Delphine Seyrig, feminismo e atualidade. À conversa com Nicole Fernández Ferrer

(Fotos: Divulgação)

Fevereiro 2019. Um pequeno filme, construído para o Canal Arte, estreia no Fórum da Berlinale. O seu nome é “Delphine et Carole, insoumuses”. A sua realizadora chama-se Callisto McNulty. 

Em setembro desse mesmo ano, a primeira entrevista do C7nema no Festival de San Sebastián foi com ela, Callisto McNulty, neta de Carole Roussopoulos, que nos explicou porque decidiu avançar com o projeto e como foi feito com recurso a vídeos recuperados e guardados pelo Centro Audiovisual Simone de Beauvoir, localizado em Paris. Ainda em 2019, o Doclisboa exibe o documentário na sua secção chave dos últimos anos, a Heartbeat, e pouco depois o Porto/Post/Doc exibe um trio de curtas filmadas nos anos 70 pela dupla Carole Roussopoulos & Delphine Seyrig. Agora, já em 2020, é a vez da Festa do Cinema Francês e a Cinemateca Portuguesa apresentarem uma (muito aguardada) retrospetiva em torno de Delphine Seyrig, ícone absoluto do cinema francês e da causa feminista.

O filme da Callisto McNulty trouxe uma nova luz ao trabalho de Delphine Seyrig, da Carole Roussopoulos e aos arquivos do Centro Simone de Beauvoir”, explicou-nos Nicole Fernández Ferrer, atual diretora geral do centro, em entrevista.

Presente em Lisboa para apresentar na Cinemateca Portuguesa o início do programa em torno da atriz, cantora, realizadora e ativista, Nicole Fernández Ferrer viajou connosco no tempo e falou-nos de vários temas, a começar pelo momento em que conheceu Delphine Seyrig e como começou a trabalhar com ela: “Conheci a Delphine Seyrig nas manifestações da década 70 em Paris e tive a oportunidade de trabalhar com ela no Centro Audiovisual Simone de Beauvoir a partir de 1982, logo após concluir os meus estudos em arquivos audiovisuais. Trabalhei com ela e lidei com o seu profissionalismo no trabalho, mas também com o seu sentido de humor. Não era alguém, como muitas vezes imaginamos, como as personagens que muitas vezes interpretou no cinema. Era alguém muito simples na vida. Já a tinha visto no teatro e gostava muito do seu trabalho de atriz. Da minha colaboração com ela ficou a imagem de uma mulher feminista, preocupada com os direitos humanos, muito aberta ao exterior.” 

Fundado em 1982 por Delphine, Carole e Ioana Wieder, o Centro Simone de Beauvoir tornou-se um ponto elementar de conservação e criação de documentos audiovisuais que pudessem ser identificados em relação à história das mulheres, dos seus direitos, lutas e criações: “Elas começaram a filmar os seus filmes no final dos anos 60, com uma câmara pequena inventada pela Sony. Conheceram-se num atelier de vídeo e criaram um grupo, filmando todas aquelas fitas. Foi na década de 80 que, com a chegada da esquerda ao poder, foram pedidos fundos para criar o Centro Simone de Beauvoir, que era um centro de arquivo feminista, uma ideia muito original para a época. Elas não queriam tanto conservar e arquivar, mas criar filmes e discutir os temas.

Porto/Post/Doc regressa sábado com as Identidades na cabeça (e também no  coração) - C7nema

A luz apagou-se nos anos 90

Encerrado em 1993 por razões essencialmente financeiras, o Centro Simone de Beauvoir reabre em 2003, mas Delphine já tinha falecido em 1990, vítima de cancro. “Foi com o apoio da sua família e do seu filho que reunimos os seus arquivos e salvamos as obras da Delphine e Carol, que tinham sido conservadas pelo Centre National du Cinema. Elas estavam guardadas mas não circulavam de todo”, explica Nicole, extremamente satisfeita por agora não faltar circulação por todo o mundo desses mesmos trabalhos.

Temos imensos investigadores, homens e mulheres, jornalistas, militantes e programadores de festivais que se dirigem a nós à procura dessas imagens feitas entre os anos 70 e 90. Sobre a Delphine e a Carole, por exemplo, temos trabalho na difusão dos filmes, mas também na criação de ateliers (workshops) nas universidades e escolas artísticas. É algo que atrai e é muito apreciado pelos jovens. Por exemplo, quando mostramos os filmes a adolescentes de 14, 15 anos e lhes damos o contexto, isso interessa-os muito”, diz-nos Nicole, acentuando nas suas palavras a força de um nova tarefa que o Centro Simone de Beauvoir veio a assumir ao longo dos anos: o da educação da imagem e do combate aos estereótipos ligados às representações de género no setor audiovisual: “Há uma grande circulação dos filmes e um grande interesse dos jovens pelos arquivos. Neste momento estou no centro de França e acabamos de mostrar os “Sois belle et tais-toi” da  Delphine, e o “Delphine & Carole” da Callisto McNulty. Estavam presentes muitos jovens do liceu e adoraram os filmes (…)  Além de Portugal, e graças às exposições (norte de França e Madrid), ao filme da Callisto e ao trabalho do Centro Simone de Beauvoir ao longo destes anos, a Delphine Seyrig ganhou uma nova atualidade, e por isso estou muito contente por ter muita procura sobre o material dela, seja do Brasil, dos EUA, em Inglaterra, ou na Bélgica, onde também foi feita uma retrospetiva. Estamos muito orgulhosos de ter muito trabalho em torno da Delphine”. 

Homenagem a Delphine Seyrig na Cinemateca

“Na cinemateca poderão ser vistos filmes que ora a Delphine, ora a Carole ou a  Ioana Wieder fizeram, já que eram todas do mesmo grupo, e isso vai dauma boa ideia do seu trabalho e o seu engajamento em causas, como vemos em “Femmes au Vietnam”, ou no abordar o caso de uma mulher torturada no Brasil (Inês), ou das prostitutas (Les prostituées de Lyon parlent). Veremos também o seu sentido de humor em “Maso et Miso vont en bateau”, em que desconstroem uma emissão de televisão, e o “Sois belle et tais-toi”, que continua a ser um filme super importante para a história das atrizes que poderiam ter carreira em Hollywood mas ficaram no cinema europeu. Depois temos filmes de Truffaut, Karmitz, Resnais, mas também de realizadoras como Chantal Akerman, Marguerite Duras, vão dar ao público português uma boa ideia do seu trabalho.” 

Nicole falou-nos ainda de “Les Trois Portugaises”, ou “As Três Marias”, trabalho realizado por Seyrig que naturalmente ganha um novo relevo na sua exibição em Portugal. “ “Les Trois Portugaises, que foi feito em 1974, faz referência a Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, que escreveram as Novas Cartas Portuguesas, numa referência a um texto do século XVII, e foram acusadas de atentado aos bons costumes portugueses. Quando a Delphine e outras mulheres souberam isso em França, decidiram fazer uma leitura dessas cartas e fazer um espetáculo para apoiar essas mulheres que foram vítimas do estado, da justiça portuguesa. A Delphine era alguém que amava muito a literatura e este pequeno filme relembra-nos essa ação que permitiu apoiar essas mulheres em Portugal. É nisto que vemos que o feminismo é transnacional, e a luta era transnacional para a Delphine e para a Carole.

Feminismo moderno e a “velha guarda”

Já tínhamos feito a pergunta a Callisto McNulty e voltamos agora a fazer – num jeito um pouco provocador – a Nicole Ferrer. Existem pontos de vista diferentes e de conflito entre as feministas atuais e as dos anos 70? Obviamente que por trás desta questão está o célebre texto assinado por Catherine Deneuve, e uma série de outras mulheres, onde se defendia o “direito de importunar” aos homens. A mesma Deneuve que foi um dos grandes nomes (pilares) do meio artístico que em 1971 subscreveu o chamado “manifesto das 343 vadias em prol do direito ao aborto, num texto com a autoria de Simone de Beauvoir.

Manifestação a favor da interrupção voluntária da gravidez

Podíamos falar disto por horas, mas vou tentar resumir”, responde Nicole à nossa questão/provocação, assumindo que globalmente existem diferenças entre a geração mais velha e a mais nova, mas que predominam as “convergências e semelhanças”: “Na geração mais nova encontramos a mesma forma de reclamar pela liberdade do nosso corpo, e juntamente com os avanços que entretanto surgiram ao que existia nos anos 70, notavelmente são muito fortes no que diz respeito à luta contra a violência contra as mulheres. Eles criaram o movimento #MeToo, por exemplo”.

Sobre o caso específico de Deneuve, Nicole responde: A Catherine Deneuve foi um pouco anedótica. Eu adoro-a, mas acho que se equivocou quando escreveu aquele texto, que era muito violento. Creio que ela não compreendeu o quão violento era o seu texto justamente para as pessoas que tinham sofrido violência, agressões sexuais, etc. Depois pediu desculpa a essas mulheres que magoou, mas creio que quem subscreveu a carta está completamente desfasado da geração atual e mesmo até da minha geração, porque eu – por exemplo – também não penso como ela. Creio que foi um erro, uma decisão individual. Essas mulheres falaram em nome de outras mulheres e o que disseram foi algo muito individual, uma forma muito egoísta de ver o mundo.” 

Academia dos Césares e o futuro

Outro dos temas quentes em França este ano foi a renúncia, ainda antes da entrega dos Césares, da direção da Academia liderada por Alain Terzian. O ressurgir do “caso Polanski”, o escândalo na cerimónia de entrega dos prémios (a famosa “La Honte” de Adele Haenel), e a busca por uma maior representatividade na Academia de Cinema Francês levou a diversas mudanças, que deixam Nicole Ferrer agradada: “Há uma nova direção com um homem e uma mulher, e creio que vamos ver mudanças também nos vários ramos da Academia. Já antes da situação criada pela Adele Haenel, outra pessoa tinha protestado, mas não foi um caso tão mediático. (…) As coisas não podiam continuar como estavam. Acredito que as pessoas que fazem parte da Academia querem as mudanças e creio que elas vão avançar.

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