Acha o seu primeiro filme (Shahada), que o levou à Berlinale em 2010, um poço de ingenuidade, e teve pesadelos com Rainer Werner Fassbinder logo após o início das filmagens da adaptação do livro de Alfred Döblin, “Berlin Alexanderplatz”.
O germânico-afegão Burhan Qurbani deu nas vistas em 2014 com “Nós Somos Jovens. Nós Somos Fortes”, um relato ficcional dos distúrbios xenófobos de 1992 de Rostock-Lichtenhagen. Durante anos preparou intensamente um novo filme, e quando o estreou na Berlinale em 2020, aconteceu o que aconteceu ao mundo: “Oito anos, três relacionamentos, muitos cabelos grisalhos e pesadelos com o Rainer. E depois, quando lançámos o filme, aparece a Covid-19”, disse-nos com toda a ironia o cineasta quando nos encontramos com ele no Festival do Cairo, onde fazia parte do júri internacional.
Visivelmente rejuvenescido após a depressão que se abateu sobre si após a estreia de “Berlin Alexanderplatz”, Burhan explicou-nos os meandros da produção e a sua colaboração com Welket Bungué, que no filme interpreta um migrante que luta pela sobrevivência e dignidade ao lado de um criminoso alemão. Aqui ficam as suas palavras.
Quando adaptou o livro “Berlin Alexanderplatz” para um filme sentiu uma pressão extra por já existir um trabalho sobre ele do Rainer Werner Fassbinder?
Foi uma tarefa enorme, que demorou cerca de 3 anos, mas tivemos pessoas maravilhosas a trabalhar connosco e a ajudar na construção do guião. Tenho o talento muito especial de ser ignorante até ao último instante, por isso não senti nenhuma pressão por causa da série realizada no passado pelo Rainer Werner. Bem, pelo menos até ao primeiro dia das filmagens. Foi então que de repente tive pesadelos. Acordei a meio da noite, depois de sonhar que o Rainer Werner veio até ao set e tomava conta da realização. E eu dizia-lhe para ele desaparecer, mas ele não ia embora.
A sério? Isso podia fazer uma boa curta-metragem (risos). Gosta do cinema do Rainer Werner?
Não sou um fã. O meu coargumentista, o Martin Behnke, é um grande fã. Eu cresci a ver os filmes dele, mas sou mais um filho do novo cinema americano de Scorsese, Coppola e Brian De Palma. Eles são o meu DNA fílmico.
E a escolha do Welket Bungué para esse papel, como foi?
O Welket escolheu-me. Não escolhi o Welket, ele é que me escolheu. É uma força da natureza. Quando estávamos a fazer o casting, em 2017, na Berlinale havia um filme chamado “Joaquim”. A minha diretora de casting viu-o e disse-me: tens de ver este rapaz. Ele é incrível, bonito… A personagem do livro onde o filme se baseia é um homem de 40 anos, muito cru, rude, mas o Welket é uma das pessoas mais inteligentes que conheço.
Ele começa a ter uma grande visibilidade em Portugal, não só pela atuação, mas como realizador. Ficou contente com o trabalho dele? Disse-lhe alguma coisa em particular para assumir este papel?
A boa coisa no Welket é que ao longo da sua vida, no seu trabalho em filmes e performances, tenta “descolonizar” a mente, a forma como a sociedade branca vê os corpos negros. Para ele, as migrações são corpos que se movem de um lugar para outro e temos de ver a alma que está por trás do corpo.
E acha que o seu filme ajuda nesse processo em marcha de descolonização da mente?
Acho que este filme apenas pode ser uma das plataformas para iniciar uma discussão. Vais ao cinema e estás duas ou três horas numa sala e vês o mundo pelos olhos de outra pessoa. No melhor cenário, sais de lá como uma pessoa diferente, com a mente noutro lugar onde não estiveste até então. Se conseguirmos normalizar a forma como nos vemos uns aos outros, não interessa se são negros, amarelos ou brancos, qualquer um pode ser o tema de uma história e não apenas um clichê ou um estereotipo.
Quanto tempo este “Berlin Alexanderplatz” absorveu a tua atenção?
Oito anos! Oito anos, três relacionamentos, muitos cabelos grisalhos e pesadelos com o Rainer. E depois, quando lançámos o filme, aparece a Covid-19. (risos) Mas tenho de dizer: estava a caminho de uma depressão após a estreia na Berlinale. Estava completamente exausto, não pelo festival, mas pelos 8 anos anteriores. Sei que é algo mórbido de dizer, mas fiquei tão contente com aquele momento em que o mundo fez uma “pausa” , pois podia respirar. Não conseguia trabalhar mais. O plano era o filme ser lançado imediatamente nas salas e começar uma tournée de festivais, mas eu estava estafado. Por isso estou tão contente de estar aqui – no Festival do Cairo. Primeiramente, o filme foi exibido no El Gouna Film Festival (em outubro) e depois decidi ficar uns tempos no Cairo. No dia do meu aniversário, no dia em que fazia 40 anos, telefonaram-me a perguntar se eu queria fazer parte do júri do Festival do Cairo. Não sabia o que responder e deram-me 20 minutos para pensar. Fui fumar um cigarro e, de repente, há um acidente de viação e começa uma cena de pancadaria. Só pensava: Isto é um sinal? (risos) Que mensagem é esta que me querem dar (risos)? Decidi aceitar.
O seu filme anterior, “Nós Somos Jovens. Nós Somos Fortes”, foi construído a preto e branco. O “Berlin Alexanderplatz” foi construído de forma totalmente diferente, super colorido. Até que ponto o trabalho estético de um filme é importante para si? É algo que está ciente desde o início, durante o processo de escrita, ou vai crescendo depois dele?
Sou o realizador que menos visualiza as coisas na mente que alguma vez vais conhecer. Há diretores que dizem que têm uma visão clara do que querem, eu não. Comigo o processo começa na colaboração com o diretor de fotografia, quando começamos a trabalhar na estética. Temos sempre a regra que essa estética tem que servir o propósito do filme.
A escolha do preto e branco no “Nós Somos Jovens. Nós Somos Fortes” surgiu, claro, porque era uma peça de época, mas também existe a passagem do preto e branco para a cor, e mudamos para Cinemascope, e do estéreo para o Dolby Surround. No fundo, tentamos ir do passado para o presente. Essa escolha do preto e branco estava muito ligada ao texto. Criámos uma textura visual em interacção com o texto. Também, nesse filme, o ponto gravitacional era a câmara, por isso todas as personagens eram atraídos à câmara, como se esta fosse um íman que aproximava as figuras. Neste filme, a primeira decisão que tomámos era que o Welket seria o nosso íman, o ponto gravitacional do filme. A câmara é sempre atraída a ele. Ela afasta-se, mas acaba sempre por ir ter com ele. Queríamos trabalhar com cores porque desejávamos criar a nossa própria Berlim. Não a Berlim que existe na realidade, mas uma que queríamos para as nossas personagens e para o mundo que desejávamos retratar. Havia um conceito de cor para cada personagem. Não havia apenas uma densidade dramática, mas um movimento estético do início para o fim.
Depois do lançamento do filme disse que entrou numa estado de depressão. É alguém que liga ao que a crítica de cinema diz?
Sim, lixa-me completamente. Se trabalhas tanto tempo num projeto, como não podes levar as coisas pessoalmente? É algo que crias e alguém vê durante três horas, enquanto tu trabalhaste nele oito anos, e diz mal. Bem, é complicado. Mas cada vez reajo melhor às críticas.
Quando fiz o meu primeiro filme era tão jovem. Era um estudante. Pegaram no meu trabalho final e levaram para a competição [da Berlinale]. Não estava de todo preparado para lidar com aquilo. Hoje em dia “engulo sapos”, mas consigo aguentá-las [as críticas]. Mas claro, ainda me magoam. Mas a depressão não veio daí.
Sim, disse que estava completamente exausto depois dos 8 anos de trabalho. Mas a estreia, não é o final de um filme. Tem toda a promoção a ele depois.
Sim, que não aconteceu este ano.
Afirmou que não estava pronto – no seu primeiro filme – para o estrear na Berlinale. Qual é a principal diferença entre o Burhan desses tempos do de agora? Houve uma mudança nos seus sonhos?
Não gosto do meu primeiro filme. Tem uma realização muito ingénua e infantil. Talvez a esse [Burhan] fosse permitido ser infantil, mas agora, anos depois, a minha personalidade mudou. No melhor cenário, a tua arte melhorou. No pior cenário mantens os erros do antigamente. Sou muito mau no processo de me levar demasiado a sério. (…) Um amigo meu disse-me nesses tempos que eu tinha deixado de ser um realizador germânico e passava a ser um realizador internacional. Depois disso pude viajar, fazer a rota dos festivais e conhecer muita gente, em particular cineastas, maravilhosos e inspiradores. Gostaria de ir 10 anos atrás e dizer aquele miúdo que ele não devia se levar tão a sério, que devia ser humilde e agradecido pelas coisas que tem. Que devia trabalhar e tentar fazer menos erros, que devia desenvolver um bom gosto, para pegar na câmara e trabalhar. Fiz isso tarde demais.
Sim, mas se o seu primeiro filme esteve na Berlinale não podia ser assim tão mau como “o pintas”…
Sim, também é verdade.
Tem algum novo projeto?
Sim e anunciei-o precocemente por engano. [Krzysztof Kieślowski], três cores, mas em alemão. Não o branco, vermelho e azul, mas as cores germânicas; o preto, vermelho e dourado da bandeira alemã a transformarem-se em “Liberdade”, “Unidade” e “Justiça”. Começámos a escrever. Estive deprimido um mês, parelizado durante a pandemia Covid-19, mas uma manhã acordei e comecei a escrever. Se Deus quiser [Inshallah] teremos dois guiões terminados no início do próximo ano, e talvez possamos começar as filmagens em 2022.
E é um projeto para cinema ou considera, por exemplo, fazê-lo para o streaming?
Nos últimos dias, aqui no Cairo, percebi como amo o cinema. Sou daquelas pessoas que faz muito o chamado Binge Watching. Séries, filmes, etc. Mas esqueço-me de tudo. Cozinho ou faço outras coisas enquanto vejo e não tomo realmente atenção. No cinema isso não acontece. Estás lá e é muito mais sensual. É uma forma de arte que creio que não irá morrer. Vai sofrer muito neste período, mas sinto que é um espaço social que precisamos muito. O teatro está para morrer há 2000 anos e ainda anda aí, por isso acho que vamos preservar o cinema.
Como não tenho nenhum acordo com Netflix, Apple ou Amazon faço os filmes completamente para as salas de cinema.
Mas se lhe proporem algo está aberto a essa hipótese? Por exemplo, tem a ambição de um dia fazer uma série?
Sim, mas a verdade é que não sei se sou compatível com isso. Se leva tanto tempo a escrever e desenvolver, ou se tens um estilo, a questão que se coloca é: essas plataformas vão comprar o estilo ou o nome? Será que vão comprar alguém para dizer “ação” e “corta”? Se um acordo envolver uma colaboração criativa, porque não?
E quer voltar a trabalhar com o Welket Bungué no futuro?
Ele tornou-se um dos meus melhores amigos. Foi uma das pessoas que me arrastaram para fora da depressão. É quase 10 anos mais novo que eu, mas tem uma sabedoria e maturidade que ainda não tenho. Estou muito grato por ter alguém assim.

