Nollywood em ação e expansão: do DVD à era do streaming

(Fotos: Divulgação)

País mais populoso da África, com 206 milhões de habitantes espalhados por um território de 923.768 km², a Nigéria inaugurou, em 1992, com o filme “Living in Bondage”, de Chris Obi Rapu, uma tradição de longas-metragens feitas com parcos recursos, usando inicialmente VHS e, depois, DVDs, sempre em diálogo com as cartilhas de género (comédias, thriller, terror), que alcançaram uma marca de produção de 1,2 mil títulos por ano.

A força dessa produção ganhou um apelido: Nollywood. Ao largo de metrópoles como Lagos, capital económica daquele país, um império surgiu, estabeleceu-se e prosperou, exportando seus filmes via web pelo mundo inteiro, já vislumbrando a “streaminguesfera” como um veio de investimento e de escoamento não só das longas-metragens, como de séries. É sobre essa aposta no futuro que Enyi Omeruah, um dos principais analistas do mercado audiovisual nigeriano, vai falar nesta quinta-feira, às 19h no Brasil (22h em Portugal) no simpósio online Workshop Internacional Escola de Séries (WIS).

Fundador da My Management Company (MMC), uma agência de gestão de talentos que representa artistas da música, cinema e TV, ele é um dos criadores do www.chudormmc.com, uma incubadora de dramaturgia, voltada para fomentar a criação de novos roteiristas. A sua conversa é uma das mais esperadas do seminário, encarado como um dos mais relevantes eventos da década no Brasil no estudo de formatos dramatúrgicos para narrativas serializadas e mesmo para a escrita de filmes, neste momento de boom das plataformas digitais.

Pelo evento passam, até o dia 15, no site www.autoria.com.br, titãs da televisão e do entretenimento via internet como Ed Burns (autor do cult “The Wire”); Erika Green Swafford (argumentista de séries de sucesso como “How to Get Away with Murder” e “The Mentalist”); e Julia Spadaccini (uma das autoras da aclamada série “Segunda Chamada”).

Enyi conversou com o C7nema sobre os novos caminhos da estética nollywoodiana. Na conversa a seguir, ele elenca talentos e reflete sobre o amanhã.

O que a palavra “Nollywood” ainda representa como simbolismo estético? O quanto esse nome, que durante muito tempo esteve associado a filmes para serem vistos em DVD e na web, simboliza a diversidade de géneros no seu cinema?

Nollywood representa bravura, trabalho árduo, inovação, sonhos, talento, impacto cultural, histórias não contadas, persistência, força, esperança. A nossa indústria percorreu um longo caminho. Foi criada por talentosos contadores de histórias que desejavam ver as suas perspectivas refletidas. É uma indústria erguida por homens e mulheres que, apesar das probabilidades, viam o cinema como um meio para expressar a psique, a cultura e as várias línguas da Nigéria. Os nossos filmes cobrem uma variedade de géneros: horror, romance, comédia, drama histórico, drama policial, drama familiar, thrillers, histórias de formação, histórias baseadas na fé etc. Os primeiros profissionais da indústria cinematográfica usavam esse meio como plataforma para entreter e também ensinar lições de vida. Os DVDs eram um meio de distribuição e se tornaram o símbolo da liberdade que as novas tecnologias apresentavam aos cineastas e aos primeiros investidores para criar e rentabilizar seu trabalho. Nollywood é indicativo de gostos amplos; em género, em linguagem, em história e, em perspectiva. Nollywood é sinónimo de entretenimento africano.


Qual é a série mais consumida na Nigéria? Existe lá espaço para as telenovelas? Qual é o conteúdo de ficção das TVs abertas e fechadas de lá?

A comédia “Jenifa’s Diary” é muito popular. A Nigéria é um mercado fértil para telenovelas, sim, e, por aqui, o programa angolano “Windek” é um dos meus favoritos pessoais. Há uma forte tendência de apostar em dramas com mais de 200 episódios que se prolongam por quase um ano. Mas esses produtos são muito caros de fazer. Agora as webseries no youtube também estão a encontrar um público.

Que diretores como Kemi Adetiba e Niyi Akinmolayan se encaixam neste rótulo de uma Hollywood nigeriana?

Uma Hollywood nigeriana? Hollywood é uma marca construída para representar a indústria cinematográfica e televisiva americana. Há muitos anos, tem havido trabalho para se construir um setor cinematográfico e televisivo genuinamente nigeriano. O brilho do talento de Kemi Adetiba, Ema Edosio, Niyi Akinmoloyan e outros contadores de histórias é capaz de reluzir e de se manter por causa da tenacidade, das persistência e das histórias de muitos artistas que lhes pavimentaram o caminho. Homens e mulheres como Hubert Ogunde, Amaka Igwe, Mahmood Ali-Balogun, Tunde Kelani, Gloria Bamiloye. Artistas como Kemi Adetiba, Niyi Akinmolayan, BB Sasore, Jade Osiberu, Toyin Abraham e Funke Akindele estão agora ampliando o legado de um setor próspero e movimentado. Aumentando o seu impacto social, económico e cultural. Um objetivo impressionante e realizável será ter uma Nollywood que opere a partir de estruturas estabelecidas, capazes de cuidar de cada um dos membros da cadeia.

Como o site www.chudormmc.com, desenvolvido por vocês para fomentar a formação de talentos, pode estimular a chegada de novos roteiristas negros?

A nossa empresa está focada em apoiar o contador de histórias, pois acreditamos que o roteirista é uma parte fundamental na criação das narrativas. O cinema e a televisão são, provavelmente, as formas de arte mais colaborativas. E quem escreve roteiros é protagonista fundamental na colaboração. Estamos focados em argumentistas já estabelecidos e talentosos. Novos roteiristas negros estão sendo desenvolvidos em laboratórios de redação e em estágios. Acredito muito em processos colaborativos, por ser uma confluência de ideias, de ideais, de perspectivas, capaz de promover uma compreensão mais profunda da condição humana. A colaboração artística leva a uma vulnerabilidade que encoraja as pessoas a dizerem verdades. E a prática do roteiro consiste em verdades contadas e formatadas para a tela.

Qual é a realidade da produção e da transmissão de filmes e TV na Nigéria de hoje e o quanto ela dialoga com a estética de outros países africanos?

Há desejo pelas nossas histórias no mundo inteiro e os serviços de streaming têm funcionado como plataformas de distribuição para assinantes em cerca de 100 países. Porém, ainda é um desafio encontrar um balanço entre o financiamento e o resgate do capital investido, assim como a obtenção de lucro. Os serviços de streaming já veem um crescimento para o nosso mercado, mas tudo ainda é muito novo. Embora a demanda pelo produto pareça robusta, a monetização ainda não igualou a procura. Alguns nigerianos podem agora ver um filme zimbabuense, uma série do Quénia e uma produção original da África do Sul e explorar as nossas semelhanças e, ao mesmo tempo, experimentar as nuances das nossas diferenças. É como olhar para um eixo de luz através de um prisma e ver um caleidoscópio de cores. Os africanos são gloriosos e Nollywood é visto como um dos setores cinematográficos líderes no continente, criando, pouco a pouco, pontes com outros mercados como Índia, Brasil, China, por meio de co-produções, de distribuição, de nossas histórias.

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