Para antecipar os festejos dos 90 anos de Jean-Luc Godard, o Festival Varilux, a maior maratona de cinema francês das Américas, incluiu uma nova cópia em folha de “À bout de souffle (br Acossado / pt O Acossado)” (1960) na sua programação em 89 salas de 42 cidades brasileiras, mas vai ampliar a festa para além do aniversário do maior semiólogo em atividade no planisfério audiovisual.
Para festejar também as seis décadas da Nouvelle Vague, o evento coordenado por Emmanuelle e Christian Boudier convocou o maior herdeiro da fina tradição da crítica ensaística francesa, o jornalista e escritor Jean-Michel Frodon, para dar uma masterclass sobre a produção cinematográfica autoral feita no seu país entre os anos 1950 e 1960. O colóquio está agendado para o dia 4 de dezembro, às 17h (20h em Portugal), com exibição online gratuita, transmitida ao vivo no Youtube do Varilux. Haverá tradução simultânea para a língua portuguesa.
De 2003 a 2009, Frodon foi diretor de redação da revista Cahiers du Cinéma, a Bíblia que fez do cinema de autor uma homilia. Desde setembro de 2009, ele mantém o blog “Projection Publique”. Na pequena entrevista a seguir, Frodon explica ao C7nema onde a Nouvelle Vague desaguou.
De que maneira a Nouvelle Vague redefiniu a representação da França nos ecrãs e de que maneira o desenho da nação e do povo francês, criado pelo movimento, foi ao mesmo tempo uma libertação e um claustro? Há algo a se libertar da herança Nouvelle Vague?
A Nouvelle Vague mostrou uma França mais moderna, mais dinâmica, onde a juventude era o centro das atenções, com uma liberdade moral em sintonia com as transformações da sua contemporaneidade. A ideia de França que ela divulgou (essencialmente ligada à Paris) combinou energia vital, transgressão estética e reflexão. Não houve “claustro”, mas houve, parcialmente, efeitos” trompe-l’oeil“, ou seja, ilusórios.
Aquela França do final dos anos 1950 e início dos anos 60 ainda era predominantemente conservadora, agrícola, e, só lentamente, abriu-se às forças de transformação da moral e dos comportamentos mostrados nos filmes. Logo, em relação ao que havia ao seu redor, a característica da Nouvelle Vague representou um ato, ou melhor, atos muito diversos, de liberdade. O seu espírito continuou a expandir-se sobre parte do cinema francês nas décadas seguintes, desde que não se quisesse repetir ou imitar o que Godard, Truffaut, Rohmer, Resnais ou Varda tinham feito naquela época.
De que maneira a Nouvelle Vague ampliou a noção de que o cinema francês é “palavroso” e muito voltado para reflexões mais intelectuais? Ou seria essa perceção uma falta de sintonia com a natureza poética do movimento?
Estas são versões caricaturadas, que não refletem a diversidade dos filmes da Nouvelle Vague. ‘Les 400 Coups’, ‘Tirez sur le pianiste’, ‘A bout de souffle’, ‘Paris nous appartient’, ‘Cléo de 5 à 7’ ou ‘Lola’ não são verborreicos. Há filmes que dão muito espaço para o diálogo e outros que não. Há filmes que, claramente, levantam proposições mais reflexivas e outros que não o fazem. O que é verdade, e talvez tenha ajudado a criar este clichê, é que os filmes da Nova Vaga francesa reivindicam para si uma condição de cinema, ou seja, eles não apenas não escondem essa vocação cinemática, mas encontram nela uma alegria e uma riqueza adicional, que contradiz a afirmação de transparência da encenação do cinema clássico. Mas Jean Vigo, Robert Bresson, Jean-Pierre Melville e Jean Cocteau já tinham feito do dispositivo cinematográfico um elemento de dramaturgia, em vez de tentar negar a sua existência.
Qual seria o ponto zero do movimento: “La Pointe-Courte” (1954), de Agnès Varda, ou “Les 400 Coups“ de Truffaut em 1959? E o que caracteriza esta marcha inaugural do movimento?
“La Point-Courte” é como a primeira andorinha que anuncia a primavera da Nouvelle Vague. Mas é, de facto, o lançamento quase simultâneo do ‘Beau Serge’ (Chabrol), dos ‘Les 400 Coups’ (Truffaut), do ‘Hiroshima mon amour’ (Resnais) que assinam a irrupção e o reconhecimento público do movimento.
O que Godard, que completa 90 anos no próximo dia 3, representa de mais transgressor na Nouvelle Vague e o quanto do movimento segue presente em sua obra?
Entre os cineastas da Nouvelle Vague, Jean-Luc Godard é quem questiona de maneira mais radical os processos de realização, as referências (cinéfilas, mas também literárias e pictóricas) em que se baseiam os filmes e as possibilidades do cinema como ferramenta de questionamento moral e social. Mesmo que, obviamente e felizmente, tenha evoluído muito, Godard nunca deixou de fazê-lo: abriu horizontes diferentes, mas ligados ao cinema nos anos 60, à política nos anos 70, aos Média nos anos 80, à História a partir dos anos 90.
Quem são os cineasta franceses que hoje mais carregam o espírito da Nouvelle Vague?
A lista é longa. Mas eu citaria, de forma incompleta e sem ordem em particular: Claire Denis, Mathieu Amalric, Arnaud Desplechin, Bertrand Bonello, Bruno Dumont, Leos Carax, Philippe Garrel, Alain Guiraudie, Olivier Assayas, Abdellatif Kechiche, Catherine Breillat, Philippe Faucon, Pierre Creton, Mia Hansen-Love, Rabah Ameur-Zaïmèche, Christophe Honoré, mas também alguns mais jovens cujos nomes ainda não são conhecidos. E também uma série de cineastas ligados aos documentários.

