“Como eu posso ter uma conversa com alguém que não quer ter uma conversa”, disse o ator Wagner Moura à Berlinale, em fevereiro de 2019, logo após a projeção para a imprensa do thriller “Marighella”, a sua longa-metragem de estreia como realizador, apresentada na Alemanha, onze anos após a conquista do Urso de Ouro por “Tropa de Elite”, no qual imortalizou a figura do Capitão Roberto Nascimento.
“Há no Brasil um movimento contra a arte, contra os artistas, contra a cultura. O meu elenco entrou com paixão neste filme, que eu espero conseguir lançar no circuito brasileiro o quanto antes, pois há uma necessidade dele”, completou o astro baiano na sala da sede do evento germânico. Mas, desde então, essa produção que arrebatou os aplausos da Europa por sua carpintaria de ação – hoje em cartaz em Portugal – segue inédita até hoje no seu país de origem. Estimava-se uma estreia ainda neste semestre, mas novembro é a nova data.
Apresentado na capital alemã fora de concurso, o debutar de Wagner como realizador é um estandarte de controvérsia, pela coragem de apostar na dialética ao apontar a luz e as trevas da direita e da esquerda. Mas é também um estandarte de virtuosismo, pelo seu ritmo narrativo feérico.
A trama foi escrita pelo ator e por Felipe Braga. Nela, o poeta, deputado e militante baiano Carlos Marighella (1911-1969), vivido por Seu Jorge, confronta a esquerda com uma discussão sobre a importância estratégica da luta armada. Acaba expulso do partido em que milita pela sua aposta num contra-ataque com tiros e bombas. Os seus feitos levam Lúcio (Bruno Gagliasso, inspiradíssimo numa atuação enraivecida, mas com alguma fragilidade afetiva) a ampliar o cerco, vigiando o filho de Marighella, Carlinhos, um adolescente.
“Estou preparado para ser atacado por todos os lados por este filme, no qual a relação pai e filho é fundamental para mostrar que estamos diante de uma história de sacrifício. Há 50 anos, o Estado matou um homem negro num carro, que lutava pela liberdade. E 50 anos depois da morte desse homem, chamado Carlos Marighella, mataram, também num carro, uma mulher negra que tinha a mesma luta, a vereadora Marielle Franco. Vivemos sob uma batalha de narrativas, até hoje”, disse Wagner na Berlinale, para onde levou uma placa com o nome da vereadora para a projeção fora de concurso da longa-metragem. “O trabalho com a montagem e a direção de fotografia foi um trabalho no qual fui conduzido pelo editor Lucas Gonzaga e pelo fotógrafo Adrian Teijido, dois homens muito experientes. Nós os três fizermos ‘A busca’ juntos, antes, em 2012. Era nossa proposta que ‘Marighella’ nunca parecesse um filme de época, e, sim, algo vivo. O Brasil para que olhei foi o de 1964, debaixo da ditadura militar, preocupado com o máximo de fidelidade possível, na direção de arte e na maneira como os atores se comportavam. Tivemos uma assessoria de guerrilheiros, que foram conversar com as pessoas”.

Em 2016, Wagner concorreu ao Globo de Ouro pelo seu desempenho na série “Narcos”, o que deu mais prestígio à sua carreira fora do Brasil, que avançou com “Wasp Network”, de Olivier Assayas, nomeado ao Leão de Ouro em 2019, e segue neste momento com uma participação em “The Gray Man”, dos irmãos Anthony e Joe Russo. Todo o respeito que conquistou por ser um dos mais talentosos atores das Américas torna ainda mais urgente a estreia do seu trabalho como cineasta, sobretudo pela presença de Seu Jorge, um cantor de enorme sucesso mundo afora, que não sai das rádios, e foi visto interpretando “Cidade de Deus”, que completou 20 anos em 2020.
Controverso na sua coragem de ser dialético, humanizando tanto a esquerda quanto a direita, “Marighella” impressionou os críticos pela potência de sua representação da violência, como um filme de ação de arrancar respeito de Vin Diesel, ainda que feito sob a inspiração de uma linguagem à europeia. “Usei como referência para a equipe e elenco que deveria ser um filme de ação à moda dos irmãos Dardenne”, disse Wagner ao C7nema em 2019, referindo-se à estética hiperrealista de Jean-Pierre e Luc Dardenne, cineastas belgas vencedores de duas Palmas de Ouro em Cannes com “Rosetta” (1999) e “A criança” (2005). “Neste momento, a palavra resistência, que Marighella representa, faz muito sentido. A nossa intenção era refletir o mais fidedignamente as contradições do Brasil de hoje. Há uma semelhança da realidade que mostramos com o Brasil de hoje, mas não é uma resposta a Bolsonaro. São semelhanças históricas, de um Estado que encarcera e mata, sobretudo negros”.

