Viagem ao futuro do Festival de Locarno, numa conversa com Giona A. Nazzaro

Giona A Nazzaro fará de Locarno um fórum para saber ‘onde queremos estar’ no cinema

(Fotos: Divulgação)

Klingons, escritos de Marshall McLuhan e sessões na Piazza Grande de “Speed – Perigo a Alta Velocidade” (1994) fizeram a cabeça do atual diretor artístico de um dos maiores festivais de cinema do planeta, Locarno, na Suíça: o curador Giona A. Nazzaro. Aos 55 anos, esse respeitado crítico, nascido em Zurique, é um expert no cinema de ação asiático tendo escrito livros sobre John Woo e publicado o obrigatório “Il Dizionario Dei Film Di Hong Kong”.

Ele vai assumir a curadoria da próxima edição do evento, que decorre de 4 a14 de agosto de 2021. Numa conversa com o C7nema, Giona fala da importância de uma mentalidade multimédia para entender qual será o amanhã da indústria audiovisual.

Qual será o projeto estético de Locarno na sua gestão?

Se eu soubesse responder a isso, já teria a certeza do que estou a procurar e perderia a experiência da descoberta. Quero ser surpreendido, em especial quando pensamos em formatos narrativos. Temos já alguma retrospectivas em vista.

Mas o quanto um festival plural como Locarno se afeta com a diversidade de recepção e de produção que o streaming está a trazer para o audiovisual?

O ponto central dessa pergunta é sabermos entender onde estamos e identificar onde nós queremos estar. Nos anos 1930, na Alemanha, apareceu um manifesto de realizadores contra o cinema sonoro, mas este ficou. Ficou por ser uma necessidade humana, como foi a rádio. É muito importante ler Marshall McLuhan (teórico da Comunicação, autor de livros como “The Gutenberg Galaxy”) pois ele mostrou que as mudanças tecnológicas do mundo afetam a nossa perceção e o nosso modo de interação.

Sou do tipo que viajo levando um livro comigo e ainda tenho LPs, mas há pessoas que não sabem o que fazer longe dos seus smartphones. Hoje, vivemos a experiência de estarmos constantemente online. E é preciso, diante desta realidade, que a gente não veja o streaming como um inimigo. Precisamos pensar diferente e integrar modelos. Quando é que um estúdio financiaria um filme como “Mank”? Ou como “O Irlandês”, de Martin Scorsese? A Netflix foi lá e financiou. E com a verba que era necessária. Só que isso não significa o fim da experiência de se assistir a um filme coletivamente numa grande sala. E é preciso que um festival preserve essa experiência e o que ela significa em especial para filmes que se afirmam como arte e não só como entretenimento.   

Mas ao falar em integrar modelos, o senhor atiça a curiosidade acerca do papel estratégico de um espaço de fruição da imagem como é a Piazza Grande de Locarno, onde vimos “Era Uma Vez em Hollywood”, em 2019, mas também vimos um filme mais intimista como “7500”, de Patrick Vollrath. Que papel seria esse?

Ver um filme no cinema é uma experiência física que será sempre um diferencial. O que temos visto este ano é que manifestos artísticos antes idealizados para o cinema migraram para o streaming, mas não por antipatia ou adversidade às salas exibidoras, e, sim, como uma estratégia de sobrevivência possível. Se estivéssemos num enredo de “Star Trek”, eu diria que NÃO estamos numa guerra entre federações. O que aconteceu foi uma transformação no consumo e no acesso e esta não veio DA pandemia. A pandemia só agravou o que nós já vivíamos. A questão não é pensar em rivalidades de meios e, sim, pensar que o novo James Bond foi adiado num momento em que as grandes salas de cinema da Inglaterra estão tendo que fechar as portas. É pensar que muitos eletricistas de set e realizadores de arte e outras tantas profissões ligadas à execução de um filme estão a perder os seus trabalhos. O que precisamos agora é pensar em formas de proteger o cinema.

E onde entra o lugar do cinema de género nessa luta, pois parece que ele vem mantendo uma dimensão de conexão com as plateias, ainda que em nichos distintos?

O cinema de género interessa-me muito, mas eu não o penso como algo diferente do que chamamos apenas “cinema”. Se avalias um filme pelas regras do seu género, em primeiro lugar, estás a reduzir esse filme a procedimentos e a não valorizar a sua transcendência.

Mas quando avaliamos, por exemplo, o caso do realizador que ganhou o Leopardo de Ouro na última edição presencial de Locarno, o português Pedro Costa, com “Vitalina Varela”… não seria ele, também, numa outra proporção, uma estética a ser avaliada pelas regras que criou, pelos procedimentos que persegue? Ou seja, de alguma maneira um realizador que cria o seu próprio código pode virar, de alguma forma, um género em si?

O caso do Pedro Costa é único, pois trata-se de um artista que é mais do que apenas um realizador. Os filmes de género têm muita importância, mas o que os torna singulares não são o género em si, não são os procedimentos em si.

O seu fascínio pelo cinema de Hong Kong, expresso em livros antológicos como o seu estudo sobre John Woo, vem de onde?

Vem da descoberta de diretores, hoje profundamente enraizados no meu coração, que são responsáveis por uma mudança antropológica no cinema mainstream. Realizadores que nunca desfrutaram de todo o respeito que merecem.

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