Um brinde a Hugo Carvana na alegria de “Bar Esperança”

(Fotos: Divulgação)

Irreverência costumava ser a palavra exata para definir Hugo Carvana de Hollanda — fosse como ator, realizador, adepto do Fluminense, cronista da vida boémia ou simplesmente como ser humano — até cometer a deselegância de abandonar este mundo, em 2014, sem pedir licença ao afeto das suas plateias. A partir daí, falar dele tornou-se inevitavelmente um exercício de saudade, termo singular da língua portuguesa usado para traduzir a ausência. Não por acaso, irreverência e essa mesma saudade misturam-se na longa-metragem que inaugura o ano cinematográfico do audiovisual brasileiro na televisão generalista do país: a dramédia Bar Esperança (1983). O filme é exibido esta segunda-feira, às 21h, na TV Brasil.

Trata-se da obra-prima de Carvana no seu percurso como cineasta, igualmente brilhante em cena, repartindo o protagonismo com Marília Pêra (1943–2015). A atriz conquistou o prémio Kikito de Melhor Atriz no Festival de Gramado pela sua interpretação nesta produção boémia, que conta ainda com Denise Bandeira e Anselmo Vasconcelos em atuações encantadoras.

O Bar Esperança, restaurante onde a cerveja gelada é a vedeta mais aclamada, funciona como ponto de encontro de todos os que circulam pela noite carioca. Por ali deambulam alguns dos artistas mais criativos do Brasil, incluindo a atriz de teatro e telenovelas Ana (Marília Pêra), companheira de vida, de trabalho e de amor do dramaturgo Zeca (Carvana), autor de peças que se demite da televisão por já não suportar o esquema imposto. O “atleta de garrafas” Cabelinho (interpretado pelo titânico Paulo César Pereio) está sempre por perto, a nadar em litros de álcool. No Esperança, o amor de Ana e Zeca pede repetição. A exibição da longa-metragem inaugura também as comemorações dos 90 anos de Carvana, funcionando como porta de entrada da sua obra para novas gerações.

Ator em filmes de Glauber Rocha e Ruy Guerra, Carvana foi também tema de um documentário dedicado ao seu trabalho, intitulado simplesmente Carvana, que abriu a 23.ª edição do festival É Tudo Verdade — o mais prestigiado festival da América Latina dedicado ao documentário —, em 2018. Nele, êxitos que consolidaram a projeção de Hugo junto dos exibidores, como Vai Trabalhar, Vagabundo (1973) e A Casa da Mãe Joana (2008), são revisitados com afeto pela realizadora Lulu Corrêa, que foi sua assistente nos sets entre 1996 e 2013.

Registo iconográfico oficial de “Bar Esperança” na Cinemateca Brasileira

“Comecei a fazer filmes ainda na era das chanchadas e depois entrei numa fase muito politizada, em que o cinema parecia uma bula de remédio, porque os realizadores diziam: ‘o meu filme é bom para acabar com a reforma agrária’, ‘o meu filme é bom para derrubar a ditadura’. Os filmes que realizei só são bons para deixar as pessoas felizes. Aprendi a filmar para levar alegria às pessoas”, afirmou Carvana ao C7nema, um ano antes de morrer, aquando do lançamento da sua última longa-metragem, A Casa da Mãe Joana 2 (2013). “Gosto de patotas, de grupos de amigos. As histórias que conto falam disso. Ninguém dorme num filme meu, porque celebram a alegria. Faço os meus atores trabalharem muito no set, concentro energia, filmo muito, canso toda a gente — mas ninguém se queixa, porque há integração, camaradagem e amor pelo cinema.”

Nascido em 1937, Carvana definia-se como “ator de câmara”, por se sentir mais à vontade com a energia do audiovisual do que com a força dos palcos. Na televisão, criou personagens antológicas, entre elas o lendário repórter Valdomiro Pena da série Plantão de Polícia (1979) e o milionário Lineu Vasconcelos de Celebridade (2003–2004). O amor à vida e o compromisso com a democracia eram aspetos centrais do seu modo de estar nos sets.

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