Quando se apresenta um filme em Cannes, mesmo que nele se critique a pressão sobre os corpos, a procura cega de “beleza” e “perfeição”, além da incapacidade da sociedade atual em lidar com envelhecimento, especialmente no que concerne às mulheres, existem sempre momentos protocolares (e de marketing) que esbarram contra tudo o que evocamos. “Senti-me algo esquizofrénica”, disse Coralie Fargeat ao C7nema na Croisette, no dia posterior à estreia do seu “A Substância” (The Substance), o qual mexeu (e muito) com a audiência.
É que, no final das contas, essa estreia incluiu a habitual cerimónia do tapete vermelho, onde o culto da aparência, o ambiente de luxúria e a busca da perfeição é levada aos extremos. “Tive uma sessão de maquilhagem de três horas”, explica-nos entre sorrisos um pouco embaraçados, notando-se nela o cansaço de quem está já há algumas horas a responder às solicitações de entrevistas. E ainda estávamos apenas na parte da manhã. O dia ia ser longo e o festival ainda mais.

Mulheres e a pressão pela perfeição
Nascida em Paris, a cineasta francesa confessou ao C7nema que desde muito pequena sentiu na pele a forma como era vista e como se devia encaixar nas “caixas” que a sociedade lhe destinava. “Cresci com a ideia que se não me parecesse desta maneira ou daquela não teria utilidade e não seria ouvida pelos que estavam à minha volta”, diz-nos, acrescentando que foi a partir do momento em que ultrapassou a fasquia dos 40 anos que nela surgiram maiores inquietações. “Passei os 40 anos e senti que a minha vida tinha acabado. Que já não tinha lugar, nem nas palavras. Foi nesse momento que pensei o que poderia fazer para mudar este sentimento muito poderoso (…) Estas ideias de certa forma explodiram nas minhas curtas-metragens, um pouco no “Vendeta” e ganharam novo alento no “A Substância”.

Em “A Substância” encontramos Demi Moore como Elizabeth Sparkle, uma mulher que, em tempos, foi uma grande estrela de cinema. Os anos passaram e um programa televisivo de aeróbica acabou por se transformar no seu destino possível. Quando celebra 50 anos, esta mulher é dispensada do programa por já não corresponder aos critérios de beleza. É aí que, ao ter conhecimento de uma substância que replica as células do corpo e rejuvenesce, decide testá-la. Surge assim Sue (Margaret Qualley), uma versão de si própria mais nova e atraente, cujo corpo alterna com o seu a cada sete dias. Porém, quando as regras do tratamento são quebradas, a situação perde o controle. Sue e Elizabeth começam então uma luta pela manutenção das suas personas no mundo em que se inserem. “Creio que a luta que vemos entre estas duas mulheres é mais uma luta interna. Uma internalização de toda a violência e regras que existem externamente e que temos de seguir. Isso faz de nós quase bipolares ou esquizofrénicas. ‘Ah, tens de ser assim, mas ao mesmo tempo assim e assim’. Se tens muitas versões de ti dentro de ti e cada uma quer liderar-te, nasce um conflito”, diz a realizadora, que admite que sabia que este teria de ser um filme marcante na sua carreira: “Sei como trabalho e sou. Escrevo, filmo, monto. São sempre muitos anos a trabalhar no mesmo projeto, por isso este teria de ser bastante marcante (…) A minha consciência e feminismo ganhou força ao longo destes tempos e tinha de explodir com isso no cinema. Como é que em 2024 estes temas ainda nos marcam? Sentia estupefação e raiva, mas também muita energia para fazer algo que contribuísse para a mudança. Algo sincero e poderoso”.

Influências
Reconhecendo a inspiração do cinema de David Cronenberg e do Body Horror na construção do seu filme, Coralie não tem dúvidas que o canadiano é um dos cineastas mais criativos no que concerne à criação de mundos imaginários e na abordagem aos corpos: “Gosto do seu cinema. Foi alguém com quem cresci a ver cinema. (…) Tudo o que diz respeito à forma como vemos o nosso corpo, como o podemos transformar, modificar e metamorfosear para o ‘melhorar’, movimenta o ser humano. Na verdade, tudo o que fazemos é para contrariar a nossa mortalidade. Temos um corpo e muitas vezes tentamos escapar dele. Ou queremos criar algo diferente e que ele dure mais. Queremos controlar tudo, mas no final das contas é algo que realmente não controlamos, mesmo que desejemos muito”.
Nudez
“A nudez pode ser tudo no meu filme, mas não é sexualizante. Na realidade, os momentos de nudez neste filme são aqueles em que não existe a sexualização da personagem. Escrevi tudo de forma natural. São momentos em que o que temos ali são apenas corpos. É como uma mulher a olhar para si mesma e viver com o seu corpo, no seu templo. Um corpo que é um corpo, sem julgamentos externos, apenas internos. Todas as outras cenas do filme refletem o contrário. Mostram um corpo sempre sob o olhar de alguém, sob escrutínio. Um corpo que te faz poder pertencer àquele mundo. Exposto ao mundo, esse corpo torna-se outro objeto, sempre sob o julgamento de alguém, especialmente quando és mulher”.
Humor
“Para mim, os filmes de género estão sempre emparelhados com o humor. É esse humor que permite que toda a violência e as questões sociais e políticas cheguem à audiência de forma suportável. Tudo tem a ver com os excessos. Não tenho interesse no realismo da violência no meu cinema. Prefiro transcender e criar algo que vejamos como arte pop. Com isso, também liberto muita da tensão que existe em mim. (…) Veja-se o fim do filme. O que temos é um ato libertador. A protagonista liberta-se de todos os olhares, já não se preocupa de como a vemos. Só aí ela consegue ser ela mesma. Isso dá que pensar, pois para atingir essa libertação ela precisa de já não ter corpo”.

Demi Moore e Margaret Qualley
“Sabia que as duas atrizes seriam peças centrais do filme e estão em quase todos os planos. A sua presença física, sem terem de dizer uma única palavra, seria fundamental. São duas atrizes super instintivas, ainda que de forma diferente. Não foi ao acaso que foram escolhidas. Este filme é muita coisa, mas nunca cerebral. As duas atrizes tinham de contar a história através do corpo. Era preciso uma inteligência para ver como a presença física conta a história sem necessidade de palavras. Li a autobiografia da Demi Moore, um pouco antes das filmagens, e fiquei espantada com uma faceta dela que nunca imaginaria que tinha. Tudo o que passou, a forma como foi inteligente e instintiva para viver o que viveu, e manter uma posição, num mundo muito masculino. Como se arriscou a confrontar as provocações que lhe foram surgindo, além da forma como se relacionou com o seu próprio corpo, transformando-o e ficando obcecada com ele. Isso surpreendeu-me. A sua crueza fez-me crer que estaria perfeita para este filme. E o seu instinto disse-lhe que deveria arriscar neste projeto. De filmar num país que não era o dela, de trabalhar com uma realizadora com quem nunca tinha trabalhado, e de se expor de uma forma tão íntima.
Inicialmente havia uma sensação de juntarmos um par que não tinha muito a ver, mas quando a união se deu houve uma química imediata. A Margaret é também muito inteligente e instintiva. Treinou muito para estar em forma, ter as curvas perfeitas e dar vida a uma criatura surreal. Nela houve igualmente muita confiança no projeto e em mim”.

Mulheres no Cinema
“Creio que enquanto não se fizerem mais ações de afirmação concretas para balancear a presença de cineastas nos festivais, a falta de equidade vai continuar. Sou a favor de ferramentas proativas que deem lugar a mais vozes distintas. Se esperarmos que a natureza das coisas tente encontrar o equilíbrio, vai demorar uns 3 mil anos ou nunca vai chegar. Há progressos nesta matéria, mas são demasiado tímidos. Fizemos isso na política, os 50/50 em termos de género. Devíamos fazer nos festivais.”






