Portobello: Marco Bellocchio revisita o caso Enzo Tortora na HBO Max

Já está disponível na HBO Max a minissérie Portobello, uma nova incursão no universo das séries do veterano Marco Bellocchio, que depois de, em Esterno Notte (2022), revisitar o rapto e assassinato de Aldo Moro, em 1978, pelas Brigadas Vermelhas, volta agora o olhar para o caso que envolveu Enzo Tortora (1928–1988), apresentador de televisão italiano injustamente condenado, em 1985, por alegada pertença à Camorra. Absolvido de todas as acusações pelo Supremo Tribunal em 1987, Tortora nunca recuperou totalmente do impacto do processo e morreu no ano seguinte. Portobello retoma o nome do programa de variedades transmitido às sextas-feiras, entre 1977 e 1983, criado e apresentado por Tortora.

“Ele era um grande jornalista, um grande profissional, também autor de televisão”, afirmou o cineasta italiano ao C7nema no início de fevereiro. “Queria ser escritor, mas os intelectuais italianos reconheciam-lhe a celebridade, a fama, e ao mesmo tempo mantinham-no um pouco à distância. Era liberal. Escrevia em jornais, era extremamente ativo e, com a irmã e outro autor, inventou vários jogos e programas televisivos. Portobello tornou-se um sucesso absoluto, crescendo ao longo dos anos até atingir 28 milhões de telespectadores.”

Reconhecendo que o apresentador talvez não fosse particularmente simpático para uma certa esquerda à qual o próprio cineasta pertencia, Bellocchio recorda que, nos anos 70, tinha cerca de 40 anos — um momento da vida em que paixões pessoais, política, relações e descobertas se cruzam intensamente. “Os anos 70 ficaram muito no meu imaginário”, explica. “Há coisas que vivemos lateralmente, que parecem passar, mas depois regressam. Às vezes algo acontece e parece que já passou, mas reaparece anos mais tarde. No caso de Tortora, li um primeiro livro dele — uma coletânea das cartas que escreveu na prisão à companheira. Foi-me enviado por ela. Li-o, impressionou-me, mas deixei-o de lado. Depois de alguns anos voltou a mim, combinando-se com outras possibilidades que levaram à escrita do argumento. Foi semelhante ao Aldo Moro. No quadragésimo aniversário da sua morte, regressámos ao tema com Esterno Notte.”

Admitindo que as posições políticas de Tortora poderão ter tido um papel na sua detenção, Bellocchio cita Dostoievski e invoca também o peso do acaso, num contexto marcado pela paranoia da época: “Uma série infeliz de coincidências levou à prisão de Enzo Tortora. Depois, certamente, a sua posição isolada em relação às duas grandes ‘igrejas’ políticas italianas não o favoreceu. Além disso, ele atacou firmemente a Maçonaria, uma força obscura que ainda existe. Ele estava fora dos grandes poderes. Não fazia parte deles. Isso prejudicou-o gravemente. E na Maçonaria havia também membros da magistratura.”

O realizador explica ainda que, embora confie amplamente no diretor de fotografia para as decisões técnicas, houve uma intenção clara na escolha das lentes ao longo da série. No início, optou-se por objetivas mais longas para manter uma proximidade intensa com as personagens, sobretudo Tortora e a família, criando uma sensação de intimidade e envolvimento emocional. Já nas cenas do julgamento, filmadas na própria sala de audiências onde o processo decorreu e que se encontrava praticamente intacta, recorreram a grandes angulares e planos mais abertos, de forma a abarcar o espaço e a multiplicidade de intervenientes, sublinhando a dimensão pública e institucional do momento. No primeiro episódio, nas sequências do programa Portobello, a abordagem visual procurou recriar a estética televisiva da época, tanto ao nível das cores como dos enquadramentos, reforçando o contexto histórico.

Fabrizio Gifuni novamente ao serviço de Marco Bellochio

Depois de interpretar Aldo Moro em Esterno Notte (2022), Fabrizio Gifuni assume agora o papel de Enzo Tortora em Portobello, uma responsabilidade que o ator diz ter encarado com grande entusiasmo: “Amo este trabalho. É um trabalho belíssimo. Depois de mais de 30 anos, nunca me passou pela cabeça deixar de actuar. Tenho o mesmo entusiasmo do primeiro dia. O diálogo com Marco, que tenho tido a sorte de manter nos últimos dez anos de forma contínua, alimenta-se também de uma paixão comum. Somos de duas gerações diferentes, mas partilhamos uma atenção particular por aqueles vinte anos italianos, de 1969 — com a primeira grande chacina na Piazza Fontana, que marca o início do terrorismo e da estratégia da tensão — até 1989, com a queda do Muro de Berlim.”

Sublinhando que esses vinte anos precisam de ser compreendidos e estudados para se perceber o pesadelo em que Itália se precipitou, Gifuni esclarece que não é historiador, mas ator, e que, juntamente com o cineasta, procurou traduzir essa matéria histórica em corpos e imagens. “Essas paixões e esses interesses têm de ser traduzidos cinematograficamente e fisicamente”, conclui.

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