Ruben Alves e o seu “Miss”: “Adoro a diversidade. Adoro a diferença.”

"Miss" estreia em Portugal a 26 de novembro

(Fotos: Divulgação)

O tema da identidade é – para já – uma marca de autor no cinema de Ruben Alves. Depois do sucesso em França e Portugal com “A Gaiola Dourada”, onde se questionava a identidade de duas gerações de emigrantes portugueses em França, o jovem realizador embarcou numa nova busca identitária em “Miss”, filme no qual um jovem deseja concorrer ao famoso concurso de beleza (Miss França) apesar de ser um rapaz no “papel”. Para esse papel principal, a escolha de Ruben recaiu em Alexandre Wetter, modelo andrógino que trabalha com Jean-Paul Gaultier e que surgiu em pequenos papéis nas séries “The Marvelous Mrs. Maisel” eGuépardes“.

O filme nasceu no meu encontro com o Alexandre”, explicou-nos Ruben Alves numa entrevista em outubro, aquando da abertura da Festa do Cinema Francês.

Como foi trabalhar com o Alexandre em “Miss”?

Trabalhar com o Alexandre foi diferente de todas as minhas experiências, pois sempre trabalhei com atores. Ele não era um ator, era um diamante bruto e ver a evolução de alguém que tinha uma coisa forte, que ele tem, um olhar, foi uma aposta que fiz, porque o instinto dizia-me que era boa pessoa. Os produtores perguntaram-me se tinha a certeza. Ninguém tem a certeza de nada, mas senti que sim. Ele não era ator, mas poderíamos fazer coaching para ele gerir as suas emoções. Ele não ia fazer de Edith Piaf, ele tinha de trabalhar para encontrar o feminino nele. Ele já tinha esse lado, mas de um ponto de vista de performance de moda. Aqui era preciso sentir.

Trabalhou imenso durante dois meses e foi maravilhoso de ver um ator a explodir… a nascer. E todos os atores que tinha no elenco disseram: uau. Eles estavam fascinados com esse despontar. Era só verdade a sair dele, às vezes até em demasia. Houve momentos em que para sentir uma emoção, ele chorava imenso. Ele não precisava de artifícios, gotas. Na edição tive mesmo de cortar, porque senão era choro a mais. Há cineastas que adoram isso, filmar as lágrimas, eu achava que era demais. Talvez seja pudor.

E como nasceu esta ideia para o filme na tua cabeça? É mais um filme sobre a identidade. No “Gaiola Dourada” tinhas uma questão identitária entre Portugal e França e aqui de género…

Sobretudo descobrir quem somos. A nossa identidade, o nosso equilíbrio. Como é que a gente sente-se bem e a liberdade que temos para assumir quem somos. Isso é o filme. 

O filme nasceu no meu encontro com o Alexandre. Tinha muitas ideias, já tinha escrito coisas com as quais não estava contente, que não me satisfaziam completamente. Quando encontrei o Alexandre, toda a sua luz, até porque é alguém muito positivo, fascinou-me. Ele contou-me a sua história e fiquei fascinado. A coragem que temos que ter hoje em dia de ser diferente numa sociedade que dá uma imagem super libertina, mas afinal – e cada vez menos – aceita a diferença.

Cada vez mais somos colocados em caixas, cada vez mais normativas. Uma sociedade onde tens de ser um “bom cidadão”. Veja-se aquela coisa assustadora que está a acontecer na China onde recebemos notas (pontos) se fazes isto ou aquilo na rua. Isso é assustador! E vê-se nas redes sociais quando alguém diz uma coisa um pouco diferente, cai-lhes tudo em cima. Toda a gente tem a chamada “boa consciência”. Não aguento isso. Adoro a diversidade. Adoro a diferença. Este filme é sobre a diferença e de assumir essa mesma diferença. O que é que faz a riqueza de um povo é essa diferença, senão seria tudo chato, formatado. As redes sociais estão do piorio. 

O Alex veio no momento certo para me mostrar que teria de ser feito um filme sobre uma personagem que assume e é livre de ser como é. Encontrei-o, fomos depois almoçar e contei-lhe a história da Miss França, porque queria que esta personagem não entrasse nas regras de um concurso cheio delas e super normativo. Foi isso que achei interessante, de como fazer esta personagem entrar nisso para perceber quem ele é.

Há algo curioso na personagem da “mãe” do Alex. Tu crias um ataque do “velho feminismo” a esse concurso. Aliás, é um dos melhores diálogos do filme, a discussão da “mãe” do Alex com a organizadora do concurso Miss França.

De certa maneira, ambas são “mães” dele. Eu adoro estas duas personagens porque são duas feministas, mas cada uma à sua maneira. 

Têm formas diferentes de ver a mesma coisa…

Exatamente, até porque neste tema há vários subtemas e gosto disso. 

Na questão dos estereótipos, existe claramente um esforço numa parte em os afastar, como na questão do que é uma mulher. Porém, simultaneamente, há outros estereótipos que colocas em cena, como por exemplo o da Córsega, e aquela piada comum no cinema gaulês.

Sim, e é sempre um riso completo na sala. É um clichê. Eu gosto de brincar com os clichês. Mas é verdade. Tu vais de férias na Córsega e eles não brincam…Tu não vais lá dizer: olhe, venho cá comprar casa. Eles dizem logo:“não, não. Tu não fazes obras aqui”…Gosto de desconstruir o estereótipo, mostrá-lo e reconstruí-lo.

Voltando ao concurso. O que eu não acho de todo bem nestes concursos é aquela coisa formatada da mulher que tem de ter 1,75 e não sei quê. Por isso decidi colocar um rapaz dentro disso. É o meu lado de provocador da coisa. 

E foi fácil encontrar financiamento para este filme?

Fácil? Nunca é fácil, sobretudo agora, mas lá o encontrei.

Pergunto isto no sentido se foi mais fácil depois de fazer o “Gaiola Dourada”, que foi um sucesso. Tornou as coisas mais fáceis, certamente, mas – ao mesmo tempo – não te trouxe uma pressão acrescida?

Pressão existe sempre, mas o tema também é mais arriscado. Ficaram todos muito curiosos, mas ao mesmo tempo diziam: “não sei”… Foi aí que fui com aqueles que achava mais empreendedores, que arriscavam mais. E foi quando encontrei a Warner Bros., que são americanos, mas têm um lado de pensar anglo-saxónico mais propenso ao risco. Adoraram logo o “pitch”. O “Gaiola Dourada” foi feito com a Pathé e a TF1, este é com a France Télévisions, que é o canal nacional,  a France 2 e a Warner, ou seja, completamente diferente. Mas foi ótimo.

Se pensarmos bem, o tema é facilmente exportável, até para um remake americano. 

Sim. Por exemplo, soube agora que o filme vai passar no Japão e queria lá ir apresentar o filme, mas por causa do Covid-19 não posso. Estou super triste.

E achas que é uma boa altura para lançar o filme agora em França (e Portugal)?

Nunca é boa altura, enquanto houver Covid-19.

E como tem sido a recepção ao filme? Sei que esteve no Festival Alpe D’huez…

Sim, esteve no início do ano. Depois teve uma só projeção no Festival du Film de Cabourg, onde ganhou o prémio de melhor revelação, e no final de agosto estivemos no Festival de Angoulême. Fomos porque era a reentre do cinema, para relançar as salas, e foi ótimo para nós pelo foco que recebemos.

E tem sido bem recebido nesses festivais?

Tem sido muito bem recebido e sempre com muita emoção, uma coisa muito especial. Aliás, nos festivais que passamos, tivemos sempre uma ovação de pé. O Alex, como dá tudo, a alma, tudo, as pessoas olham para ele e querem agradecer-lhe. E ele chora e chora…

Mas o filme é muito otimista. É quase uma fábula.

Sim, é mesmo isso. A Warner viu o filme assim, como um conto de encatar. Um conto de fadas. 

Achas que o que acontece no filme era realmente possível de acontecer na vida real?

Estive com a diretora da Miss France no início e disse-lhe: Sylvie [Tellier], tens de me dizer uma coisa, senão para mim é muito difícil escrever algo que na minha cabeça penso que é impossível. Era possível acontecer isto? Ela disse: “Era, pela razão muito simples que eu nunca vou ver se é uma mulher ou um rapaz. Vejamos que o Alex é completamente mulher e tem os documentos falsos. Eu nunca vou ver se é ou não é”. Aliás, ela disse-me que há dois anos teve algumas dúvidas numa candidata em Toulouse e não a escolheram, pois não queriam ter um escândalo. Mas se calhar até já tiveram e nunca se soube. Na minha cabeça, ela disse-me que era possível, por isso…

E a seguir ao “Miss”, o que vais fazer? Vais continuar a fazer cinema?

Cinema e outras coisas. 

Streaming?

Porque não? Já tive propostas…

Deixaste foi um pouco de lado a carreira de ator…

Sim, isso deixei porque não me preenche totalmente. Vem muito pouca coisa interessante ter comigo. Deixo outros atores maravilhosos fazer. Eu não sou de estar à espera dos desejos do outro. Não sou assim. Faço as minhas coisas. Agora tenho um projeto de entrar num filme [ baseado numa obra] do Marcel Proust, com o Gérard Depardieu. Está no proecsso de financiamento. Vamos ver. 

Também estou na escrita de outro projeto. Um filme que quero fazer aqui em Portugal.

E a questão da identidade vai também surgir?

Sim, também. Será uma coprodução, que quero filmar cá, e estou a escrever com um espanhol.

Podes falar um pouco disso ou ainda é cedo?

É cedo, ainda estou na escrita.

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