“Os pioneiros também precisam de continuar a aprender e a crescer.” Peaches volta à luta e celebra a estreia de “Lições de Peaches”

2024 foi um ano improvavelmente generoso para ver Peaches no grande ecrã. Primeiro, Berlim recebeu Teaches of Peaches (Lições de Peaches). Meses depois, Veneza acolheu Peaches Goes Bananas (2024). Ambos passaram discretamente por festivais portugueses — Porto/Post/Doc e Doclisboa — mas agora Lições de Peaches chega finalmente às salas comerciais, a 18 de dezembro, pelas mãos da Zero em Comportamento. 

A espera compensou: o filme é uma descarga de energia, política e corpo — como a própria Peaches sempre foi, e condensa 25 anos de reinvenção em palco e fora dele. Arquivo pessoal, entrevistas e momentos íntimos da digressão de aniversário de Lições de Peaches foram trabalhados pelos realizadores Philipp Fussenegger e Judy Landkammer, que tinham um princípio simples: não fazer um filme de digressão, nem uma biografia clássica. Apostaram “numa narrativa paralela” capaz de mostrar a evolução da artista “sem cair na nostalgia”, e o método foi quase arqueológico: “Encontrávamos temas no arquivo, construíamos perguntas, revelavam-se novas peças do puzzle, e entrelaçávamos tudo — música, entrevistas, imagens — como clusters de temas.

O confronto com os anos 90 surge inevitavelmente em cena e, na Berlinale, Peaches disse ao C7nema : “Quando olhas para trás, vês toda a toxicidade que existia.” A sua criação nasceu precisamente dessa fricção: “Procurava responder às questões que tinha na cabeça… reagir aos standards da sociedade.”, resumindo a época de forma demolidora: “Vejam Woodstock 1999. O ambiente tóxico que lá se viveu.

Ser pioneira sem virar estátua

Antes de ter banda, equipa ou público fiel, Peaches viajava sozinha “com uma mala pequenina” e “torcia para que não a lixassem”. Uma câmara era “uma espécie de testemunha… e uma amiga”, resposta prática à solidão e motor para o arquivo vastíssimo que juntou — cerca de sete mil horas — que incluem filmagens em Super 8 onde já falava para a câmara como quem quebra a quarta parede. “Ela já começava a contar a própria narrativa ali”, dizem Philipp Fussenegger e Judy Landkammer.

Segundo a dupla, o trabalho de montagem foi uma aventura: listas intermináveis de temas, códigos de cores, palavras-chave. Entre eles, questões estruturais: queerness, feminismo, envelhecimento, até o cabelo. “Havia temas difíceis na digressão: transfobia, a proibição do aborto… assuntos pesados. Tentámos abordá-los de forma equilibrada. Mesmo sendo as Lições de Peaches (2024), não queríamos transformar o filme num sermão. A própria Peaches não faz isso — leva as mensagens com ela, mas não prega.

O regresso do conservadorismo

Quando se aborda a ascensão da direita na Europa, Peaches não hesita: “Crescem exponencialmente em todas as direções — sejam os direitos, seja a sua retirada.” Mas reconhece que, apesar de tudo, “existe uma nova linguagem para deixar as pessoas serem quem são”, algo impensável nos tempos das perguntas binárias – que define como “estúpidas” – como “é mulher?” ou “tem pila?”. Nas questões queer, ela recusa a busca de uma “normalização”, palavra que teme usar, mas apregoa a necessidade de uma maior “compreensão e sensibilidade”. “Não acho que devemos falar de conquistas do mundo não-binário. Acho que o essencial é a compreensão. Podia falar em normalizar o tópico, mas não quero usar esse termo. Compreender e ser sensível, é isso que falta.

E quando lhe perguntam se está pronta para lutar outra vez, dado o retrocesso de alguns direitos, ela responde com uma simplicidade quase brutal: “Que mais é que vou fazer?

Depois larga a frase que devia estar gravada em todas as paredes onde há música ou política: “Na revolução, tens de lembrar-te de sempre mostrar a alegria.” Essa alegria, para Peaches, não é decoração. É um método. É uma arma: “Fight The Fun Fight”.

O palco e o corpo como território de resistência

Continuando a fazer do palco o seu laboratório de invenção, Peaches fala disso com uma espécie de orgulho infantil: “Quando estou de pé a caminhar sobre as pessoas e a gritar, tenho 57 anos. Adoro isso.” Mas rejeita romantizar o cliché autodestrutivo do mundo da música: “A digressão é perigosa: podes viver numa bolha e cair em ciclos de álcool ou drogas. Tens de escolher.” E é pragmática no que toca a si: “Fico sem fôlego se beber antes — e isso importa para mim.

Presentemente, está fascinada com a energia de uma nova vaga: “O rap feminino hoje é hilariante, excitante, completamente destemido, e eu vivo para isso.” E recusa o pedestal que lhe atribuem: “Os pioneiros também precisam de continuar a aprender e a crescer.” Sobre o futuro, não inventa: “Vamos ver… vou fazer música nova.

Berlim, gentrificação e mudança

Berlim é parte essencial da sua história e continua a ser um importante barómetro da sua inquietação: “É um momento difícil para Berlim… um ponto de viragem.” Lembra que o impacto cultural da cidade nasceu de algo muito simples: “Ter rendas mesmo baratas torna tudo possível.” Agora, não sabe o que virá a seguir — nem para a cidade, nem para si. Só sabe que quer trabalhar no novo álbum e manter a circulação criativa.

Quando lhe perguntam o que significa ser parte da biografia de tantos artistas, Peaches desmonta qualquer aura heroic e recusa a santificação: “Ouvir música, ver cinema, ler, falar com pessoas.” O caminho é manter a inquietação constante. E sobre quem encontra nela um modelo, ela responde de forma quase pedagógica: “É só libertar a parte delas que já quer sair. Guiá-las para o caminho delas, não o meu.”É tudo isto que Lições de Peaches mostra: uma artista que nunca pediu para ser exemplo, mas que o é precisamente porque nunca deixou de se mover e provocar. E a partir de 18 de dezembro esse movimento chega aos ecrãs portugueses com a mesma intensidade que a cantora sempre teve em palco.

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