The Roses of Marrakech: o tempo floresce no cinema de Ginevra Elkann

Em andança pelas mostras mais respeitadas da Europa, o universo íntimo de Ginevra Elkann abre-se agora ao Festival do Rio, com a passagem do seu As Rosas de Marrakech (The Roses of Marrakech) pela 28ª edição da maratona carioca. É uma produção de 2026 que coloca Fanny Ardant no centro de uma casa marroquina onde hierarquias, afectos e memórias começam a ser postos em causa. Esse drama será exibido nesta quinta-feira, 8 de Outubro, às 13h45, no CineCarioca José Wilker 2, e no domingo, 11, às 16h30, no Estação Claro Rio 4. Com Nisrin Erradi, Ahmed Hammoud, Boubker Fahmi e Jalila Talemsi no elenco, o filme acompanha os conflitos internos de Leila, governanta de Madame Isabelle, cuja rotina meticulosamente organizada sofre um abalo quando alguém do seu passado reaparece.

Realizadora de Magari (2019) e Te l’Avevo Detto (2023), Elkann volta a fazer da família — entendida menos como instituição do que como território de tensões, afectos, ressentimentos e lembranças — matéria de cinema. Desta vez, porém, encontra em Marrakech uma geografia capaz de interferir directamente na dramaturgia. A casa onde vivem Isabelle e aqueles que trabalham para ela estabelece fronteiras sociais muito claras; o jardim, pelo contrário, dissolve-as. É a natureza que determina as suas regras.

Nascida em Londres, com uma infância que passou também pelo Rio de Janeiro e por Paris antes de se estabelecer em Itália, Elkann carrega consigo uma identidade que dificulta qualquer tentativa de reduzir o seu cinema a uma nacionalidade. Em conversa com o C7nema num hotel em Copacabana, a realizadora falou sobre essa geografia afectiva, a experiência de dirigir Fanny Ardant, a velhice, a memória, o som e aquilo que considera uma das suas maiores descobertas enquanto cineasta: o tempo.

Ginevra Elkann em Copacabana Crédito: Andrea Pessoa

Há uma sensação de que o território que filma se transforma também numa personagem. Em As Rosas de Marrakech, a própria Marrakech parece ter uma função dramatúrgica. Que personagem é essa?

O jardim é a personagem. A casa e o jardim são também Marrakech, sobretudo nessa relação entre aquilo que está dentro e aquilo que está fora. A casa reúne todas aquelas pessoas que vivem e trabalham naquele lugar.

Existe aí uma dicotomia muito poética entre as diferenças de classe e os laços afectivos. No jardim, as relações de poder daquela casa parecem menos demarcadas. É possível entendê-lo como o espaço mais democrático deste universo?

Sim. Porque não és tu quem decide verdadeiramente aquilo que plantas. O poder não é teu. É de Deus, da natureza ou de qualquer coisa que seja maior do que todos nós. Se chove, se existe água, se chega o sol, tudo isso vai decidir se aquilo que plantaste cresce ou não. O jardim é o lugar da natureza e, nesse sentido, pertence a todos. Dentro da casa, pelo contrário, existe uma hierarquia muito mais evidente. A senhora vive no último andar e as restantes pessoas estão lá em baixo. Essa hierarquia é muito mais marcada dentro da casa. No fim, o jardim torna-se de todos.

Há pouco usou a palavra “hierarquia”, e ela permite chegar a Fanny Ardant. O filme oferece espaço a todo o elenco, mas tem consigo uma figura que atravessa gerações do cinema. O que significa, poeticamente, trabalhar com Fanny e, ao mesmo tempo, procurar uma Fanny Ardant diferente daquela que conhecemos dos filmes de François Truffaut e de tantos outros grandes realizadores?

Para mim, Fanny representava todo um mundo: uma elegância, uma voz e, sobretudo, uma graça que é absolutamente dela. É claro que, enquanto filmávamos, eu olhava para o monitor e via também todos os filmes com Fanny que vi durante a minha vida. Havia essa alegria enorme de poder trabalhar com ela. Mas devo dizer que Fanny me deu muito de si própria. Aproximou-se muito da personagem e penso que foi muito feliz a interpretá-la. Isabelle possui muitas características diferentes: tem teatralidade, humanidade, raiva, carinho, humor. É uma personagem muito complexa. E Fanny é uma grande actriz, portanto podia fazer essa grande senhora, essa personalidade enorme. Ela pertence também a um outro tempo.

E falar de outro tempo é falar do passado. Aqui, o passado ameaça romper o equilíbrio que Leila construiu para si. Pode ser uma assombração, mas talvez seja também uma possibilidade de conciliação. Até que ponto o conflito entre passado e presente é importante para o seu cinema?

Sou muito ligada ao passado. Sempre fui muito atraída por esse mundo anterior, que sempre me interessou. Este filme é também sobre o envelhecimento. O que significa envelhecer? O que significa a solidão? Significa também viver das recordações, carregar consigo todo o seu passado e regressar a ele. Tenho um grande interesse pelas pessoas mais velhas. Sempre me fascinaram porque trazem consigo tantas histórias de um mundo muito bonito e que agora está a mudar profundamente. Por isso, este é também um filme sobre uma mudança, sobre uma passagem. Existe Fanny, existe Isabelle, existe aquilo que acontece com ela e aquilo que vem depois dela. Para mim, convivem aí duas forças muito importantes: a força da morte, que está a chegar, e a força da vida.

Cena da longa, que passa no Brasil como “As Rosas de Marrakech

As suas histórias parecem voltar frequentemente a pessoas confrontadas com a ruptura de alguma tradição ou de um determinado status quo. Em que medida sente que os seus filmes, incluindo este, rompem também com aquilo que tradicionalmente entendemos como “cinema italiano”?

Nasci em Londres, cresci também no Brasil, aqui no Rio, depois vivi em Paris. Só cheguei a Itália para viver quando tinha sete anos e fiquei lá. Sou italiana, claro, mas não sei até que ponto o meu cinema é italiano. Na verdade, nem sei exactamente o que isso significa.

Há elementos que atravessam os seus filmes, mas em As Rosas de Marrakech parecem ganhar outra tonalidade, sobretudo pela atenção dada às mulheres e aos seus conflitos. Ao mesmo tempo, nota-se de filme para filme um trabalho cada vez mais elaborado com o som, com os ruídos que cercam as personagens. Até que ponto o som se tornou um aliado para encontrar a sua própria voz como realizadora?

É interessante porque, quando comecei, não prestava tanta atenção ao som. Sou uma pessoa muito visual. Aliás, tenho uma relação particular com o som: se alguém põe um rádio demasiado alto, por exemplo, incomoda-me muito. Antes, pensava muito menos nisso quando fazia um filme. E usava muito mais música — talvez até música a mais. Aqui houve um trabalho diferente, tanto com o som como com a música. Uma das coisas mais bonitas do meu trabalho é sentir que aprendo muito em cada filme. Neste aprendi imenso sobre o som, sobre a imagem e sobre a construção cinematográfica. Mas talvez a coisa mais importante que tenha aprendido tenha sido o tempo. Senti realmente a importância do tempo.

O tempo como ritmo?

Sim. Mas não apenas o ritmo de uma cena. É o ritmo da própria construção do filme.

Falou há pouco do seu percurso por Londres, Rio, Paris e Itália. Cada território parece possuir o seu próprio tempo, determinado pelos ritos de uma cidade e de uma cultura. Qual é o tempo de Marrakech?

O tempo de Marrakech é o ritmo da oração. Em Marrakech existem cinco orações ao longo do dia: antes de acordarmos, quando acordamos, ao meio-dia, antes do pôr-do-sol e à noite. Esse ritmo da oração é fundamental para a jornada. Tudo é marcado por ele. No jardim, aquilo que vem de fora — o chamamento para a oração, os aviões, os ruídos da cidade — dá ritmo a um lugar onde, de outra forma, quase não saberíamos que horas são. Os sons que entram naquela casa constroem o seu tempo: a oração, os pássaros pela manhã, os veículos, todos aqueles pequenos ruídos que ouvimos desde o início da história. São eles que criam o tempo daquela casa.

E qual será o seu próximo projecto? Já existe um novo filme encaminhado, seja como realizadora ou como produtora?

Estou a escrever um filme com Marco Bellocchio. É uma história que ele me pediu para fazer e que irá produzir. Será sobre a última rainha de Itália, Maria José, que foi rainha durante apenas cerca de um mês. No fim desse período, nasceu a República Italiana. Portanto, mais uma vez, talvez esteja a falar de um tempo diferente do nosso. É o fim de uma época. Será muito interessante e muito bonito para mim trabalhar com um mestre como Bellocchio e poder mergulhar nesse momento histórico de Itália.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/jyff

Destaques