Anthony Schatteman e “Young Hearts – O Primeiro Amor”: “Queria mesmo fazer um filme caloroso e reconfortante”

Apresentado na Berlinale de 2024, na secção Generation, Young Hearts (O Primeiro Amor, 2024) aborda com sensibilidade a descoberta dos primeiros sentimentos amorosos. Na estreia na realização de Anthony Schatteman, acompanhamos Elias, um rapaz de 14 anos que leva uma vida tranquila até à chegada de Alexander, o novo vizinho vindo de Bruxelas. A amizade entre ambos nasce de forma espontânea, mas para Elias rapidamente ganha outra dimensão. Confuso com o que sente e receoso do olhar e julgamento dos colegas, ele acaba por se afastar daquele que é o seu primeiro amor. Mas conseguirá fugir aos sentimentos?

Anthony Schatteman

“Queria mesmo fazer um filme caloroso, amoroso, reconfortante, que também pudesse ser visto por um público jovem”, afirmou Anthony Schatteman ao C7nema na Berlinale. “Foi muito importante para mim focar-me apenas no ponto de vista romântico e não na sexualidade ou em cenas sexuais. Na maioria dos filmes coming-of-age há sempre alguma cena sexual e quis evitar isso, para que uma criança de sete ou oito anos também pudesse ver o filme. Queria que fosse um filme familiar, para todos.”

Apontando como referências cinematográficas Mrs. Doubtfire (1993), My Girl (1991), com Macaulay Culkin, ou The Parent Trap (1998), com Lindsay Lohan, obras que descreve como pensadas para serem vistas em família, o realizador recorda que, na década de 1990, as viu com os pais, sublinhando que pretendia recuperar esse espírito, que considera ter-se perdido nos últimos anos. “Temos grandes filmes da Disney e muitos remakes, mas aquela história simples e calorosa sobre miúdos com quem nos podemos identificar era algo que eu queria tentar fazer”, explica, admitindo que há muito nele no protagonista, Elias: “Claro que o Elias também sou eu. Filmámos na aldeia onde cresci, na rua onde cresci, nos campos por onde ia para a escola. Foi muito nostálgico. Mas tive de perceber que o pai do filme não é o meu pai na vida real. Dei liberdade aos atores para construírem as personagens. Não queria fazer apenas um retrato do passado. Era importante deixar a realidade ir e confiar nos atores“.

Questionado sobre a visão optimista dos pais e das pessoas à volta de Elias na aceitação da situação, Schatteman reconhece que não foi fácil dizer aos seus pais que “era diferente”, mas que, ainda assim, queria fazer um filme feliz. “Talvez não seja a vida real, mas talvez, se as pessoas virem isto, possam começar a falar sobre estes temas, abrir-se com os filhos, ou os filhos com os pais. Queria fazer o filme que eu gostaria de ter visto quando era jovem.” Sobre esse otimismo, ele recorda ainda um momento marcante da sua vida, quando o filho de um amigo, com nove anos, lhe pediu um filme porque achava que gostava de um rapaz da turma. “Não encontrei nenhum exemplo adequado para mostrar a uma criança de nove anos”, diz, referindo que cresceu com Brokeback Mountain (2005) e que existe Call Me by Your Name (2017), mas que nesses casos “há sempre referências sexuais”. Foi então que pensou: “Não existe uma história de amor feliz entre dois rapazes sem drama ou sexo. Foi isso que quis fazer. (…) Aqueles dois rapazes representam juventude e liberdade”, não estando ainda suficientemente maduros para pensar em sexualidade. “O que vemos é apenas o primeiro amor. Embora no argumento os tivesse imaginado com 14 ou 15 anos, durante o casting percebeu o quão rapidamente mudam nessa fase, tornando essencial encontrar os atores certos para que o público os visse simplesmente como “dois miúdos queridos, numa história bonita.”

O Primeiro Amor

Afastando-se igualmente de um drama mais pesado, Anthony admite que quis focar-se “na luta interior de crescer” e sublinha que esta não é apenas a história de um rapaz que é homossexual: “É uma história sobre encontrar o nosso lugar no universo, encontrar o amor, encontrar a coragem para mostrar o amor que sentimos. Quando crescemos temos muitas perguntas. Achava que estava sozinho com as minhas dúvidas, mas quando falei com os meus pais e até com os meus avós percebi que todos tiveram momentos em que se sentiram outsiders. Era isso que queria mostrar, atravessando gerações.”

Já sobre o facto de se sofreu bullying na infância, o realizador admite que “houve situações, sim”, mas esclarece que não foi alvo de ataques por ser gay, mas sim por ser filho de um cantor conhecido na zona onde vivia. 

Young Hearts estreia em Portugal a 26 de fevereiro.

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