Concorrente fortíssimo ao Leopardo de Ouro, possuidor de uma inequívoca beleza poética que anda de mãos dadas com uma inerente relevância histórica, social e política, “Fogo do Vento” aprofunda as histórias de uma comunidade na paisagem alentejana, na zona de Estremoz, que conhecemos pela primeira vez no seu filme anterior, a curta metragem “Farpões Baldios”, cuja estreia mundial teve lugar no Festival de Cannes, na secção Quinzena dos Cinéastes em 2017,
Convocando as memórias pessoais dos protagonistas, “Fogo do Vento” revela-se uma reflexão coletiva que não apenas fala do que foi viver numa das zonas historicamente mais pobres de Portugal, mas também se aventura pela história do país, da sua presença nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), passando pela Guerra Colonial (1961-1974) e a luta contra o regime fascista que vigorou em Portugal de (1933 – 1974).
O filme começa com um grupo de pessoas na vindima, mas rapidamente elas vêem-se forçadas a subir às árvores para escapar a um touro bravo que ameaça o espaço. Será do cimo dessas árvores que ouvimos os protagonistas contarem histórias, sempre com a lente de Marta Mateus a capturar o momento numa coleção impressionante de fotogramas repletos de Cinema. “Existe uma grande tradição oral no Alentejo, pois muita gente não sabe ler nem escrever. As palavras têm uma grande força imagética”, explicou Marta Mateus hoje em Locarno, numa sessão de perguntas e respostas aberta ao público. “A poesia é muito importante e existe um sentimento de partilha de conhecimento e sabedoria misteriosa sobre os segredos da vida. A palavra tem esta importância de nos manter vivos. Como partilhamos as nossas experiências e como as organizamos, tal como a memória”.
Para Marta Mateus, que produziu o filme juntamente com Pedro Costa, através da Clarão Companhia, é fundamental “a transmissão de histórias entre gerações”, asseverando que muitas daquelas que ouvimos foram oferecidas pelos próprios protagonistas. “A memória coletiva está na memória pessoal e vice-versa. A história da Maria Catarina é a de muitas outras e a do meu avô é a de muitos outros que foram para a Primeira Guerra Mundial”.

Com a ambição de colocar o passado a falar com o presente, Marta, que tem raízes na região, convocou o seu próprio filho, Safir, para interpretar o papel do seu avô, João Encarnação, que nunca conheceu. “O meu avô combateu em França. Sei pouco sobre ele. Levou um tiro e ficou com um olho de vidro. Morreu quando o meu pai tinha 10 anos. Temos uma fotografia dele. O Safir parece-se um pouco como ele”, disse Marta, acrescentando detalhes sobre a vida e o sofrimento que outra guerra, a colonial, provocou nos seus protagonistas: “A Maria Catarina, que reuniu fotos da vida como nós fazemos hoje em dia, mostrou as fotografias dos irmãos que foram para a guerra colonial. Eram todos muito novos e não sabiam o que estavam a fazer, mas foram obrigados a ir. Ela disse que chorou muito no dia em que foram chamados para a guerra, mas ao menos sabia que eles teriam alimentos para comer. Isto para mim é muito brutal”, referiu a cineasta, acrescentando que a pobreza da região levava a uma luta pela sobrevivência diária: “A Maria Catarina andava de porta em porta a pedir comida para os irmãos. Este imaginário que vemos através de fotos, ainda tem um papel nas nossas vidas atuais. Por isso convoquei o meu avô para falar com os mortos, resolvendo assim algumas coisas do nosso passado. Tudo isto ainda está muito presente e traz tantas consequências concretas. Dois irmãos da Maria Catarina suicidaram-me anos depois de terem partido para a guerra. Isto é uma consequência muito concreta”.
Pelo sofrimento que esta gente passou, que deixou marcas que ainda hoje não se encontram cicatrizadas, Marta Mateus não entende o estado das coisas atualmente, num momento em que vivemos em democracia, ainda que sob ameaça. E a realizadora não se escusou em manifestar a sua posição inflexível contra a guerra, mencionando os casos de Gaza, Ucrânia e Rússia, não esquecendo a crescente ameaça da extrema-direita em Portugal: “Não consigo entender como temos agora uma extrema-direita a atacar pessoas de etnia cigana. Já vimos isto no passado. Como se atrevem? Como podem acusar um grupo de pessoas dos problemas do país? E as pessoas que agora chegam ao país do Nepal e Bangladesh, para trabalhar nos campos, também são criticadas por eles. Tive pesadelos com os eventos recentes no Reino Unido. Isto é um completo disparate. (…) Se damos o microfone a este discurso de ódio, o que estamos realmente a fazer? O mesmo se passa com a narrativa das guerras. Deveríamos olhar mais para pessoas como a Maria Catarina e ver os seus gestos de solidariedade.”
O Festival de Locarno prossegue até dia 17 de agosto.

