Ainda inédito em Portugal, mas já em cartaz no Brasil, mobilizando espectadores com a sua reflexão sobre uma tradição cultural ameaçada pelo progresso, “Viver Para Cantar” (“Huo zhe chang zhe”) foi umas das mais gratas surpresas da Quinzena dos Realizadores de Cannes, em 2019, com o seu olhar atento ao colorido da ópera. A trama aborda o dia a dia de uma família de artistas cujo teatro está ameaçado de demolição, o que empurra o grupo em busca de novos caminhos para o show não terminar. Eleito o melhor filme no Festival de Xangai, a produção marca a consagração de Johnny Ma, chinês formado no Canadá conhecido pelo poderoso “Old Stone” (exibido na Berlinale 2016), e que recentemente assinou uma curta na colectânea Homemade para a Netflix. Na entrevista a seguir, o cineasta, que filmou no Rio de Janeiro a curta “O Génio de Quintino” (2011), fala sobre o legado da China nas telas.
É bastante comum entre os filmes orientais, especialmente os chineses, que chegam a Portugal e ao Brasil, vermos uma estética guiada por realismo nas raias do documental. O seu belo filme sobre a ópera, porém, parece ir na direção oposta desta estética e apostar num aspecto onírico, mais livre. A minha pergunta, nesta reflexão, é: como é construída esta natureza poética do seu “Huo zhe chang zhe” (“Viver Para Cantar”) e de que forma é que a realidade que retrata reflete problemas concretos na China de hoje?
O estereótipo do neorrealismo ou ultrarrealismo quando se trata de cinema chinês deve-se, sobretudo, aos filmes da 6ª geração de cineastas chineses, como Jia Zhangke e Lou Ye. Embora esses filmes sejam realmente bem-sucedidos e importantes para a representação da mudança na China moderna, eles são copiados e reproduzidos por jovens cineastas que também esperam alcançar o mesmo sucesso internacional desses mestres. Diria que a natureza tonal e poética de “Viver para Cantar” vem, principalmente, das próprias personagens da vida real da trupe de ópera, mas também do meu próprio instinto de fazer um filme que era contra o estereótipo do que se espera de um filme chinês.
Ao falar da perda da tradição, devido à modernização, existem muitos comentários social, mas eu queria me manter fiel à natureza viva e lúdica da própria trupe. Eles não se preocupavam tanto com a política. Tudo o que lhes interessa é ter público suficiente para a sua atuação, para que tenham comida suficiente na mesa para sobreviver. É o que o título, “Viver para Cantar”, sugere. Por isso, no final, não queria que o filme se tornasse um recipiente para mim, como indivíduo, para expressar a minha própria mensagem política ou social. Era mais importante captar as verdadeiras emoções e sentimentos da trupe neste momento, para que eles pudessem um dia olhar para trás, nesta experiência, com carinho, quando toda a ópera talvez vier a se extinguir. Senti que se conseguisse captar isso honestamente em filme, então, em algum momento, esse seria o melhor comentário social que poderia fazer sobre o assunto.
Como foi o processo de dirigir o elenco na concepção das coreografias?
Eu sou um forasteiro na ópera chinesa. Aquele é um ofício geracional, com raízes profundas na história chinesa. Como cineasta empenhado em filmar essa forma de arte, confiei muito nos meus colaboradores e, principalmente, na trupe de ópera para esta parte do filme. Além disso, compreendi que um filme sobre ópera chinesa, no circuito internacional, é uma raridade. Por isso, tanto quanto os próprios personagens, a ópera em si vira uma personagem importante na minha narrativa. Por isso, procurei a orientação de alguns dos melhores artistas da ópera tradicional chinesa e contratei-as como consultores para a grande sequência de batalha encenada pela trupe. Para a cena da dança hip hop, trabalhei apenas a improvisação da própria trupe, na descoberta do que podem e se sentem confortáveis em fazer. Estamos a ter o melhor momento e também a fazer o melhor trabalho quando toda a gente é brincalhona.
Que China o seu cinema reflete? Como é que esta China de “Huo zhe chang zhe” dialoga com o legado dos grandes mestres do cinema chinês revelados nas últimas três décadas?
Nasci em Xangai, apesar de ter imigrado para o Canadá aos 10 anos de idade. Preocupo-me profundamente com as tradições do cinema chinês, e com os mestres que vieram antes de mim. Sou muito influenciado pelos grandes mestres chineses da 5ª e 6ª gerações. Mas também cresci no estrangeiro, onde tive experiências com os mestres do Ocidente. Procuro sempre prestar uma homenagem ao que me precedeu no cinema tradicional chinês, mas também tento fazer sentir a minha própria voz para ajudar a pavimentar o caminho do futuro. Já sinto que se vai haver uma nova geração de cineastas chineses que terá uma voz distinta, serão as gerações “haigui”. “Haigui” significa literalmente tartarugas marinhas. Esse é o termo para descrever os chineses que imigraram para o Ocidente, mas que agora regressam à China para trabalhar. Penso que estes serão o tipo de pessoas que terão algo novo e ousado dizer na China num futuro próximo, trazendo de volta tudo o que aprenderam no Ocidente, mas ainda capazes de prestar homenagem às tradições do cinema chinês do passado.
Como é que o Rio de Janeiro da curta “O Génio de Quintino” entra na sua trajetória como realizador?
Estou feliz por ter mencionado a curta-metragem “O Génio de Quintino”. Foi um filme estudantil que fiz em grupo com outros quatro cineastas. Vivemos todos juntos no bairro da Glória, no Rio de Janeiro, durante três meses, no verão de 2010. Foi uma bela experiência de criação e de investigação daquela cidade que resultou num filme rodado no subúrbio, em Quintino. Em muitos aspectos, “O Génio…” foi o início da minha descoberta da minha própria voz cinematográfica. Veio dali a compreensão do processo que gostaria de fazer nos meus filmes, embora não possa dizer que o produto final tenha sido completamente bem-sucedido na comunicação de tudo o que queria dizer emocionalmente. Mas, por vezes, é nessas obras imperfeitas que também aprendemos mais. Pode-se dizer, em “O Genio…”, que se pode observar um cineasta a aprender a fazer tudo o que eventualmente faz em “Viver Para Cantar” (“Hua Zhe Chang Zhe”). Considero o meu tempo no Rio de Janeiro como um dos melhores e mais felizes períodos de avanço criativo.

