Dario Argento: “O coronavírus representa a nossa impotência”

(Fotos: Divulgação)

Um dia depois de ser homenageado com um tributo honorário pela sua carreira nas veredas do terror no Ca’ Foscari Short Film Festival, em Veneza, o romano Dario Argento já está imerso em planos para iniciar as filmagens da sua nova longa-metragem, Occhiali neri, agendadas para o segundo trimestre de 2021.

Desde Drácula 3D, exibido em Cannes em 2012, que Dario não filma, tendo no currículo pérolas pop do assombro e do sangue como Tenebre (1982) e Profondo Rosso (O Mistério da Casa Assombrada / Prelúdio para Matar, no Brasil), pelo qual ganhou o prémio de Melhor Realização em Sitges. Nesta conversa com o C7nema, o artesão do giallo — termo italiano para thrillers de horror onde o sobrenatural e a psicopatia caminham de lâmina em punho — falou desse novo projeto e da sua experiência de 50 anos como realizador. A efeméride remete para o cinquentenário de O Pássaro com Plumas de Cristal (1970), a sua estreia na realização. Antes, o cineasta, que completou 80 anos a 7 de setembro, já havia trabalhado como argumentista, escrevendo inclusive um western icónico. Com a palavra, a prata do medo:

Envelhecer assusta? O que mais mete medo a um mestre do terror?

Hoje, o meu maior medo é o coronavírus. E não apenas por ter atrasado os meus planos de filmagem de Occhiali neri e deixado a Itália inteira confinada, prendendo-me dentro de casa durante quase seis meses, saindo apenas para comprar comida. A covid-19 assusta porque representa a nossa impotência e conduz-nos a um desânimo coletivo. Por isso, é a peste do século XXI. O meu cinema é universal porque fala dessas impotências que nos assombram, colocando-nos perante um perigo que não obedece a uma lógica de sanidade. Os meus monstros são criaturas que se interessam pela vida alheia, que invadem a rotina do próximo. Tal como o coronavírus fez.

O que podemos esperar de Occhiali neri após a pandemia? Que monstros habitam nele?

Vamos filmar em abril, com todos os protocolos de segurança, assim que tudo estiver mais tranquilo no mundo. Pelo menos é o que espero. É a história de uma jovem que perde a visão num acidente e precisa de escapar de alguém que a persegue — um monstro — e conta com a companhia de um menino chinês e de um cão na fuga.

Hoje fala-se muito em “jump scare” no horror, assim como em “novo terror”, mais gráfico e menos pautado por sustos. Que significado têm esses conceitos para a sua dinâmica do medo?

Eu não analiso muito o que outros realizadores fazem ou o que pensam sobre mim, porque sou muito instintivo na forma como filmo. Escrevo um guião, desenho o storyboard e filmo. Só depois de dois ou três anos é que percebo o que aquele filme simboliza no universo do terror. O que realmente me interessa é Freud e Jung, porque todas as histórias que conto são representações dos meus sonhos. A psicologia é fundamental. Depois da psicanálise, a representação do real ganhou outra dimensão, que tento explorar. E existe a pintura. Eu recorro sempre à pintura como referência.

E em relação ao próprio cinema? Há filmes de horror da sua formação que ainda o acompanham hoje?

Quando era muito jovem, criança, tive o meu primeiro contacto com o terror ao acompanhar os meus pais a uma exibição de O Fantasma da Ópera, com Claude Rains. Aquilo fascinou-me de uma forma estranha. Esse fascínio prolongou-se quando, ainda adolescente, descobri o expressionismo alemão e algum cinema americano dos anos 1940, produzido por Val Lewton. Mas, depois de me tornar crítico, a dimensão do assombro que me interessava era Bergman e Buñuel. Já no estilo, a principal influência que tive foi a Nouvelle Vague. Foram os franceses, com a sua liberdade, que me ofereceram a autonomia de que precisava para abordar o terror de forma particular, através da psicanálise.

Mas vem da Itália, a terra do neorrealismo. A influência de Rossellini foi determinante?

Na minha geração, não. Apesar do respeito que tínhamos pelos neorrealistas, o cinema deles era uma resposta a um momento histórico de fome e desesperança em Itália. O vazio, a falta de comida… tudo isso foi inspiração para eles. Eu pertenço a uma geração que viu a Itália ser atropelada pelo consumismo, que mudou a relação com o real.

Antes de começar a filmar, o senhor e Bernardo Bertolucci (1941-2018) trabalharam com Sergio Leone (1929-1989) no argumento de um dos westerns de culto da história: Era Uma Vez no Oeste (1968), a iguaria máxima do spaghetti western. Qual foi o maior legado desse filme tão distante do universo do horror?

Leone estava habituado a trabalhar com argumentistas mais velhos, com muita experiência de vida. Mas confessou-nos que não sabia bem como construir personagens femininas tridimensionais. Foi aí que a nossa juventude fez a diferença, porque pertencíamos a uma geração que sempre valorizou a sabedoria das mulheres.

As mulheres têm sempre um papel central no seu cinema, sobretudo em Suspiria (1977), cujo remake recente, de Luca Guadagnino, parece não ter merecido a sua aprovação. Mas há algo no cinema italiano de hoje de que goste? E no cinema de terror a nível global?

Ao remake de Suspiria faltou medo. Quanto aos italianos, o facto de estarmos muito confinados à comédia faz com que a produção atual não me impressione muito. Sobre o terror, sim, há quem esteja a fazer coisas potentes, em especial Guillermo Del Toro.

Qual foi o simbolismo da homenagem no Ca’ Foscari Short Film Festival para si?

Foi muito comovente, sobretudo pelo reconhecimento académico que recebi por parte da cena universitária de Veneza.

Aos 80 anos, completando 50 de carreira, já consegue avaliar o que acrescentou ao giallo, à diversidade do terror e ao cinema no seu todo, que tanto admira a sua estética?

Todo o realizador conta histórias que, de algum modo, são autobiográficas. Os filmes que fiz — e os que ainda farei — refletem os medos que tive em criança e aquilo que sonhei em pequeno. Filmar é a minha forma de voltar a ser criança. E ser criança é ser genuíno. 

Link curto do artigo: https://c7nema.net/gr02

Últimas