Paula Gaitán é homenageada na Mostra de Cinema de Tiradentes

(Fotos: Divulgação)

Motor de arranque anual dos grandes eventos cinéfilos do Brasil, a Mostra de Tiradentes, em Minas Gerais, este ano reinventada online, vai abrir a sua 24ª edição a 22 de janeiro com os olhos escancarados de encantamento pelo léxico de cosmogonias da realizadora e artista plástica Paula Gaitán, homenageada pelo evento. Mundialmente reconhecida pela sua transgressão às convenções da imagem, premiada pelas narrativas de tónus poético de “Uaka” (1988) e “Exilados do Vulcão” (2013), ela é uma ave rara entre os seus pares na América Latina por gravitar nas franjas entre as artes visuais espaciais, metafísicas e nas cartilhas do storytelling, sendo narrativa sem ser enfadonha.

Há cerca de um ano, a Berlinale foi ao delírio com uma das suas longas-metragens, “Luz Nos Trópicos”, encarado como uma das jóias do Fórum. Este e outros sete títulos dirigidos por ela, entre os quais “Diário de Sintra” (2007), sobre sua relação com Glauber Rocha (1939-1981), e o ainda inédito “Ostinato”, baseado nos feitos do músico e ator Arrigo Barnabé, vão estar na programação do evento brasileiro.  

Um dos curadores de Tiradentes, que segue até 30 de janeiro, o crítico Francis Vogner do Reis escreve um ensaio sobre a obra de Paula no site dessa maratona audiovisual, justificando o tributo à realizadora: “A Mostra Homenagem é a oportunidade de ver em conjunto os filmes dessa que é uma das nossas principais cineastas. De um cinema de exercício radical e intransigente da inquietação e beleza. (…) Um cinema político longe do cinema que se convencionou chamar de político. Dizer que Paula Gaitán é uma cineasta que faz um cinema político não é uma invenção curatorial de uma política conceitual e abstrata, meramente intelectual e formalista. As obras da diretora são gestos políticos reais, se considerarmos que as imagens – as imagens em geral – não estão pairando num mundo à parte, mas compõem com muita ênfase e consequências concretas o nosso mundo hoje. Há tantas (ou mais) imagens quanto há seres humanos. Não dá para separar mundo e cinema, realidade e imagem, fazer essa cisão (ou oposição) é declarar que a imagem é um mundo à parte. Isso não é só impossível hoje, mas é anacrónico e antipolítico”.


Na entrevista a seguir, ao C7nema, Paula transborda a sua imagética.

Qual é o papel plástico, poético e filosófico do Tempo nas tuas narrativas e de que forma ele pode ser moldado de maneiras diferentes no seu olhar sobre o documentário e a ficção?

A história da arte é perpassada pelo estudo do Tempo. Em “Luz nos Trópicos”, tem um fragmento do Claude Lévi-Strauss sobre isso.  É um trecho do livro “Tristes Trópicos”, que fala sobre a passagem do tempo. Tem outro momento do pajé Takumã Kamaiurá falando também sobre a passagem do tempo. São duas visões que têm pontos de confluência, assim como rios que fluem numa grande estepe em paralelo e que, às vezes, encontram-se e se entrecruzam. A primeira noção da passagem do tempo está na própria vida. A Terra gira e gira, passa da luz do dia à escuridão da noite e, novamente, vem a luz. É assim, sucessivamente. Acho o meu filme “Luz nos Trópicos” parte desse lugar de reflexão sobre o tempo. É um lugar que vem dos povos ameríndios até a novos momentos históricos, até este novo momento em que nos encontramos mais perto de um conceito do Paul Virilio, em que ele diz estarmos circunscritos à velocidade do tempo. Sinto que, no cinema, a perceção da velocidade vem da montagem, que é a coluna vertebral de cada filme. A montagem oferece essa possibilidade de pensar o tempo de diversas formas. É só assistir aos filmes do Dziga Vertov. É só assistir a Abel Gance na montagem rítmica. Ou então, ao contrário disso, assistir ao Slow Cinema. Eu já trabalhava esse conceito de cinema temporal expandido, com longos planos-sequência, sem saber que isso teria se tornado um estilo nestes últimos anos. Tanto que quando me convidaram, no Festival de Berlim, em 2020, para falar numa mesa sobre o Slow Cinema, nem sabia da existência desse estilo, que pode se tornar extremamente simplório e apenas um modismo se não existir, de facto, uma questão essencial e estruturante dentro de sua montagem, para deixar um plano se extenuar, por assim dizer. Para deixar um plano resistir à passagem do tempo. Por isso, nem sempre, planos prolongados obedecem a questões essenciais. Porém, dentro da minha experiência cinematográfica, com imagens em movimento, o que tem me interessado mais é justamente isso: entender o tempo das imagens, desde as mais fragmentadas, explodindo em partículas e criando uma nova temporalidade, em contraponto a imagens com tempos expandidos, prolongados.

Luz nos Trópicos , Bege Muniz

O que mais te provoca hoje na cadência das imagens?

Algo que tem me interessado muito ultimamente é o tempo das coisas, o tempo que existe no preparo do alimento, como no caso de um plano da (indígena) Kanu Kuikuro preparando um beiju, carregando a lenha para fazer o fogo onde ela vai preparar o beiju, colocar a farinha de mandioca, e, lentamente, preparar esse alimento, que é a base do alimento junto com o peixe no alto Xingu, do povo Kuikuro. Essa memória do tempo das coisas, que está sendo esquecida, é um registo. É o testemunho de uma História do Mundo que talvez esteja sendo esquecida e que faz parte de uma memória do corpo. Acho que o cinema interessa-me justamente por isso. Como materializar a partir de imagens essa memória do mundo? Apenas um recorte, um olhar específico que é o meu. Um olhar entre tantos, num mundo em que as imagens são cada vez mais velozes e passam inadvertidas e morrem rapidamente. As imagens desvanecem numa espécie de limbo cósmico imagético. Viram partículas num mundo do povoado de imagens, que sobrevoam o planeta, em HDs gigantes. Numa realidade onde as imagens não nos pertencem, há um mundo explodindo, das mais diversas formas, e estamos mergulhados nesse labirinto infinito, assim como mostrava “Zabriskie Point”, um filme premonitório, do Antonioni.

Glauber, Maria Gladys, Negro Leo e, agora, Artigo Barnabé são alguns dos multiartistas documentados por si, em filmes absolutamente diversos entre si, mas unidos por uma aparente pesquisa de texturas e por uma profunda inquietação diante da transdisciplinaridade.  O que Arrigo traz de encantador para esse coletivo de criadores, agora, com o seu novo trabalho, “Ostinato”, e de que maneira a música, matéria essencial dele, entra no campo de experiências sensoriais que te instigam?

Sempre me interessou essa interlocução com a obra de outros artistas, no sentido da aprendizagem, até por ter curiosidade sobre temas diversos, entendendo que uma obra ilumina a outra. As coisas e os interesses sempre vieram e me aconteceram de maneira muito curiosa. Não foram encontros programados nem premeditados. Foram encontros por acaso e muitos deles foram epicentricos, como o encontro com Glauber. Estava eu a morar na Colômbia, muito mais jovem do que ele. Por acaso, ele foi para a Colômbia, depois de estar no Chile com Darcy Ribeiro. O Darcy pediu para ele ir a Bogotá, pois dois cineastas colombianos estavam em circunstâncias difíceis. E Glauber foi ajudar esses cineastas em nome da solidariedade latino-americana. Nós conhecemos-nos na casa da minha melhor amiga, Maria Teresa Vieco. Estávamos estudando na universidade e o Glauber chegou com a mãe da Maria Tereza, uma famosa jornalista, que o procurou no aeroporto. Enfim, histórias assim são frequentes na vida. Momentos mágicos e importantes conduziram-me a estar com pessoas extraordinárias. E assim fui me interessando em materializar em imagens esses encontros. E ouvir essas pessoas e conhecer as suas obras. Assim aconteceu com Arrigo Barnabé, do qual sou fã. Sempre ouvi com muita admiração as composições do Arrigo e assisti os filmes que ele fez como ator. Depois de algumas décadas no Rio de Janeiro, tive a oportunidade de filmá-lo num show na Áudio Rebel. E é um material que está na montagem no filme musical “Noite”, que vai estar na Mostra de Tiradentes. E daí veio o convite para atuar em “Luz nos Trópicos”, no qual ele é um dos protagonistas. E depois fiz o projeto que se materializou em “Ostinato”, uma conversação entre nós muito espontânea, que também é, sobretudo, um filme sobre o processo criativo do Arrigo. Isso é de facto a parte mais importante, já que tenho me interessado muito pelo estudo do som e pela relação entre som e imagem. Parece óbvio, mas não é. Estudar o som e a sua relação com a imagem é algo muito mais complexo do que parece. Tenho feito alguns estudos e projetos cinematográficos sobre essa relação como em “Sutis Interferências com Arto Lindsay” ou “É Rocha e Rio, Negro Leo” e o documentário com a compositora e pioneira da música eletro acústica Eliane Radigue. Então esse documentário “Ostinato” faz parte dessa aproximação lenta – e onde ainda tenho muito o que aprender – do universo musical.

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