Depois de permanecer uma semana em pré-estreia, com sessões num número restrito de salas brasileiras, Feito Pipa chega esta quinta-feira ao circuito oficial, contando com o carisma e o espírito de mobilização do baiano Lázaro Ramos, militante das causas antirracistas, para abrir caminho a esta longa-metragem revelada ao mundo em fevereiro, na Berlinale. Saiu de lá com o Urso de Cristal. Contabiliza ao todo 14 prémios e uma menção honrosa, o que inclui a vitória na 55.ª edição do Molodist Kyiv International Film Festival, na Ucrânia. Venceu em terras ucranianas sob a justificação de “destacar o difícil processo de crescimento, na relação entre pai e filho, com uma interpretação extraordinária”. A referência envolve o jovem Yuri Gomes, a veterana Teca Pereira e o também cineasta, escritor e ativista Lázaro Ramos.
“Eu acho que o Feito Pipa representa, junto com os outros trabalhos que fiz, não apenas uma mudança no perfil das personagens e nos desafios da carreira, mas também — para usar um termo da minha época de juventude — um rebobinar da fita autoral do Brasil. Há um tom, uma forma de contar a história a partir de temas muito falados por nós, mas com outra estratégia narrativa”, avalia Ramos, chamado de Lazinho na sua terra e prestigiado não apenas como ator, mas também como realizador, pelo seu trabalho premiado na distopia de tom decolonial Medida Provisória (2021).
A conquista ucraniana de Feito Pipa surgiu na sequência da sua consagração com o prémio do público na Mostra de São Paulo, conquistado há uma semana, no mesmo dia em que a sua tocante narrativa serviu de atração inaugural do regresso às sessões regulares do Cine Odeon, no centro do Rio de Janeiro. Com raízes em Quixadá, esta dramédia é lançada com a chancela política de ser a representante do Brasil na corrida a uma nomeação para o Óscar, em 2027. Com a doçura típica das atrações da Sessão da Tarde, programa de cinema popular da televisão brasileira desde a década de 1970, e a coragem de lidar com temas espinhosos de uma sociedade homofóbica, sexista e impaciente com as populações idosas, a produção foi escolhida a 16 de setembro para trilhar um caminho até Hollywood. Allan Deberton é o seu realizador e era já conhecido pelo multipremiado Pacarrete (2019). Agora, leva esta trama queer pelo mundo numa mobilização para tocar o coração da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. No mercado internacional, as vendas têm sido conduzidas pela M-Appeal, com acordos de distribuição na Dinamarca, Bélgica, Indonésia, Países Baixos, Espanha, Argentina e Colômbia.
“O Feito Pipa tem uma simplicidade — ou uma grandiosidade simples, como tenho dito muito — que me interessa bastante no cinema nacional: mostrar personagens com as quais nos identificamos e pelas quais nos interessamos”, explica Lázaro que, antes da pandemia, ao assistir a Pacarrete, procurou Deberton, interessado em filmar sob a batuta do cineasta. “Para mim, o filme recupera um pouco algo que vivi no início da minha carreira no cinema: a possibilidade de pegar em personagens que, noutras mãos ou noutros tempos, seriam consideradas pequenas ou até risíveis e tratá-las com a grandiosidade que têm, dentro de uma história consistente.”
Coroada com o Kikito de Gramado pela sua interpretação nesta saga afetuosa de reencaixes, Teca Pereira, uma paulistana de 74 anos, presença nos palcos da maior metrópole do país desde a década de 1970, encara o êxito mundial de um filme repleto de pessoas negras como o marco de uma travessia decolonial. Encanta multidões com a sua interpretação de Dilma, a avó cheia de vida de Gugu, a personagem de Yuri.
É ela quem cuida de Gugu, um craque da bola de 11 anos, muito bom no futebol, orgulhoso da sua destreza e em paz com a sua orientação LGBTQIAPN+. A mãe morreu assassinada devido ao seu envolvimento na luta em torno de uma barragem. Essa morte é apenas um sussurro na trama, que investiga o tema habitualmente trabalhado na obra de Deberton — a aceitação — através da relação entre Gugu e o pai intolerante, o camionista Batista, interpretado por Lazinho, que já formou uma nova família num segundo casamento. Dilma ama Gugu, seja qual for a bandeira sob a qual ele esteja. Mas, ao dar sinais de que se está a esquecer de elementos cruciais do quotidiano, incluindo o próprio rapaz, terá de procurar um novo caminho. O mesmo vale para o Don Quixote mirim interpretado por Yuri. Na estética de Deberton, o seu Cavaleiro da Alegre Figura sonha com um Nordeste de tolerâncias.
“Há no Feito Pipa uma questão de autoria que considero fundamental. Continuo a tentar impulsionar a ideia de que não devemos fazer filmes para algoritmos, seguindo regras ou fórmulas, nem apenas para agradar a um público específico. Precisamos de conseguir ser autorais e, ao mesmo tempo, estabelecer uma comunicação com o público. Isso aconteceu algumas vezes ao longo da minha carreira, e é esse o cinema que procuro fazer e no qual tenho acreditado, seja qual for o género. É um pouco do que Jorge Furtado fez em todos os filmes em que tive a oportunidade de trabalhar, assim como Karim Aïnouz, Sérgio Machado e Marcelo Gomes, com quem também tive a oportunidade de fazer vários filmes”, explica Lázaro, distinguido em Gramado com o Kikito de Melhor Ator Secundário. “Procuro trabalhos que dialoguem com o nosso tempo e com os ouvidos que temos. É preciso também escutar o público. Acho que Feito Pipa responde a várias questões sobre como abordar, para o público de hoje, os temas tratados no filme.”

