Mario Martone resgata Goliarda Sapienza em “Fuori”: “Era uma grande escritora que não foi reconhecida em vida”

Fuori é exibido na Festa do Cinema Italiano e estreia nas salas comerciais a 16 de abril

Maio de 2024: Valeria Golino — vencedora de duas distinções no Festival de Veneza como Melhor Atriz, por Storia d’amore (1986) e Per amor vostro (2015) — apresenta em Cannes a série A Arte da Alegria, um projeto baseado na obra icónica da escritora Goliarda Sapienza. Ao C7nema, numa entrevista no Palais des Festivals, a atriz e realizadora admitia, entre risos: “Brevemente vou fazer um novo filme com o Mario Martone. Vamos filmar dentro de duas semanas e interpreto o papel da Goliarda Sapienza”.

Maio de 2025: novamente em Cannes, Mario Martone — realizador de filmes como L’amore molesto (1995), Qui rido io (2021) e Nostalgia (2022) — apresenta Fuori, o tal filme que Golino nos anunciara e que se centra em Goliarda, num período em que trabalha há dez anos naquela que viria a ser a sua obra-prima, mas cujo manuscrito é rejeitado por todas as editoras. Desesperada, ela comete um roubo que destrói a sua reputação e posição social. Reclusa na maior prisão feminina de Itália, cruza-se com ladras, toxicodependentes, prostitutas e ativistas políticas. Após a libertação, continua a encontrar-se com estas mulheres, desenvolvendo uma relação que lhe devolve o desejo de viver e escrever.

Mario Martone e Valeria Golino

“Ao mesmo tempo que imaginava um filme sobre Goliarda Sapienza com a Valeria Golino no protagonismo, a Valeria Golino imaginava fazer a série A Arte da Alegria, explicou Martone ao C7nema, numa conversa com os jornalistas na Croisette. “Aquilo que pode parecer um projeto coordenado, na verdade foi um cruzamento totalmente casual. Mais do que casual, foi mágico — uma afinidade, um desejo comum”.

Explicando que poucas atrizes têm a capacidade de transformar o olhar em ação cinematográfica, num elogio direto a Golino , Martone sublinha que o que fez foi “um retrato” e não uma biografia, centrando-se em mostrar uma escritora entre as suas criaturas. “As detidas nasceram de pessoas reais, mas tornaram-se personagens literárias. É como vê-la no meio das suas próprias criações”, afirma, acrescentando que a intenção nunca foi “contar toda a história de Goliarda Sapienza”, mas antes captar “o olhar de uma escritora”. Esse olhar, acrescenta, é o verdadeiro motor do filme: “Contar a história de uma escritora é contar o seu olhar, o seu roubar a vida através do olhar”.

Fuori

Essa opção reflete-se também na construção da própria personagem, que surge muitas vezes numa posição aparentemente passiva. “A posição de Goliarda pode parecer passiva, mas ela observa”, diz Martone. “É através desse olhar que depois consegue escrever”. Não por acaso, o arco dramático da personagem passa precisamente por um bloqueio criativo inicial: “No início, ela tenta escrever e não consegue. Só no final volta a escrever”.

Admitindo que muitos escritores da geração de Goliarda perderam relevância ao longo do tempo, Martone sublinha que a voz da autora continua a chegar às novas gerações: “Porque era livre. O tempo foi cruel em vida, mas tornou-se generoso depois”.

Nesse sentido, ao recuperar Goliarda Sapienza, Martone assume também um gesto político: “Era uma grande escritora que não foi reconhecida em vida”, lembra, apontando para um caso paradigmático de invisibilidade feminina na cultura italiana. “Goliarda foi ignorada, ridicularizada — ao contrário de Pasolini, que era ouvido. A diferença? Ele era homem”. E conclui: “Ainda hoje há desigualdade salarial, mulheres que deixam o trabalho por causa da família. Não é como nos anos 80, mas ainda há muito atraso. Esperamos que o olhar livre de Goliarda seja contagioso.”

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