Vencedora do Prémio do Público no Festival Internacional de Cinema de Animação de Annecy e nomeada ao Oscar de Melhor Filme de Animação, A Pequena Amélie chega finalmente às salas de cinema nacionais.
Trabalhado em 2D, no filme, que também passou pelo Festival de Cannes, acompanhamos Amélie, uma menina belga a viver no Japão pós-guerra, que descobre o mundo ao lado da sua ama, Nishio-san. No seu terceiro aniversário, um acontecimento decisivo rompe a sua inocência e marca o início de uma nova forma de compreender a vida.
Realizado por Maïlys Vallade e Liane-Cho Han, o filme resulta de um trabalho conjunto de escrita entre ambos, com a argumentista Aude Py, a partir do livro escrito por Amélie Nothomb. Estivemos à conversa com a dupla sobre o processo de adaptação, as escolhas visuais e os desafios de contar uma história simultaneamente dirigida a crianças e adultos.
Temos uma nova Amélie no panorama do cinema francês. Depois da Amélie Poulain, temos a Pequena Amélie. Como surgiu a ideia de adaptar o livro da Amélie Nothomb?

Liane-Cho Han: Dei o livro à Maïlys, quando estávamos a começar o Calamity. Estávamos em pleno storyboard. Isto foi há 7 anos, mas eu li-o quando tinha 19 anos, ou seja, há muito tempo, numa altura em que não era nada ligado à literatura. Nessa época estava mais virado para a cultura popular, como a animação japonesa. Porém, fiquei profundamente emocionado, tocado por esta pequena história. Esta pequena menina de dois anos e meio. Belga, neo-japonesa.
Tinha ideias ingénuas na altura em que Amélie, em vez de andar sobre a água, na sequência da praia, como Jesus, deveria abrir o mar ao meio como Moisés. E de facto era um sonho. Anos passaram, experiência na profissão, e claro, o meu encontro com a Maëlys, já em O Principezinho de Mark Osborne. Éramos os dois storyboarders, muito juniores, mas sentimos uma conexão imediatamente porque tínhamos a mesma sensibilidade e vontade de estar próximos das personagens, do seu ponto de vista, de sentir as emoções a esse nível. Depois, claro, a nossa colaboração com Rémi Chayé, isso também. Sim, isso foi determinante.

Maïlys Vallade: Por trás de nós há também tudo aquilo a que chamamos a família gráfica, todas as pessoas com quem trabalhamos há anos. E também o Eddine Noël, que é diretor artístico, co-argumentista também, construiu toda a narrativa connosco. Portanto há realmente uma força de fundo construída ao longo de anos de trabalho.
Eu não tinha lido o livro da Amélie Nothomb antes, admito. E quando ele me ofereceu o livro, também me agarrou completamente. Adoro tudo o que fale das bases da identidade e da relação intercultural neste contexto difícil do pós-Segunda Guerra Mundial.
A verdade é que tínhamos mesmo a vontade de fazer filmes que não fossem necessariamente fáceis de contar, mas que falassem aos adultos e às crianças ao mesmo tempo. Não é evidente trabalhar isso. Foi o maior desafio que tivemos: adaptar este relato para dois níveis de leitura. E também não tratar as crianças como pequenas pessoas a quem não se pode dizer certas coisas. Tentar puxar o tema para abordar questões importantes, dar-lhes chaves positivas para o futuro.
E como trabalharam essa dupla leitura para adultos e crianças?
Mailys Vallade:: Este relato é muito universal, este olhar de criança extremamente singular sobre o mundo. Ela acha que é Deus, mas não um Deus criador, é um tubo através do qual tudo passa. É completamente paradoxal.
E isso é realmente muito interessante. Era absurdo como história e ao mesmo tempo absolutamente fascinante, porque em relação ao cinema, dar a ver um olhar — e este de uma criança pequena — que vai passar, como tu dizes muitas vezes, da transição da primeira infância para a infância, que é muito pouco trabalhada no cinema, era extremamente interessante. Um grande desafio também, o maior que já tivemos.
Liane-Cho Han: Há também um acontecimento emocional marcante. Tive o meu filho nessa altura, ainda bebé. E de facto o meu filho era um bebé muito difícil, muito temperamental. E aí percebi que não, na verdade não é só Amélie que se acha Deus, são todas as crianças que se acham deuses.
Mas claro, independentemente de quem somos, a Amélie é extremamente especial e singular, mas cada criança passa por isso.
Depois perceber que afinal fazemos parte com os outros, em relação com os outros. E esta transição extremamente difícil para as crianças, porque é um luto, um verdadeiro luto de um estatuto divino entre os dois e os três anos. Portanto é uma transição muito difícil.
E para mim, isso permitiu-me também compreender melhor o meu filho, o que ele atravessa, a dificuldade dessa passagem. Não é apenas um temperamento. É difícil perceber que há obstáculos, que não controlamos tudo.
Mailys Vallade: O relato também pode tocar as pessoas em geral. E é também um trabalho sobre aceitação. Para os adultos, a perda de controlo permanente que podemos ter. E lembrar sempre esse momento da primeira infância, que é o momento em que é preciso abrir-se ao mundo.
E dar chaves às crianças para aceitarem certas situações, lutos de etapas da vida, perdas.
E aceitar para um mundo mais positivo, para dizer sempre que apesar de tudo, apesar dos desafios, como a desilusão ou mesmo a morte, a vida vale a pena ser vivida. Porque no livro é o contrário. No fim do livro, depois dos três anos, não acontece mais nada. Como se a vida parasse. Queríamos dar uma mensagem positiva.
Como foi trabalhar com a Amélie Nothomb no processo de adaptação?
Mailys Vallade: Ela não interferiu. Disse que os seus livros são os seus filhos e as adaptações são os seus netos — e que não interfere na educação dos netos.
Foi incrível. Já tínhamos feito outras adaptações, e trabalhar com autores pode ser complicado, porque conhecem demasiado bem a obra. Aqui tivemos total liberdade para criar uma verdadeira adaptação com um ponto de vista cinematográfico. Foi muito generoso da sua parte.
E mudámos muita coisa: condensamos personagens, criámos elementos novos.
Por que escolheram filmar em 2D este filme?
Mailys Vallade: Trabalhamos assim há anos. Já desde o fim dos estudos. Com Rémi Chayé, formámos uma equipa muito coesa.
Este método já estava muito afinado. Queríamos focar-nos mais no fundo — abordar temas mais poderosos do que nos filmes anteriores.
O estilo visual — sem contornos definidos — é essencial para nós. Trabalhamos com manchas de cor, com um lado impressionista. Permite jogar com a cor de forma narrativa, sem limitações. Um resultado com textura de giz, com vibração, algo vivo. Um lado ingénuo que acompanha o olhar da criança.
A ausência de contorno permite misturar a luz com a personagem, criando algo mais realista, mais sensorial, mais cinematográfico.
Gostamos de trabalhar com os enquadramentos próximos da imagem real.
Liane-Cho Han: Também temos uma abordagem mais “escultórica” do desenho — trabalhamos de dentro para fora. Sem contornos, há mais espaço para sugestão e imaginação. A luz penetra nas formas, criando algo mais vivo, mais real.
Há zonas sem detalhe — o olhar do espectador completa. É o poder da sugestão, da imaginação.
Como pensaram e representaram o Japão?
Mailys Vallade: Muito trabalho foi do nosso diretor artístico, Éddine Noël, que conhece muito bem o Japão: a companheira dele é japonesa. Ele fez um trabalho de documentação extremamente rigoroso. Estamos a falar do Japão do final dos anos 1960, e há poucos documentos. A casa original já não existe.
Estudámos tudo: a fauna, a flora, as estações do ano. Por exemplo, as cerejeiras já não dão cerejas — coisas assim que tivemos de corrigir.
Tudo foi pensado ao detalhe, até os peixes no mar. A casa também foi concebida com rigor arquitetónico. É quase uma personagem. Mas também é um Japão idealizado pela criança.
Liane-Cho Han: Quando apresentámos o filme no Japão, no Tokyo International Film Festival, os japoneses sentiram-se “em casa”. Isso é raríssimo.
Mailys Vallade: Também houve muito trabalho de cor. Os artistas foram estudar jardins japoneses reais, como o jardim Albert Kahn em Paris.
Há cenas intensas, como a do quase afogamento, Como as pensaram para não traumatizar as crianças?
Mailys Vallade: Foi a coisa mais difícil do filme. O trabalho de escrita foi massivo. Queríamos atingir adultos e crianças ao mesmo tempo, e cada um tem uma perceção diferente do que é violento.
Existe também o contexto da Segunda Guerra Mundial e a relação entre personagens japonesas que criámos.
Essas cenas — conflitos, discussões — foram as mais difíceis. Tivemos muitos debates com produtores e distribuidores.
Liane-Cho Han: Crescemos com animação japonesa, que trata temas muito maduros. E acreditamos que as crianças compreendem mais do que se pensa — apenas de forma diferente, mais emocional.
Por exemplo, não percebem a guerra historicamente, mas sentem a tensão de uma discussão.
E como lidaram com a questão da morte?
Mailys Vallade: Foi central. Criámos cenas novas, como a das lanternas, que nem está no livro. Queríamos dar ferramentas positivas às crianças para lidar com situações difíceis. As crianças querem saber. Querem compreender a morte. Não faz sentido escondê-la. O importante é encontrar a forma certa de falar disso.
Hoje em dia, mais do que nunca, é preciso dar-lhes ferramentas de empatia ecompreensão.
Liane-Cho Han: As crianças são mais inteligentes do que pensamos.






