O protagonista de Terra Vil, João, tem 12 anos e vive às margens do Rio Douro com o pai, António, um homem instável que enfrenta problemas com o alcoolismo. Na casa ao lado moram Teresa e as suas filhas adolescentes, Paula e Liliana, por quem João sente uma devoção especial. Os cinco formam uma espécie de família disfuncional, unida por uma rotina artesanal de pesca e venda de lampreia. Mas, num ano marcado pela seca e pelos efeitos das alterações climáticas, o negócio mal se sustenta — e o comportamento cada vez mais imprevisível de António torna tudo ainda mais difícil.

Na entrevista a seguir, Luis Campos — que antes havia realizado as curtas Carga (2017), Boca Cava Terra (2022) e Monte Clérigo (2023) — dá ao C7nema uma dimensão poética da geografia que percorre.
Qual é o retrato da condição masculina que marca o teu filme e de que forma esse pai, António, carrega em si fantasmas de uma Europa que se achata em crises económicas e mudanças do clima?
Através da perspetiva de um rapaz de 12 anos, Terra Vil retrata relações humanas condicionadas pela masculinidade tóxica que transita entre sucessivas gerações e os seus efeitos nefastos para a própria sustentabilidade da nossa espécie. É, de certa forma, um filme de fantasmas, numa região brutalmente marcada por uma tragédia coletiva, não só por evidenciar uma atmosfera de luto pelos que partiram, mas sobretudo por evocar os fantasmas que assombram a nossa identidade numa sociedade patriarcal e que, estruturalmente, perpetuam uma realidade de violência de género/doméstica inconcebível nos tempos em que vivemos. Entendo cada ser humano como uma ponte entre gerações e, nesse sentido, o António representa alguém que carrega um fardo muito pesado pela educação recebida e que não tem ferramentas para saber lidar com a sua própria dor e vulnerabilidade, como uma espécie de ponte quebrada, incapaz de conectar as margens e de corresponder às expectativas do seu filho. Será também essa uma boa definição da Europa contemporânea, na medida em que não está a ser capaz de lidar com os desafios do presente e com os efeitos das alterações climáticas para as gerações vindouras? Não sabendo dar respostas, acho que o filme levanta questões em torno dessa analogia.
O que o Douro representa como geografia para o cinema que buscas? Que metáfora de Portugal há nesse Douro que retratas?
O contexto socioeconómico da região específica do Douro em que filmámos (em torno de Entre-os-Rios) esteve na origem deste gesto cinematográfico. A tradição secular de pesca e venda de lampreia que caracteriza aquela região e que se vai desvanecendo com as alterações climáticas; a cicatriz da queda da ponte Hintze Ribeiro em 2001; as vicissitudes dos locais com uma forte influência católica. Esses foram os elementos que suscitaram o desejo de retratar aquelas paisagens e de ambientar uma narrativa ficcional que cirandasse naquele ecossistema muito particular. Não só aquela região do Douro representa uma beleza visual muito atmosférica e cativante para o registo fílmico, como também representa um certo abandono das elites da sociedade portuguesa e dos principais centros de poder aos seus concidadãos — fator que ficou muito óbvio no encerramento de um complexo mineiro local e no episódio da queda da ponte. Considerei pertinente recuperar esse contexto histórico como pano de fundo para este filme.
Que lusitanidade alimenta esse retrato de gerações que se veem diante de um país em mudanças sociais e políticas?
O filme bebe de uma certa portugalidade que resulta de um longo período de observação e de gestação no processo de escrita (a primeira versão do guião data de 2012) e procura teorizar sobre o futuro que as novas gerações podem almejar num meio pequeno e rural como aquele que é retratado no filme. Não é fácil dissolver as amarras sociais e ideológicas que persistem numa sociedade patriarcal — sobretudo num contexto familiar marcado por adição —, mas era importante para mim veicular uma sensação de esperança através desse filme. Não apenas pelo seu viés progressista e otimista, que pauta a forma como encaro a vida, mas porque entendo que este filme tem o potencial de ser um gesto de conforto para qualquer jovem que possa estar a lidar com uma problemática semelhante no seu contexto familiar e que não tenha ainda a perceção do poder da partilha da sua vulnerabilidade e dos seus anseios.






