Kleber Mendonça Filho e a memória do Brasil em “O Agente Secreto”

Representante oficial do Brasil para a apreciação da Academia de Hollywood, na luta pelo Óscar, O Agente Secreto estreia na sua pátria natal e em Portugal nesta quinta-feira, e ganha um trampolim extra para catapultar a sua trajetória pelas salas lusas com o tributo à sua protagonista, Wagner Moura, no LEFFEST.

Bifurcado entre o thriller político e o drama familiar na relação entre a cientista batizada com o nome falso de Marcelo (papel de Wagner), a filha (uma miúda) e o sogro projecionista (Carlos Francisco), Kleber brinca com os géneros e mergulha nos anos 1970 com todo o seu amor (e obsessão) pelo Cinema, explanando uma época que reflete todos os traços da ditadura militar, o “coronelismo” e da dificuldade de gerir a identidade quando todos os olhos estão em cima de si. Identidade, resistência e memória, temas recorrentes na cinematografia do cineasta pernambucano, estão presentes nesta trama de pavimento paranoico. Surgem sempre numa conexão com a cinefilia de Kleber, num filme que até tem uma janela para o seu documentário Retratos Fantasma (2023).

Neste fim-de-semana, quatro curtas-metragens de Kleber estreiam na grelha brasileira da MUBI, plataforma digital dedicada a marcas autorais, nesta quinta-feira: Vinil Verde (2004), Eletrodoméstica (2005), Noite de Sexta, Manhã de Sábado (2007) e Recife Frio (2009). Estão lá todos os elementos que aquecem O Agente Secreto, que saiu de Cannes com os prémios do Júri Oficial de Melhor Realização e de Melhor Interpretação, distinção que valeu a Wagner. Na conversa a seguir, o cineasta leva o C7nema às veredas do seu Recife.

Wagner Moura recebe instruções de Kleber Mendonça Filho nos sets de “O Agente Secreto” – Crédito: Victor Jucá

Desde Aquarius (2016), o seu Cinema carrega explicitamente uma natureza de máquina do tempo, não apenas na utilização de arquivos, mas pela maneira como lida com o passado. De que forma esse seu procedimento de voltar no tempo se aplica à década de 1970 de O Agente Secreto?

O argumento de O Agente Secreto destravou para mim quando entrei na porção mais séria do trabalho de montagem da minha longa-metragem anterior, Retratos Fantasma (2023). Naquele filme, pesquisei o Recife dos anos 1950, 60 e 70. Esse trabalho foi essencial ainda que as duas produções sejam completamente diferentes entre si. Retratos Fantasma é um ensaio documental. O Agente Secreto é uma ficção, um thriller. Existe algo em comum, entretanto, na conexão com o passado… e com o futuro.

E qual o papel dos arquivos na dramaturgia de O Agente Secreto?

O arquivo pode ser um ponto de partida físico, mas o próprio filme pode ser um arquivo em si. Desenvolvi Retratos Fantasma (2023) com imagens de arquivo e, hoje, aquele filme já é ele próprio um arquivo.

O Agente Secreto foi o título escolhido para representar o Brasil na apreciação da Academia de Hollywood, meses depois de Ainda Estou Aqui (2025) ter vencido o Óscar. Como realizador e antigo crítico de Cinema, o que significa essa nomeação?

Essa é uma oportunidade que O Agente Secreto traz e eu, como autor do filme, devo estar do lado dele, a apoiá-lo e a trabalhar com ele. É um momento que envolve muito prestígio, promoção e dinheiro, mas no centro está uma obra de expressão artística. Às vezes surpreendo-me com certas previsões, sobretudo noutras categorias além da de Melhor Filme Internacional. Isso envolve muita conversa com a Neon, a distribuidora nos EUA.

Com fôlego para virar um blockbuster, O Agente Secreto chega também à Academia no momento em que Bolsonaro foi condenado e Trump ameaça a liberdade de expressão nos EUA. Como vê esse cenário global?

Como qualquer cidadão: com muita apreensão. Temos vários focos de tensão — Rússia, EUA, Gaza, Europa. Vários observadores americanos que viram O Agente Secreto disseram que o Brasil, neste momento, é uma reserva de alguma sanidade.

Escolheu como protagonista uma estrela de prestígio internacional que passou por uma fase artística anfíbia, ao assumir o posto de realizador ao lado da sua carreira como ator. Ao filmar Marighella (2019), Wagner Moura virou cineasta. O que esse artista plural lhe oferece?

O Wagner é um artista de delicadeza que se instalou no Recife por quase quatro meses ao longo das filmagens. Ficámos amigos nesse processo. Essa experiência dele como realizador via-se na compreensão que tinha do filme por dentro. Percebia isso pela forma como ele via a câmara.

Na narrativa, consegue trabalhar os códigos do thriller sem deixar de lado a discussão política, inclusive sobre a universidade pública. Qual é a raiz desse suspense?

O Cinema brasileiro sempre teve pudor quando tentou investir em géneros. Mas quando Hector Babenco fez Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia (1977)… um thriller… a recepção foi muito forte porque era um filme brasileiro, sujo, malvado, ágil. O Agente Secreto é extremamente brasileiro, mas também uma devolução a todos os filmes que me formaram. Penso em Babenco, em Nelson Pereira dos Santos, mas também em Brian De Palma, Robert Altman ou Vilmos Zsigmond.

No Festival de Cannes, em Maio, O Agente Secreto venceu quatro prémios. A sua aproximação inicial com aquele evento aconteceu através do seu trabalho como jornalista, como crítico, no Recife. O que significa olhar para aquele momento, sob uma nova vivência, agora como cineasta premiado pela Croisette?

Há 20 anos, estive na Quinzena com uma curta, Vinil Verde (2004). Antes, estive lá como parte da imprensa. Tinha acabado de fazer 30 anos. Foi a experiência perfeita naquele momento da vida em que fiz um investimento na cinefilia, em que recebia um salário para ver filmes. Realizei ali um sonho juvenil de ter um trabalho como crítico. Era 1999 quando cheguei lá e fui ver uma sessão das 8h30. O filme: The Straight Story (1999), de David Lynch. Na sequência, fui à conferência de imprensa dele… daquele artista que já fazia parte da minha vida fazia muito tempo, na minha condição de cinéfilo, de seu espectador. Ao perceber que estava na mesma sala que David Lynch, consegui formular que o Cinema estava dentro de mim. É você e o Cinema, é o Cinema e você.

Onde e como é que a leitura da Emilie Lesclaux, a sua produtora e também companheira, mais e melhor afeta, esculpe, revê e refaz os argumentos que escreve?

A Emilie é a primeira pessoa que lê e que reage a uma cena nova. Às vezes, fico sem saber se espero para mostrar as últimas 25 páginas de um argumento ou se quero que ela veja essa cena nova. As reações dela norteiam-me, estimulam-me e fazem-me querer continuar a escrever. Ela dá dicas muito maravilhosas e a reacção dela é importante. Depois dela, começo a abrir para alguns amigos, mas é a Emilie que me dá segurança para isso. E os amigos dão-me segurança para passar para outro estágio. Acho que escrevo um pouco sobre isso no meu texto de introdução. Emilie e os amigos são extremamente importantes para todo esse sistema, muito confuso, de escrever um argumento.

Fala-se muito em classe média e até em aristocracia no universo retratado nos seus filmes. Mas qual seria a ideia de classe social ou mesmo a ideia de povo que norteia as histórias revistas no seu livro?

Espero que sejam olhares observadores sobre como funciona a sociedade e entendo que ela é dividida em camadas de classe social. O Brasil lança mão o tempo todo dessas camadas para jogar com o Poder, para se organizar usando o Poder. É muito claro que o Poder vem de cima para baixo e que existe muita gente nas camadas inferiores que não quer deixar-se levar por esse Poder. Com isso, há uma fonte inesgotável de dramas, conflitos e histórias a serem contadas. Acho muito grave quando o jornalismo, o Cinema e a literatura brasileira não estão atentos a essa estrutura do Poder.

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