Ainda existe uma oportunidade para descobrir Overman no Festival do Rio: a sátira de super-heróis de Tomás Portella volta ao ecrã no domingo, 11 de Outubro, às 16h30, no Estação Claro Rio 3. O seu protagonista, Caco Ciocler, está em estado de graça em cena. Um ano depois de ter reinado soberano na Première Brasil, em vários filmes, com destaque para A Vida de Cada Um, o ator e realizador vive aqui momentos dignos de Michael Keaton (como Batman ou como Birdman) numa comédia que funciona como se uma revista Mad tivesse ganho movimento.
Criado em 1998 pela artista gráfica Laerte Coutinho, uma das figuras fundamentais da banda desenhada brasileira, Overman nasceu como uma desconstrução do arquétipo do super-herói americano. Voa, tem força sobre-humana, usa um fato justo, capa e máscara, mas não dispõe de uma identidade secreta à qual possa regressar depois de salvar o mundo. Em vez de um Clark Kent ou de um Bruce Wayne, há apenas Overman, às voltas com os dilemas prosaicos da sobrevivência brasileira. A sua rigidez moral, assente numa divisão quase infantil entre o bem e o mal, colide constantemente com uma sociedade muito mais ambígua. Até os adversários concebidos por Laerte recusam qualquer solenidade de comic book: entre eles estão o Capitalista Imundo e o Maníaco Flatulento.
É justamente o colidir, entre a gramática das BDs (ou HQs, em solo sul-americano) e os maus augúrios do Brasil, que Portella procura transportar para a gramática fílmica. Realizador de Operações Especiais (2015) e Desculpe o Transtorno (2016), ele incorpora a estética das artes gráficas nos enquadramentos, apoiado pela direção de arte de Cláudio Amaral Peixoto. O resultado parece uma tira de Laerte que ganhou movimento, corpos e volume. É um cinema deliberadamente over, consciente de que disputar com Hollywood no território dos milhões gastos em efeitos visuais seria uma batalha perdida à partida.

Numa atuação esplendorosa, Caco Ciocler assume esse super-herói que provavelmente seria reprovado pelos Vingadores e conseguiria fazer Deadpool sentir vergonha. Nesta encarnação, Overman chega a ser convocado pelo governador do Rio para a Secretaria de Segurança Pública. Victor Lamoglia rouba as cenas como uma espécie de Robin comunista, enquanto Karina Ramil transforma a Mulher-Cachorro numa Mulher-Maravilha subtropical, cheia de graça e poder.
A inclusão de Overman no Festival do Rio celebra ainda a antropofagia que sempre foi essencial ao evento. Afinal, adaptar a Laerte significa aproximar-se de uma obra marcada pela transgressão, inclusive na trajectória pessoal de uma artista que fez da própria identidade trans outra frente de questionamento das convenções. Portella entrou nesse universo com uma preocupação inicial bastante simples: não ser odiado pela criadora. Eis aqui a sua reflexão, numa entrevista ao C7nema.
O seu cinema sempre teve uma relação muito viva com os códigos dos géneros: já passou pela ação, pela comédia popular, pela aventura, pela música e pelo desporto. Aqui entra simultaneamente na sátira e no cinema de super-heróis, mas existe sobretudo um signo gráfico muito forte. Como foi dialogar com a banda desenhada de Laerte como forma cinematográfica?
O meu primeiro estímulo era não ser odiado pela Laerte [risos]. Isso já te dá bastante força. Pensava: “Tenho de conseguir fazer alguma coisa que ela não odeie”. Estou a brincar, mas é verdade. Foi um grande estímulo manter a genética, o ADN dessa personagem. Ele é totalmente over. É o Overman. Tentámos trazer essa característica para a estética do filme e da personagem. Quando entramos num género como este, que o cinema americano tem tradição e dinheiro para fazer pelo lado do espectáculo, temos de encontrar outras armas para lutar. Se eu tentasse jogar com as mesmas armas de um filme de género americano, perderia por uma diferença gigantesca. Então procurámos uma estética que nos permitisse fazer o nosso filme, tanto nos efeitos como na própria ideia. Tudo nele é um pouco over.
Há, porém, um efeito especial vivo no centro disso tudo, que é Caco Ciocler. O que encontrou nele para fazer deste actor tão associado a papéis dramáticos o seu particular Christopher Reeve?
O Caco foi muito surpreendente. A ideia de fazer o filme com ele veio da Yafa [Brito, produtora]. A minha primeira reacção foi: “A sério, Yafa?”. Eu tinha aquela imagem do Caco como alguém muito sério, pensei que talvez ele se levasse demasiado a sério para fazer esta personagem. Fomos fazer um teste e ele foi maravilhoso. Atira-se às coisas sem medo. Depois fica a morrer de medo daquilo que fez [risos], mas, na hora, atira-se sem medo. É muito corajoso e entrega verdade a tudo, mesmo à galhofa. Eu conhecia-o sobretudo de filmes e personagens muito sérios. E o Overman não se pode levar a sério. Temos de o fazer a sério, mas não levá-lo a sério. O Caco encontrou ainda as nuances da depressão e da autoestima do Overman. Foi incrível vê-lo encontrar uma voz, uma postura, uma maneira de existir para a personagem.
Essa graça depende justamente do choque entre um super-herói construído a partir de uma moral quase binária e um país onde as coisas raramente se resolvem entre o Bem e o Mal. Como se transporta para o cinema esse Brasil imaginado por Laerte, onde um herói pode enfrentar tanto o Capitalista Imundo como o Maníaco Flatulento?
A força está justamente em não tentar tornar esse universo mais respeitável do que ele é. O Overman funciona porque está metido num mundo absurdo e, ao mesmo tempo, muito reconhecível. É uma personagem que carrega consigo os códigos do super-herói, mas está cercada por questões, contradições e figuras absolutamente brasileiras. Por isso era importante preservar esse ADN e aceitar o exagero. A estética, os efeitos, as personagens, tudo precisava pertencer ao mesmo universo. Não fazia sentido tentar transformar aquilo numa imitação do cinema americano. A nossa arma era assumir o que havia de particular, de brasileiro e de over naquele mundo.
Quem é Laerte para si e o que significa transformar em cinema uma obra de alguém que fez da transgressão artística, política e pessoal uma espécie de método permanente?
Laerte, para mim, é uma cartunista que não tem filtro e não tem medo de bater em todos os lados. Vês isso no próprio Overman dos quadradinhos e também no nosso filme. Bate em toda a gente, faz piadas com todos os espectros da política, com o machismo, com tudo. Basta olhar para os vilões que inventou: o Capitalista Imundo, o Passador de Trote… É uma pensadora contemporânea e está sempre à frente do seu tempo.

