Ethan Hawke fala de “Blue Moon”:  “Uma boa narrativa encontra sempre caminho”

Passou um ano desde a consagração de Blue Moon (2025) na competição ao Urso de Ouro do Festival Internacional de Cinema de Berlim, e o seu astro maior, Ethan Hawke, regressou ao certame alemão em dupla função. Indicado ao Academy Awards pela interpretação devastadora do compositor Lorenz Hart, Hawke voltou a pisar Berlim com o faroeste The Weight (2026), centrado numa personagem presidiária em busca de ouro perdido na América dos anos 1930.

Na terça-feira, o tributo no Delphi Lux Theatre juntou a exibição de Blue Moon (2025) a uma conversa sobre o processo de construção de Lorenz. O filme, filmado por Richard Linklater, acompanha a derrocada íntima e artística da personagem letrista, confinada ao bar Sardi’s durante a noite de estreia de Oklahoma! (1943), o novo fenómeno do seu antigo parceiro Richard Rodgers, aqui interpretado por Andrew Scott. A 31 de março de 1943, Lorenz expõe, sem filtros, as suas fragilidades, afogadas em álcool e lucidez amarga.

No Brasil, o filme encontra-se disponível na Prime Video. Em Portugal, tem estreia nos cinemas a 26 de fevereiro.

A entrevista que se segue, organizada pela Golden Globe Foundation, contou com a participação do C7nema.

Porque é que o papel de Lorenz Hart é tão único em comparação com os seus projectos anteriores?

Há muitos factores que o tornam distinto. No primeiro dia de filmagem tive mais diálogo do que em vários anos de trabalho como ator. A linguagem é central. Além disso, o filme decorre praticamente em tempo real. Não é um objeto que se reconstrói na montagem. Não se reorganizam cenas. É como acender rastilhos sucessivos. Exige ensaio rigoroso e preparação obsessiva. E trabalhar com o Richard, apesar da longa parceria, nunca é repetição. Conhecer bem alguém cria outro tipo de desafio.

A sua interpretação em Blue Moon parece quase teatral. Em que foi diferente de outros papéis?

O cinema usa o diálogo como ferramenta; o teatro vive dele. O Linklater entende a palavra como acesso à vida interior. Já em Before Sunrise (1995) havia uma torrente verbal semelhante. Isso exige sintonia absoluta entre realizador, diretora de fotografia e atriz.

Como foi a preparação para Blue Moon?

O guião chegou-me há mais de dez anos. Encontrávamo-nos em Nova Iorque com o argumentista Robert Kaplow. Líamos em voz alta. O alvo era minúsculo: um filme frágil, sem margem para falhas. Ao longo de uma década, o texto foi sendo reescrito. Quando começámos a filmar, eu vivia com Lorenz há anos.

Na construção de Lorenz há um forte trabalho físico. Como criou essa personagem?

O risco era tornar tudo decorativo. Queríamos que o público se sentasse ao balcão com ela. Trabalhei respiração e movimento. O Larry movia-se de forma diferente de mim. O Richard repetia: “Vi-te a ti.” O objetivo era desaparecer dentro daquele corpo.

O filme aborda o medo da irrelevância artística. Como lida com isso?

As formas mudam. A excelência permanece. Penso muitas vezes no melhor tocador de bandolim do mundo confrontado com o aparecimento do Elvis. O público muda. A qualidade não.

O seu personagem poderia ser tratado com humor, mas o filme é compassivo. Concorda?

A câmara do Richard gosta de pessoas. Não é cínica. Em Boyhood (2014), senti isso pela primeira vez. Ele observa como um cientista afetivo.

Como aplica “carpe diem” à vida de Lorenz Hart?

Estar presente é vital. Mas Lorenz anestesia-se. Não vive o dia; foge dele.

A maquilhagem e o visual são muito expressivos. Como trabalhou esses detalhes?

Com o maquilhador David Atherton. O trabalho de uma atriz é hipnotizar. Cada detalhe conta. Foi escultura pura.

A musicalidade das canções influenciou os diálogos?

Pensámos o filme como uma canção de Rodgers & Hart. Estrutura e letra. Ritmo, leveza e melancolia. Passei meses a ouvir as suas composições.

A personagem sente que o mundo avança sem ela. Como enfrenta a obsolescência?

Todos sentimos a mortalidade das formas artísticas. O essencial é manter atenção ao que o público vê. Uma boa narrativa encontra sempre caminho. Cabe à comunidade artística preservar essa conversa.

O que fica de Blue Moon é a convicção de que o Cinema ainda pode ser um quarteto de cordas: íntimo, preciso, cortante. Num tempo de ruído industrializado, isso vale mais do que qualquer prémio.

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