“Bye Bye Brasil” de volta ao radar

Neste 14 de novembro, o centro cultural Casa Firjan, em Botafogo, no Rio de Janeiro, promove um reencontro cinéfilo com uma das mais preciosas joias do cinema brasileiro: Bye Bye Brasil. O filme, lançado em 1980, foi relançado em França, numa cópia restaurada em 4K, no passado dia 3 de junho. Carlos Diegues (1940-2025) assinou a realização. Deixou um filme póstumo ainda por finalizar: Deus Ainda É Brasileiro.

A produtora Lucy Barreto foi uma das responsáveis por este clássico nacional, visto por 1.488.812 espectadores e apresentado em competição pela Palma de Ouro em Cannes, ter saído do papel. Esteve na Croisette em 2024, ao lado da filha, a também produtora Paula Barreto, para uma homenagem à empresa da família, a LC Barreto. O nome remete para o companheiro de vida e de projetos de Lucy, Luiz Carlos, o Barretão, que morreu recentemente. Ao lado dele, Lucy comemorou duas nomeações para o Óscar conquistadas pela LC: a primeira com O Quatrilho (1995), na cerimónia de 1996, e a segunda com O Que É Isso, Companheiro? (1997), em 1998. Um novo e estilizado cartaz de Bye Bye Brasil faz-se hoje notar nas salas francesas e nas páginas da revista Cahiers du Cinéma, a bíblia da cinefilia. A longa-metragem foi incluída na lista dos cem melhores filmes brasileiros de todos os tempos votada pela Abraccine.

“Depois de ver Xica da Silva, fiquei encantada com o trabalho do Cacá e procurei-o para desenvolvermos um projeto. Ele propôs-me filmar Tereza Batista Cansada de Guerra, do Jorge Amado. Fui atrás dos direitos, mas Jorge pediu um preço nas alturas, entusiasmado com o sucesso que fizera Dona Flor, filmado por nós, na LC. Disse ao Cacá: ‘Você não pode pensar noutra coisa?’. Aí ele apareceu-me com um parágrafo: ‘Um casal de artistas mambembes viaja pelo Brasil com um casal de camponeses, descobrindo um novo país’. Ora, num momento em que a televisão se espalhava por toda a nação, aquela ideia soou ótima. Então sugeri que ele fizesse uma viagem, acompanhado por um bom argumentista — que, no caso, era Leopoldo Serran —, para pesquisar”, lembra Lucy ao C7nema. “Na sequência, Cacá falou com Chico Buarque para fazer a música e deu naquela beleza.”

Na trama de Bye Bye Brasil, o acordeonista Ciço (Fábio Jr.) e a mulher, Dasdô (Zaira Zambelli), que está grávida, são surpreendidos pelo encontro com a Caravana Rolidei, um circo sobre rodas. A companhia itinerante é formada pelo mágico Lorde Cigano (José Wilker), pela dançarina Salomé (Betty Faria) e pelo Rei dos Músculos, Andorinha (Príncipe Nabor). Ciço, apaixonado por Salomé, decide acompanhá-los pelo país adentro, arrastando Dasdô, que acaba por dar à luz de improviso, com a ajuda de Cigano, uma bebé chamada Altamira.

“Esse foi o filme mais difícil de toda a minha carreira na produção. Tinha três equipas em ação, simultaneamente. Havia uma equipa a produzir, à frente de tudo. Havia a equipa do Cacá, nas filmagens. E havia a equipa de desprodução. Lembro-me de dizer ao Cacá: ‘Se você for filmar a Amazónia, quero que o faça de helicóptero, para registar toda aquela beleza da floresta vista de cima. O Brasil tem de se ver neste filme. Você vai descobrir novos horizontes e eu também’”, diz Lucy. “Não conhecia o Amazonas, não conhecia a região de Altamira. O filme deu-me a oportunidade de compreender toda a diversidade do nosso país. Filmámos os exteriores em locações e algumas cenas de interior foram feitas no Rio. Depois, quando o dinheiro escasseou, filmámos exteriores aqui mesmo no Rio. Esta cidade é um estúdio vivo, um dos maiores do mundo.”   

Link curto do artigo: https://c7nema.net/6n94

Destaques