Herdeiro do legado cinematográfico do neorrealismo nas artes gráficas, definido no exterior como “o Dino Risi da banda desenhada”, em comparação ao mítico diretor das “comédias tristes” de Itália, o brasileiro Marcello Quintanilha ganhou notoriedade na Europa com “Tungstênio” (2014). Adaptado como longa-metragem em 2018, por Heitor Dhalia, esse painel das contradições geopolíticas da Bahia foi premiado no Festival de Angoulême, o maior evento de análise crítica sobre graphic novels e strips do mundo, realizado em França.
E é em solo francês que o seu trabalho mais recente, “Escuta, Formosa Márcia” – uma afirmação da sua natureza plástica digna do cinema moderno autoral – ganha aclamação entre a crítica do Velho Mundo. Lançada no Brasil pela Veneta, a nova BD do desenhista e escritor de Niterói de 49 anos chega em terras parisienses pela Ed. Ça et Lá, cercada de adjetivos superlativos atribuídos pela revista Télerama. Stéphane Jano escreve: “Quintanilha continua a nos surpreender. (…) Ele retrata admiravelmente pessoas comuns apanhadas em situações nada ordinárias”. Depois de “Luzes de Niterói” (2019) e “Talco de vidro”(2015), ele regressa às BDterias com a história da enfermeira Márcia Mãe solteira, nascida e criada numa comunidade do Estado do Rio, ela vem travando uma verdadeira batalha doméstica para disciplinar a sua filha, a insubordinada Jaqueline. Apesar do auxílio do seu companheiro, Aluísio, padrasto da miúda, tudo parece inútil, pois Jaqueline não aceita se submeter a nada que a impeça de sair por aí e fazer o que quiser, sem dar satisfações a ninguém. Porém, quando a jovem se vê envolvida até o pescoço com o crime organizado, Márcia estará disposta a chegar às últimas consequências para livrá-la dessa enrascada. Quer Jaqueline queira, quer não.
Embora more em Barcelona desde 2002, Quintanilha conversou com o C7nema de uma chuvosa Paris, trancado no quarto, trocando impressões sobre o peso (ou não) da distância do Brasil sobre a realidade que desenha… como ninguém.

O que a experiência da vida europeia, em Barcelona, mudou na sua forma de desenhar e de olhar o teu Brasil, com algum distanciamento geográfico?
Muito, muito pouco. O meu trabalho expressa uma série de vivências e elementos que me constituíram como ser humano, tendo crescido nos anos 1970 e 80, num antigo bairro operário de Niterói, no estado do Rio de Janeiro. O Brasil representado nas minhas histórias vem daí. Dos campeonatos de futebol locais, das fábricas que fecharam as portas devido à mudança do polo económico do país, das colónias de pescadores. Nada na minha mudança de país afetou essa percepção.
O que essa sua nova personagem, a protagonista de “Escuta, Formosa Márcia”, espelha da realidade brasileira hoje?
Espelha algo sempre presente no meu trabalho: as relações humanas e a maneira como as circunstâncias se encarregam de esgarçá-las, até o ponto de ruptura. Optei por uma paleta de apenas 28 cores, em tons quentes, frios e ácidos, que não correspondem a seus equivalentes no mundo real, como metáfora para a progressiva desconexão com a realidade tão característica do mundo atual.
De que maneira a sua incursão nos cinemas, com “Tungstênio”, modificou a sua percepção do papel das HQs no mercado cultural hoje? Como você avalia o peso que os quadrinhos adquiriram no mercado da cultura?
Na verdade, não modificou em nada, porque nunca imaginei as BDs como um meio a ser resgatado do gueto cultural. As interações entre cinema e banda desenhada não são maiores do que as que existem entre qualquer outra linguagem. Mas, sem dúvida, é perceptível que os quadrinhos têm se estabelecido como uma media que chega a um público muito mais amplo do que em épocas anteriores.




















