“Não nos lembramos dos factos, lembramo-nos da última vez que os recordámos”: Carla Simón apresenta “Romaria”

A estreia nos cinemas portugueses está marcada para 2 de abril

Completando a sua trilogia entre a memória e a autobiografia, que inclui Verão 1993 e Alcarràs, a espanhola Carla Simón chega às nossas salas com Romaria, regressando aos cinemas já no dia 2 de abril, com os seus temas mais íntimos — perda, identidade e ausência parental — num retrato delicado do que permanece por dizer.

Sempre com um olhar de génese documental, com imagens gravadas em câmaras de vídeo da época que retrata, e mirando a paisagem galega com tanto de antropológico como de sociológico, Simón embarca numa história de busca de identidade na forma de uma jovem de 18 anos, Marina (Llúcia Garcia, a irradiar o ecrã), que parte para se encontrar com a família biológica.

Foi em Cannes, onde o filme estreou, que nos sentámos à mesa com a cineasta e descobrimos mais sobre esta produção, o seu interesse na memória, no fecho de um ciclo e no início de outro, que inclui um novo filme onde a música flamenca terá papel de destaque.

“Romaria”

O seu cinema tem um estilo muito próximo do documental, muito naturalista. Como constrói isso?

Gosto que os filmes tenham vida, que pareça que o que acontece em frente à câmara surge por acaso, mesmo sabendo que não é.

Para mim, isso vem sobretudo do trabalho com os atores. Neste filme, trabalhei com uma mistura de atores profissionais e não profissionais. Passámos muito tempo juntos a improvisar momentos que poderiam ter acontecido antes da história do filme.

Improvisámos cenas nos anos 2000, mas também nos anos 80, criando diferentes dinâmicas: às vezes eram um casal, outras vezes primos, irmãos… Era uma forma de construir memórias partilhadas entre eles.

Depois de meses de ensaios, quando chegamos às cenas do filme, já existe uma base emocional real. Eles estão mais soltos, conseguem improvisar e há uma dinâmica familiar que parece verdadeira. Durante as filmagens, procuro esses “erros felizes” — momentos inesperados que surgem desse trabalho prévio. Seguimos o argumento, mas deixo sempre espaço para variações.

Claro que a câmara tem de acompanhar isso. Neste filme, quis uma câmara mais distante e estilizada, mantendo ao mesmo tempo essa liberdade dos atores.

Na busca identitária de uma jovem, decidiu dar presença aos pais, em vez de os manter como um mistério. Por que optou por isso?

Porque percebi que queria fazer um filme sobre memória. A memória é algo muito complexo: não nos lembramos dos factos, lembramo-nos da última vez que os recordámos — e essas memórias mudam constantemente.

Quando comecei a perguntar à minha família, percebi que as versões nunca coincidiam — cada um é protagonista da sua própria história.

Como os meus pais morreram de SIDA e havia muito silêncio à volta disso, percebi que talvez tivesse de criar as minhas próprias memórias. E o cinema permite isso: criar imagens que nunca existiram.
Isso deu-me liberdade para contar a história deles à minha maneira.

O filme também aborda uma memória coletiva, marcada pela SIDA e pela heroína. Porque é importante — depois de Verão 1993, onde também toca nesse tema — revisitar esse período?

Porque foi uma geração muito marcada por isso. Depois da ditadura, houve um período de liberdade — a Movida, a música, a festa — mas também um lado sombrio: a entrada da heroína, sobretudo na Galiza, e depois a SIDA.

Muita gente morreu e, como existia um tabu, as famílias deixaram de falar sobre isso.

Há muitas histórias por esclarecer, de pessoas que não sabem exatamente o que aconteceu aos seus familiares. Acho importante recuperar essa memória, porque foi uma geração que mudou valores e abriu caminhos.

Pensando só no Festival de Cannes, temos vários filmes que nos remetem à SIDA e a esse período. Veja-se também o filme de Julia Ducournau, Alpha. O que leva esta nova geração a revisitar esses tempos?

Talvez a recente pandemia nos tenha levado a refletir mais sobre isso. Mas, apesar dos avanços médicos, a aceitação social ainda é problemática. E os mais jovens sabem pouco sobre a SIDA.

Não é uma tendência, mas um tema que regressa porque é complexo e marcou profundamente uma geração.

Romaria

A câmara dentro do filme, nas mãos da protagonista, tem um papel importante. Representa também o nascimento do seu olhar como cineasta?

Sim, de certa forma. Comecei a filmar aos 18 anos, quando recebi uma câmara e comecei a filmar a minha família.

Ao escrever o argumento, percebi que dar uma câmara à protagonista tornava a sua busca mais ativa.
Também ajuda a explorar os espaços — os lugares permanecem, as pessoas desaparecem. Filmar espaços é uma forma de se aproximar de quem já não está.

Como foi crescer nos anos 80?

Era criança, nasci em 1986. Mas os meus pais viveram intensamente esse período. Havia muitas formas de ser jovem nessa altura, dependendo do contexto. O meu pai vinha de Vigo, muito marcado pela música e pela Movida. A minha mãe é de Barcelona. Mas, dentro da mesma geração, havia visões completamente diferentes da vida.

A música e a dança têm um papel importante no filme. Porquê?

Porque a música era central nos anos 80. Quis incluir a dança como uma forma de liberdade, sobretudo nas partes imaginadas.

Também me inspirei numa lenda galega, a Santa Compaña — espíritos que não conseguem partir. Vi essa geração como algo semelhante: pessoas que não foram devidamente lembradas.

A natureza também é muito presente no seu cinema.

Sim, cresci no campo, por isso tenho uma ligação forte. Neste filme, o mar é quase um espaço místico, onde os meus pais viveram parte da sua história. Aliás, as localizações foram fundamentais: comecei por filmar e fotografar lugares, e só depois escrevi o argumento.

Os golfinhos estavam previstos no argumento?

Sim, mas tivemos sorte. No último dia de filmagens, apareceram de verdade. Foi especial, porque tínhamos perdido um drone no mar nesse dia e a equipa estava desanimada. Quando surgiram, foi quase mágico.

Os seus filmes são muito autobiográficos. São uma forma de deixar memória para os seus filhos?

Sim, acho que sim. Tenho muito poucos registos dos meus pais — um vídeo da minha mãe, quase nada do meu pai. Gostava de ter mais. Então penso que, pelo menos, os meus filhos terão isto — mesmo sendo uma mistura de memória e ficção.

Ainda escreve diários?

Escrevia quando era adolescente. Agora filmo mais do que escrevo. Curiosamente, o “diário” do filme são, na verdade, cartas que a minha mãe escreveu a amigos. Foram dadas a mim e são talvez a memória mais preciosa que tenho dela.

Esta história tem muito de pessoal. Pensou nisso em termos de ética e se deveria contá-la?

Pensei muito nisso. Acho que depende de como se conta: com respeito e empatia. A minha família não me contactou diretamente sobre o filme, talvez por causa da dor associada à história. Mas compreendo isso.

Tento sempre retratar a complexidade das relações.

Como reagiu a sua família ao ver o filme?

Em geral, bem. O meu tio esteve na estreia e fiquei muito nervosa com a reação dele — mas correu bem.
Trabalho muito próximo da minha família: o meu irmão fez a música, a minha irmã ajudou com os atores, a minha mãe adotiva dá feedback aos guiões.

Vai continuar a explorar estas memórias nos próximos filmes?

Sinto que estou a fechar um ciclo. Talvez não por acaso, coincidiu com o nascimento do meu filho.
Agora estou a trabalhar num projeto diferente, um musical flamenco.

Acha que o passado era mais misterioso do que hoje?

Sim, era mais difícil de aceder. Hoje temos vídeos de tudo, o que vai mudar a forma como nos lembramos.
Mas a memória continuará a ser pouco fiável — só que agora será influenciada pelas imagens que temos.

Sente alguma nostalgia desse tempo?

Sim. Há algo na forma como os meus pais viveram — mais livre, menos controlada — que me atrai. Hoje estamos sempre ligados, sempre ocupados.

Lembro-me de um apagão recente em Espanha: de repente não havia nada para fazer… e senti-me bem, como se tivesse espaço para pensar.

Pergunto-me quantas coisas estamos a perder por causa disso.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/wdtw