Em desenvolvimento na mente da cineasta argentina Lucrecia Martel desde que, em 2010, no Youtube, assistiu a um vídeo de quatro minutos que mostrava o confronto entre um proprietário rural e uma comunidade indígena, Nuestra Tierra/Nossa Terra (também conhecido como Chocobar ou Landmark, em inglês) chegou finalmente aos cinemas, sendo o Festival de Cinema de Veneza, fora de competição, o seu primeiro destino. 

Seguiram-se Toronto e San Sebastián na lista de certames que exibiram o primeiro documentário de Lucrecia Martel, que podemos caracterizar em território do híbrido, o qual parte do assassinato do líder indígena Javier Chocobar, em 2009, na comunidade de Chuschagasta, Tucumán, para fazer uma reflexão sobre séculos de expropriação e violência contra os povos nativos. 

Reparei que quem filmava [esse vídeo de 2010] estava armado. Isso é terrível — alguém que filma e, ao mesmo tempo, leva uma arma. Comecei a investigar”, disse em Veneza a realizadora de “Zama“, acrescentando que o racismo sempre foi um problema profundo na Argentina e que, por isso, entrou em contacto com a comunidade para compreender melhor a situação. “Durante anos fizemos pesquisa histórica, analisámos documentos, ouvimos testemunhos. A pergunta central era: o que faz alguém sentir-se legitimado para puxar de uma arma e matar? Quando isto acontece perto de casa, não podemos ignorar”.

O crime resultou num processo criminal que investigou a responsabilidade do empresário Darío Amín como autor de homicídio qualificado e dos ex-policias Luis Humberto Gómez e Eduardo José del Milagro Valdivieso Sassi como corresponsáveis. Lucrecia filmou também o processo em tribunal, mas quando foi a hora de dar a sentença, coube à justiça decidir onde colocar as câmaras e não à cineasta. “Ao início pensei em não usar a sentença no filme. Mas com o meu colaborador, Jerónimo Pérez Rioja, percebemos que a linguagem usada nos documentos judiciais revelava muito sobre racismo e legitimidade da terra, e decidimos incluí-la”.  

Nuestra Tierra

É mesmo esse julgamento que estrutura o filme, via acusações, testemunhos, reconstruções e silêncios, enquanto noutra via a cineasta abre espaço às memórias da comunidade através de fotografias de família, relatos de migrações internas e crises económicas que atravessaram o país, não esquecendo o contacto com algumas figuras históricas da região. “Tínhamos mais de 400 horas de gravação e cerca de 5.000 fotos. Entrevistámos figuras históricas de Tucumán, como Carlos Pérez Latorre, que escrevia diariamente no jornal La Gaceta. Ele representava uma visão da história local, muitas vezes distante da da comunidade. Incluímos essas vozes para mostrar o contraste.” 

Quando questionada pela opção de recorrer ao voiceover e à utilização de drones neste trabalho, Lucrecia diz que inicialmente resistiu, pois os drones nascerem como uma arma de guerra que lhe parecia inadequada para mostrar um homicídio. Porém, com o tempo percebeu que podiam revelar a extrema beleza dos territórios e, com a palavra em voz-off da comunidade, “transmitir de forma emocional o que se passa”.

Na sua abordagem, a realizadora alterna entre o cósmico e o íntimo para mostrar como lógicas históricas globais ecoam num lugar concreto, recorrendo a muito material de arquivo vindo das comunidades:   “Sempre existe a dúvida: podemos falar destas comunidades sem nos aproveitarmos? O cinema exige correr esse risco. Não podemos ficar em silêncio. A comunidade deu-nos acesso a arquivos, documentos, fotografias. Digitalizámos e estudámos tudo durante anos.  Também fizemos oficinas de cinema com jovens da comunidade. Muitas das imagens filmadas por eles entraram no filme. Mesmo assim, sei que podemos ter cometido erros. Mas o essencial é que criámos um arquivo duradouro desse passado”.

Quando estava prestes a terminar a conferência de imprensa, a cineasta quis deixar umas últimas palavras, recordando que o seu filme pode parecer pequeno num festival da dimensão de Veneza, mas que  nasceu de uma história difícil. “Eu queria reformar-me, estar numa praia — mas não é possível. Temos de reconhecer o poder do cinema: contar o que precisa de ser contado. Vivemos tempos sombrios — fala-se de inteligência artificial, do fim do trabalho — mas é o melhor momento para fazer cinema, para repensarmos e contarmos. Não devemos desanimar: precisamos da energia para narrar. É assim que a humanidade fala de si própria”.

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