No meio da claque organizada em prol da nomeação de “Bacurau” ao Oscar, à boleia do seu impacto nos EUA, na crítica americana, um livro batizado de “Três Roteiros”, editado pela Companhia das Letras para ser lançado agora em novembro – de olho nas vendas de Natal – , revisita a obra do pernambucano Kleber Mendonça Filho na seara das longas-metragens.
O filme que pode cair nas graças da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, laureado com o Prémio do Júri em Cannes, em 2019, íntegra as páginas dessa coletânea de scripts e ideias. Lá encontramos ainda os roteiros de filmes de culto como “Aquarius“, que lutou pela Palma de Ouro em 2016, e “O Som ao Redor“, que ganhou o Prémio da Crítica da Fipresci, a Federação Internacional de Imprensa Cinematografica, em Roterdão, em 2012. Na entrevista a seguir, Kleber conta ao C7nema sobre o seu método de escrita e dá as suas impressões acerca da relação de seu Brasil com o Poder político, hoje assolado pelo conservadorismo.
Existe um método Kleber Mendonça de escrita de roteiro ou as velhas escolas de escrita de script (Syd Field, Michel Chion, Leopoldo Serran) são ferramentas na tua forma de escrever? O que este livro revelou sobre o seu processo e sobre o seu universo?
Não existe um método. Compro alguns livros que acho que vão me colocar mais perto do tipo de coisa que quero escrever, do tema e do clima. Também passo a rever ou ver filmes que acho que possam me dar uma base de tom do que acho que quero escrever.O método principal é me dar tempo e alguma paz para sentar e escrever. Vou escrevendo muita coisa que já tinha pensado. Às vezes, o processo de chegar a um roteiro é você passar alguns anos cogitando a possibilidade de escrever esse roteiro. Acho que esse tempo que você leva pensando no tema, e no filme que quer fazer, é a prova de que vale a pena embarcar nessa escrita. Os métodos não são técnicos, não existem fórmulas para o meu método. Na verdade, o meu método é me certificar do que acho que quero escrever e precisa começar a ser desenvolvido. Uma vez que ele começa a ser desenvolvido, ele pode ser escrito muito rapidamente, como foi o caso de “O Som Ao Redor” e “Aquarius”, ou eles podem levar um tempo maior, como foi o caso de “Bacurau”. Acho que, em “Bacurau”, por ter um amigo colaborando, a gente passou muito tempo discutindo ideias antes e depois de elas serem escritas. Acho que isso terminou tirando muito tempo do processo, mas trazendo um prazer muito grande no processo de escrita. Nesse trabalho, existe uma parte que vem de anotações e algumas ideias que não podem ser esquecidas, mas existe muita coisa que se desenvolve a partir da própria escrita, ao ponto de eu ter que sair durante o dia e querer voltar para casa PARA escrever, por querer escrever e saber como certa cena vai se desenvolver e como determinado personagem vai falar com outro. Acho que existem métodos, mas eles são muito embutidos e orgânicos ao processo.
Os manuais de roteiro talvez possam ser do interesse de alguém, porque eles podem oferecer ferramentas ou fórmulas que para mim não são importantes. Talvez seja interessante alguém aprender isso para depois jogar fora. Não trabalho com métodos dessa fórmula ou com fórmulas outras pois acho que histórias são orgânicas. Quando você conta uma história, você não está pensando em métodos, você simplesmente está contando a emoção ou a graça da história, o conflito humano da história. Acabei de ver nas redes sociais, na sexta-feira, que tem uma carreata em protesto à eleição de Joe Biden nos Estados Unidos, em Maceió, na orla da cidade. Isso para mim, é uma grande história: você tem brasileiros, ao que parecem extremamente preocupados com os desdobramentos das eleições nos Estados Unidos e, aparentemente, 100% ignorantes de como funciona o processo democrático americano. Para mim, isso é uma grande história e, ao sentar para contá-la, o tom ou o estilo vem de quem está escrevendo. Acho que é muito mais importante o talento que você tem para contar essa história.
Onde é que a leitura da Emilie Lesclaux, a sua produtora e companheira, mais e melhor afeta, esculpe, revisa, refaz os roteiros que você escreve?
Emilie é a primeira pessoa que lê e que reage a uma cena nova. Às vezes, fico sem saber se espero para mostrar as últimas 25 páginas de um roteiro ou se quero que ela veja essa cena nova. As reações dela me norteiam, estimulam e me fazem querer continuar escrevendo. Ela dá pitacos muito maravilhosos e a reação dela é importante. Depois dela, começo a abrir para alguns amigos, mas é a Emilie que me dá segurança para isso. E os amigos me dão segurança para passar para outro estágio. Acho que escrevo um pouco sobre isso no meu texto de introdução. Emilie e os amigos são extremamente importantes para todo esse sistema, muito confuso, de escrever um roteiro.
Fala-se muito em classe média e até em aristocracia no universo retratado nos teus filmes. Mas qual seria a ideia de classe social ou mesmo a ideia de povo que norteia as histórias revistas no teu livro?
Espero que sejam olhares observadores sobre como funciona a sociedade e entendo que ela é dividida em camadas de classe social. O Brasil lança mão o tempo todo dessas camadas para jogar com o Poder, para se organizar usando o Poder. É muito claro que o Poder vem de cima para baixo e que existe muita gente nas camadas inferiores que não quer se deixar levar por esse poder. Com isso a gente tem uma fonte inesgotável de dramas, conflitos e histórias a serem contadas. Acho muito grave quando o jornalismo, o cinema e a literatura brasileira não estão atentos a essa estrutura do Poder. Sou de uma família classe média média. Os meus pai são professores. A minha mãe é uma pesquisadora e historiadora. Nós, por sermos dessa classe média pernambucana brasileira, tivemos acesso a famílias de classes mais pobre e mais rica que nós. Eu, como observador brasileiro e pernambucano, coloquei muitas dessas observações nos meus filmes. O drama vem dessa observação de como funciona a sociedade. As sociedades em geral. O Brasil em particular. São sociedades extremamente injustas, violentas, racistas, misóginas e machistas. Tudo isso faz parte dos universos que tenho abordado. Para mim, ficou muito claro relendo os roteiros esse ano, durante a preparação para o livro. Acho que esses elementos já fazem parte da escrita e o livro deixa isso muito claro, inclusive, às vezes, para mais e para menos. Textos são sugestões, são bases para um filme que vai ser feito e foi muito bom reler os filmes.
Como o professor Ismail Xavier – que escreve um texto sobre sua obra no livro – ilumina a sua reflexão acerca do Brasil que você retrata nos roteiros ali revistos?
O Ismail vem, há muitos anos, sendo uma luz no cinema brasileiro. Ele tem uma compreensão magnífica da cultura brasileira e do cinema brasileiro como observador da sua própria história e como cronista da sua própria sociedade. Claro que tem uma compreensão incrível da sociedade brasileira como intelectual académico que é. Ter o Ismail a fazer parte do livro, com um texto maravilhoso, é uma honra e um orgulho muito grande para mim. Antes eu já era um observador distante, um leitor do trabalho dele. Eu aproximei-me mais dele durante a carreira de exibições Brasil afora de “O Som Ao Redor”. Fui para um debate na Universidade de São Paulo – que está inteiro nos extras do DVD e do Blu-Ray do filme – e ele me impressionou muito naquele encontro falando sobre arqueologia, um tema que me interessa muito e está presente em diversos trabalhos meus. Está em grande estilo na escrita de “O Som Ao Redor”. É uma honra tê-lo no livro.
Os seus filmes têm um peculiar trato com a música pop (e mesmo a dita canção de protesto) indo de Queen a Gal Costa. Como esses roteiros já incorporam a música como um elemento de cena (o caso da canção do Roberto Carlos em “Aquarius“) e como funciona essa camada musical da tua obra?
O uso de música no cinema é algo extremamente delicado, porque, principalmente no cinema comercial, a música é usada de maneira… comercial, de maneira amercadológica. Para mim, a música é um elemento emotivo e de prova de cultura. A música faz parte da produção cultural do mundo e ela se agrega a nós, não só consumidores de cultura, mas a nós que nos alimentamos de ideias através da cultura, que pode ser na literatura, no cinema ou na própria música. A inserção de uma música num filme, para mim, vem de uma série de ideias que levam muito tempo. Leva tempo para você ter a certeza de que quer trazer aquele pedaço de cultura para o seu filme… que também é um pedaço de cultura. Já tive a experiência de usar muitas músicas nos meus filmes, inclusive nas curtas. O “Recife Frio”, por exemplo, tem a cirandeira Lia de Itamaracá encerrando o filme. Geralmente, o que acontece é que o surgimento de uma ideia ronda todas as etapas. Há uma grande possibilidade de você já escrever uma música no próprio roteiro. O “Quintal do Vizinho”, a música do Roberto em “Aquarius”, não foi escrito no roteiro. Chegamos ao “Quintal do Vizinho” antes de filmar. Eu queria já filmar a cena de Sônia dançando sozinha na sala com a música que seria usada e, de facto, houve um amadurecimento rápido. Cheguei rapidamente trocando muitas ideias com a equipea. Tem músicas que são estabelecidas no roteiro, como, por exemplo, “Cadavres En Série” do Serge Gainsbourg, que abre o “O Som Ao Redor”. Eu identifiquei e me apaixonei por essa música antes de filmar e já estava escrito no roteiro. Tem muita coisa que entra na filmagem, na montagem e na mixagem. É um processo muito delicado esse, o do uso de música. Curiosamente, no “Bacurau”, “Night” do John Carpenter foi escrito no roteiro para ser abertura e terminou indo para o meio do filme, na sequência de capoeira. Essa sequência não foi escrita no roteiro… ou, se foi escrita, foi durante a filmagem. É tudo tão complicado de explicar. Essa música foi para essa cena porque gerava uma tensão cultural forte. “Objeto Não Identificado”, cantada por Gal Costa e composta pelo Caetano Veloso, foi para a abertura do filme por gerar uma tensão interessante com essa imagem clássica americana, do CGI e do espaço, que nos remete a “Star Wars”, “Starman”, “Superman” e toda essa carga visual que a gente tem através do cinema hollywoodiano. Misturar a Tropicália com isso era muito mais interessante que colocar um som de sintetizadores americanos com uma imagem americana que abre o filme
Qual é o teu próximo passo na ficção e o que esperar do documentário sobre as salas de cinema já anunciado?
Trabalho há um tempo, há alguns anos já, em um ensaio que muitas pessoas vão ver como documentário. É sobre a arqueologia do Centro do Recife vista pelo que restou, pelas ruínas e as descobertas arqueológicas do século XX, relacionadas à sala de cinema. Esse é um filme que venho fazendo já há um bom tempo. Eu me sinto em relação a ele como quando as pessoas perguntavam sobre o “Bacurau”. Era só um projeto que eu estava a fazer há muito tempo. Espero que esse filme saia em breve. E espero que ele seja um bom filme. Tenho uma relação muito apaixonada com ele, porque ele visita temas que, para mim, são muito caros: a história da cidade, o comportamento social, a arquitetura, a arqueologia como vestígio de como a sociedade funcionava em determinado momento e sobre cinema. A gente está passando por um filme muito interessante e dramático, da ideia de cinema como um espaço de convívio. E é assim não só devido à pandemia. Antes dela já existia toda essa discussão em torno do streaming e da mudança de hábitos.

