Quatro anos depois de colecionar prémios entre Locarno e San Sebastián com Tengo sueños eléctricos, Valentina Maurel volta a encantar Donostia. Dínamo do cinema da Costa Rica, a realizadora regressa ao festival basco com Siempre soy tu animal materno, escolhido para abrir Horizontes Latinos depois de passar pela Un Certain Regard de Cannes, onde Marina de Tavira, Daniela Marín Navarro e Mariangel Villegas dividiram o Prémio de Melhor Atriz. Na nova colaboração entre Maurel e Marín, Elsa, de 28 anos (papel de Marín), regressa da Europa à América Latina e reencontra Amalia, a irmã mais nova, de 20, cada vez mais entregue a um percurso tão esotérico quanto existencial. Enquanto o pai, Nahuel, procura segurança numa sucessão de conquistas amorosas e a mãe, Isabel, se dedica à reedição dos poemas eróticos da juventude, Elsa hesita diante de um impasse: deverá tentar salvar uma irmã que se recusa a ser salva? É uma história de família que Maurel abre deliberadamente às contradições das mulheres, recusando o conforto de personagens femininas exemplares.
A primeira longa-metragem de Maurel, entretanto, reencontra o público brasileiro. Tengo sueños eléctricos será exibido nesta quarta-feira, às 18h30, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro (CCBB-RJ), na abertura da mostra “Soy Loco Por Ti, Centro América”. Premiada em Locarno em 2022, a obra valeu a Maurel o troféu de Melhor Realização, a Daniela Marín Navarro o de Melhor Interpretação Feminina e a Reinaldo Amien Gutiérrez o de Melhor Interpretação Masculina.
O que mudou na maneira de fazer cinema entre Tengo sueños eléctricos e Siempre soy tu animal materno ?

Valentina Maurel — Escrevi este filme mais depressa e quis soltar um pouco o argumento para explorar mais durante a rodagem. Por isso, tem uma forma mais aberta, menos linear. Nem sequer sabíamos exatamente como terminaria. Foi um processo mais experimental, em tempo real. Algumas personagens que acabaram por ganhar importância nem sequer estavam previstas dessa maneira. Foi uma aposta arriscada, mas eu tinha tido um bebé e comecei a ter medo de nunca conseguir fazer ou terminar o filme. Então fiz tudo num gesto mais rápido, sem ficar à espera de mais financiamento.
Elsa está muito distante da jovem de Tengo sueños eléctricos . O que foi possível transportar daquela experiência para esta?
Daniela Marín Navarro — Tinha pontos de comparação muito claros. Elsa é muito mais contida do que a personagem de Tengo sueños eléctricos. Utilizámos o mesmo método, essa ideia da pulsação do corpo para trabalhar a emoção, mas agora tudo acontecia mais internamente. A minha personagem é muito menos impulsiva. Não se tratava exatamente de trazer algo da outra, mas de pegar numa experiência que já tínhamos vivido e transformá-la para este novo trabalho. No início, até tive medo de que as duas pudessem parecer demasiado semelhantes, mas depois percebemos que isso era impossível, porque são personagens muito diferentes.
No primeiro filme havia uma jovem cuja construção estava fortemente ligada à figura paterna. Aqui parece existir uma emancipação do olhar sobre as mulheres. O que mudou?
Valentina Maurel — Interessava-me inicialmente escrever uma personagem de mãe, porque a mãe é uma personagem muito difícil na ficção. Rapidamente se transforma numa mãe-coragem, admirável e sacrificada, ou numa mãe-bruxa. Eu queria que esta mãe fosse tão complexa quanto qualquer outra personagem. Para mim, havia algo de feminista em representá-la não pelas suas virtudes, mas pela liberdade de poder ser contraditória, egoísta enquanto artista, disparatada. E queria a mesma liberdade para Elsa e para a irmã. Ter três mulheres num filme e permitir que elas resistam a um encerramento, à obrigação de serem admiráveis ou virtuosas, parece-me um desafio feminista.
Há neste filme uma enorme confiança na palavra. Como trabalhar diálogos tão precisos sem perder a espontaneidade?
Daniela Marín Navarro — Desta vez senti que a palavra atravessava todo o meu corpo. Disse isso à Valentina ainda durante a leitura do argumento. Havia um peso, um significado muito grande na forma como os diálogos estavam escritos. Por isso ficámos muito próximos do texto. As frases são exatas: se mudássemos uma palavra, podíamos perder parte da intensidade ou da intenção com que tinham sido escritas. Mas, pelo conhecimento que temos uma da outra e pela nossa forma de trabalhar, a palavra acaba por nascer naturalmente do corpo.
Sendo filha de poetas, como se chega a uma dramaturgia tão quotidiana, na qual uma conversa aparentemente banal pode esconder uma decisão decisiva?
Valentina Maurel — Tenho uma posição estranha porque sou filha de poetas, mas aquilo que conheço da poesia não é a poesia: são os poetas. São seres humanos prosaicos, que comentam a vida e falam das suas coisas. Em relação ao primeiro filme, quis talvez fazer uma obra menos “bem escrita”, para observar de uma maneira mais bruta e sem filtros o pulso do quotidiano. Interessa-me perceber como funcionam concretamente as dinâmicas de uma família. Numa conversa absolutamente banal pode decidir-se, por exemplo, que um familiar não deveria receber um diagnóstico psiquiátrico. Parece uma conversa comum, mas está a tomar-se uma decisão enorme. A vida tem nós dramáticos que acontecem dentro da banalidade.
O que uma personagem como Elsa deixa no corpo de uma atriz depois da rodagem?
Daniela Marín Navarro — Quando colocamos o nosso corpo numa personagem, levamos sempre alguma coisa daquilo que estamos a trabalhar para dentro de nós. O corpo transforma-se e nós também nos transformamos através daquilo que estamos a viver nessa outra realidade. Durante a rodagem, por exemplo, senti ansiedade verdadeira nas cenas de procura. Estava realmente preocupada com uma pessoa que eu sabia perfeitamente que estava segura em casa e que nem sequer filmava naquele dia. Mas estamos na pele da personagem. A ficção começa a atravessar a realidade.

Há uma cena em particular na qual essa fronteira entre realidade e ficção parece tornar-se muito ténue. Isso também aconteceu durante a rodagem?
Valentina Maurel — Sim. Há uma personagem interpretada por um jovem chamado Harold e surgiu uma química muito forte. Ele trazia elementos da própria vida e, de repente, senti que o olhar da personagem e o meu olhar sobre o filme se confundiam. Ela sente uma enorme empatia por ele, mas sabe que não está apaixonada e que tem um namorado noutro lugar. E eu também estava ali com um filme financiado na Europa, a rodar na Costa Rica, diante de um jovem ator que me oferecia um momento da sua vida. Depois nós acabaríamos a rodagem e iríamos embora, enquanto ele ficaria com a vida dele. Isso diz alguma coisa sobre ser latino-americano depois de passar pela Europa, sobre pertencer à classe média num país marcado por grandes desigualdades económicas e também sobre ser mulher nessa posição.
Quatro anos depois, o que Tengo sueños eléctricos mudou de maneira mais profunda na vida de quem o fez?
Daniela Marín Navarro — Tengo sueños eléctricos ensinou-me que atirar-se para um abismo pode trazer benefícios pessoais. Não estou a falar da profissão ou da carreira. Arriscámo-nos daquela maneira sem sequer sabermos bem que se fazia cinema na Costa Rica. Para mim, foi descobrir que podemos abrir-nos a horizontes que desconhecemos, lançando-nos num abismo cujo fim não conseguimos ver. E aquilo que ele acaba por trazer de mais importante são as pessoas que encontramos pelo caminho — e a perceção de que o cinema não é tão importante quanto a vida.
Os vossos filmes acabaram por colocar a Costa Rica num mapa cinematográfico internacional muito mais amplo. É confortável carregar essa espécie de representação do país?
Valentina Maurel — É muito duro ser embaixadora de um país fazendo filmes como os meus, porque eles desmistificam a imagem que a Costa Rica procura projetar de si própria: a ideia de uma excecionalidade branca, de uma “Suíça centro-americana” sem problemas, tropical, exótica e turística. É difícil representar um país que não quer necessariamente ser representado dessa maneira. E isso acontece num momento em que também existem cortes no orçamento da cultura que ameaçam as condições para existir um cinema nacional. Mas é justamente por isso que quero continuar a fazer cinema desta forma. Contar o mundo a partir da própria subjetividade é um luxo que não pode pertencer apenas aos países do Norte.
A 74.ª edição do Festival de San Sebastián termina no dia 26 de setembro com a entrega de prémios.

