Protagonista de uma história profissional de encarceramento no Irão, onde foi fazer uma reportagem e acabou preso por quase cinco meses, Jens Koch sublimou o pesadelo vivido na sua trajetória como repórter, apostando numa carreira como retratista a serviço da Berlinale. O trabalho dele, fotografando as celebridades que concorrem ao Urso de Ouro e os jurados do festival, pode ser visto nas paredes da Berlinale Palast.
No site www.Berlinale.de, também é possível ver a força estética dos seus retratos, que arrancaram poses inusitadas de estrelas como Javier Bardem, Claire Denis, Philippe Garrel, Abel Ferrara e Kristen Stewart, presidente do júri da competição deste ano.
Na entrevista a seguir, Koch explica ao C7nema como enquadrou estrelas como John Malkovich a partir da luz que uma chuvosa Alemanha lhe oferece.
Qual é a estratégia para fintar a vaidade das estrelas e conseguir o retrato preciso?
Não existe um método, principalmente pelo facto de que cada personalidade que fotografo tem um temperamento específico. Se arquitetares previamente o modo como vais abordar a Cate Blanchett, tudo vai por terra no momento em que ela aparece com um figurino totalmente fora dos padrões da luz que se pensou. O que tento sempre é propor um exercício padrão para “quebrar o gelo”. Digo: “Inspire, inspire fundo, e mova os ombros de maneira circular”. Algumas pessoas já se soltam aí. Outras, não.
Karim Aïnouz, por exemplo, riu de alguma coisa parva que eu disse e deu-me a foto que entrou no Palast. Saber dizer piadas para entreter e distrair, ajuda no momento. O desafio é distrair a pessoa a ser fotografada da sua ansiedade.
Falou em “padrões de luz”. Quais são os seus?
Eles não existem. É o instante que te dá a luz. O instante e a sorte. Não fotografas rostos neste trabalho da Berlinale. Fotografas atitudes. É preciso observar cada um, embora não exista muito tempo para isso. Vou ter de entrevistar o realizador de “Sur L’Adamant”, Nicolas Philibert, nesta reta final da Berlinale. Não sei o que esperar. Na hora, encontramos o ângulo certo. Não vejo o meu trabalho como arte, embora exista uma dimensão artística na fotografia.
O que aconteceu no Irão, em 2010, onde um trabalho fotográfico quase te levou a um longo período na prisão?
Há várias notícias sobre isso na internet, mas o que posso contar é que foi um pesadelo. Fui com um colega jornalista fazer uma reportagem, mas entramos no país com o visto de turista, não de jornalista. Por isso fomos presos. Hoje, falo disso com calma, mas foi algo assustador.
Intimida-se com os famosos que fotografa? Que situações curiosas viveu com eles?
Desde que deixe a pessoa que vou fotografar à vontade, tudo sai bem. Não há como ver a celebridade ali e, sim, um gesto a ser fotografado e registado. Vejo as pessoas a autografarem os seus retratos sem me deter na fama delas. Houve um caso que me emocionou, mas foi algo mais ligado à música e não ao cinema. Foi com a banda Rammstein, pois sou fã deles.
No trabalho deste ano, houve alguma situação marcante?
Encontrar John Malkovich, por tudo o que representa, pela sua figura… isso talvez tenha sido diferente. Uma vez, fotografei um anúncio publicitário com o Robert De Niro. Obviamente que foi uma experiência emocionante.


