido, foram até ao fim.

A História costuma ser feita por grandes homens como Che Guevara, mas este é um filme sobre as “pequenas mãos” que também tornaram a revolução possível. Porque é tão importante para si recuperar a memória de pessoas que não tiveram lugar nos livros de História?

O meu psiquiatra talvez pudesse explicar melhor (risos). Acho que tem a ver com a minha relação com a morte. Sou muito egocêntrico. Toda a gente diz que não tenho ego, mas tenho um ego desmesurado: luto contra Deus.

Tenho medo de morrer sem ter vivido. Perdi a minha mãe muito jovem e pensei: ela privou-se a vida inteira, dizia “mais tarde, mais tarde”, e quando finalmente poderia viver, morreu.

Há em mim uma urgência de viver as coisas antes de desaparecer. Mas, acima de tudo, sem estes homens não há Che Guevara. Acho mais heróico fazer coisas quando ninguém nos vai reconhecer. Chamo-lhes os sacrificados da História. São os que fazem realmente as revoluções e que, muitas vezes, são traídos por elas quando vencem.

O que pensa da forma como os jovens veem Che hoje? A imagem dele é a de um mártir, de uma ideologia, mas também estranhemente se tornou um símbolo de consumo. Há até uma marca de tabaco chamada Che.

Ele foi morto duas vezes. Morto fisicamente e depois pelo marketing, recuperado pelo consumo. Não sei se isso ainda pertence à minha geração, ou à tua. Nós sabemos quem ele é, mas acho que os miúdos de 14 anos não querem saber.

Tenho a impressão de que o filme não agradará nem aos grandes defensores de Che nem aos anti-Che, porque tentei não ser dogmático. Não escondi que houve execuções quando a revolução cubana venceu. Não escondi que Castro se manteve no poder também porque houve um bloqueio que o ajudou a permanecer no poder.  Questiono mais do que afirmo.

No fim, acho importante que venha de um guerreiro a ideia de que não são os “ismos” que contam. Comunismo, capitalismo, socialismo: o que conta é a coisa justa.

Quanto tempo demorou a fazer o filme? Vemos no fim que quase todos já morreram.

É aqui que perco toda a credibilidade: 22 anos. Comecei em dezembro de 2004. Em 2003 contactei as pessoas; em 2004 consegui chegar ao primeiro. Portanto, de 2004 a 2026.

Foram 22 anos a bater contra paredes. Quando se trabalha 22 anos num filme, a resposta honesta é: eu tinha de acabar este filme.

Vou lançar em breve um livro sobre esta história, porque há 90% de informação que não entrou: quem disparou, o que aconteceu. Há uma bala no coração. A bala não saiu, portanto alguém a pôs lá. Havia pólvora. Entrevistei o médico que aponta isso. Coloquei essas pessoas nos agradecimentos porque me ajudaram-me a construir a voz do filme.

Há uma personagem muito interessante no filme, com presença secundária: Régis Debray, que decide ir fazer a revolução e que, quando é preso na Bolívia, parece ter sido forçado a confirmar a presença de Che. Por que decidiu não lhe dar mais importância?

Ele confirmou a presença de Che. Não disse que foi ideia dele. No início, Régis foi muito duro comigo. Mas há um próximo filme que estamos a fazer com Swann Arlaud. Swann vai interrogar Régis Debray em casa dele. Esse será o segundo filme. Rezo para que também esteja em Cannes, porque é muito bom viver isto.

Swann é um grande tipo, uma bela pessoa. Ele assusta-me um pouco. Conhecemo-nos, mas eu só lhe falo do projeto, e para ele sou louco.

O que será esse próximo filme?

Swann Arlaud encontra Régis Debray. É essa a história. Porque Carmen Castillo e Régis têm uma história juntos. O próximo filme é a revolução. Para mim, Carmen é uma revolução. Devo a minha vida a Carmen Castillo. Amo-a com todo o meu coração.

Swann Arlaud recusa interpretar Régis Debray e, porque recusa interpretá-lo, vai encontrá-lo. Swann vai explicar a vida de Régis através das suas perguntas, e Régis vai revelar-nos como funciona o trabalho. Para revelar duas pessoas, o melhor é ter uma personagem secundária.

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