“O Último Suspiro” de Costa-Gavras é um grito de vida

Estreia a 6 de novembro

Aos 92 anos, o franco-grego Costa-Gavras continua a filmar com uma lucidez impressionante, como se constata no seu mais recente filme, O Último Suspiro (Le Dernier Souffle), que chega aos cinemas nacionais a 6 de novembro.

Cresci entre duas civilizações, duas formas de ser, e isso dá-me outra visão do mundo”, disse o nonagenário ao C7nema, numa entrevista em Paris, no início do ano. “Lembro-me de quando cheguei a Paris para estudar na Sorbonne — o funcionário chamou-me “Monsieur Gavras”. Foi a primeira vez que alguém me chamou “Senhor”. Senti-me respeitado”.

Realizador de filmes como Z – A Orgia do Poder (Z, 1969), Estado de Sítio (État de siège, 1972) e O Capital (Le Capital, 2012), Costa-Gravas parte desta vez do livro homónimo de Claude Grange e Régis Debray para abordar um tema tão íntimo quanto universal: a finitude.

O Último Suspiro acompanha, em particular, o filósofo Fabrice Toussaint (Denis Podalydès), confrontado com uma doença grave, que estabelece um diálogo com o médico de cuidados paliativos Augustin Masset (Kad Merad) sobre o fim da vida. Apoiando-se em diversos pensadores (Camus, Heidegger, Jankélévitch e Edgar Morin) e na relação de Manoel de Oliveira com o tempo e a velhice, o cineasta oferece uma obra que se afasta de uma das suas marcas autorais, o thriller, mas nunca da mensagem política.

O filme parte de uma grande reflexão sobre os cuidados paliativos e o respeito pelas pessoas em fim de vida. Aos 91 anos, disse que o fez para se libertar dos seus fantasmas e medos em relação à morte. Que fantasmas eram esses? O filme ajudou-o a libertar-se deles?

O medo é duplo. Por um lado, o medo pessoal — o medo de deixar de existir, de ver os outros continuarem enquanto nós já não estamos. É um medo egoísta, mas humano. Por outro lado, há o medo da forma como se morre. Podemos agonizar horas, dias, semanas, arrastados sem dignidade. E em França ainda não encontrámos uma solução justa, como na Suíça, na Bélgica ou nos Países Baixos. Foi por isso que escolhi este tema.

Mas também tocou-me o lado profundamente humano do assunto. Li muitos casos reais — histórias comoventes de pessoas e das suas famílias, que nem sempre aceitam a partida. Pensei também na minha própria família, e foi assim que decidi fazer o filme.

Costa-Gavras

O livro em que se baseou era quase documental. Como transformou esse material em cinema?

Sim, era quase um documentário. Tinha de encontrar a forma cinematográfica, porque o cinema tem regras próprias e o público tem expetativas. É preciso um fio narrativo, uma estrutura, personagens que evoluem. No livro havia um médico e um escritor; eu transformei o escritor num filósofo, porque no cinema, perante a morte, tendemos mais a filosofar do que a narrar. Essa foi a minha linha condutora.

Mas faltava algo essencial: o coração. Quis criar uma espécie de coro grego — como nas tragédias antigas — que acompanha e aceita a morte com serenidade, quase com alegria, para não transmitir tristeza a quem parte. Inspirou-me a minha infância na Grécia, quando, nas aldeias, as pessoas se reuniam à volta do corpo, choravam, mas também riam, contavam histórias e partilhavam a vida.

O filme inclui também um momento musical, um hino à vida.

Sim, quis que houvesse música e leveza. Pensei no poema de Jacques Prévert — “Les Feuilles Mortes” — e na ideia de que, mesmo diante da morte, a vida renasce. A presença das crianças no filme é fundamental: representam a continuidade. A vida que prossegue.

A Charlotte Rampling tem uma presença marcante no filme. Como chegou até ela?

Foi uma epifania. Vi uma fotografia dela no Le Monde — descalça, junto das suas pinturas — e percebi que era ela. Liguei-lhe, com alguma hesitação, e ela respondeu-me rapidamente: “Li o seu guião duas vezes.” Pensei que vinha aí uma recusa polida, mas no fim disse: “Vou fazê-lo.” Foi maravilhoso. Ela é de uma gravidade e delicadeza raras.

Há uma frase dita por uma das personagens, que resume o filme: “É preciso viver a morte.” Concorda?

Sim. É isso mesmo. Viver a morte como algo natural, inevitável, comum a todos. Se não o fizermos, o mundo seria uma catástrofe.

No filme há também um olhar sobre outras culturas, como a africana, onde a morte é celebrada. O Ocidente encara-a da forma errada?

O Ocidente deu prioridade à economia, ao dinheiro, à produtividade. Esqueceu-se de viver e de morrer com dignidade. Outras culturas lembram-nos que a morte é também um ritual de vida.

A morte é cada vez menos tabu, mas ainda um tema difícil. Acredita que a sociedade evolui mais depressa do que a lei?

Sim, as pessoas mudam mais rápido do que os sistemas. As gerações de hoje já não têm medo de falar da morte, mas as estruturas políticas e religiosas continuam atrasadas.

Disse muitas vezes que todos os seus filmes são políticos. Este também o é?

Claro. Tudo é político. A política é o nosso comportamento na sociedade. A palavra vem de polis, a cidade. Cada gesto que torna outro ser humano mais feliz ou mais infeliz é um ato político. O filme fala disso também — da dignidade, da liberdade de escolha, da responsabilidade de decidir sobre a própria morte.

Defende que França precisa de uma lei sobre a eutanásia, como outros países europeus?

Sim. Acho que sim. Se um dia quiser morrer, não tenho onde o fazer legalmente. É absurdo. Tenho de ir à Suíça ou à Bélgica, e sozinho. A França precisa de legislar sobre isto.

E também precisamos de reforçar os cuidados paliativos, um sistema extraordinário onde o paciente nunca está sozinho. Escolhi enfermeiros reais para o filme, pessoas com gestos e palavras certas, capazes de acompanhar alguém até ao fim com empatia e presença.

Disse que o problema não é apenas de saúde pública, mas também económico e social. Considera que o poder político e os media têm medo de abordar o tema?

Sim, têm medo. Lembro-me de uma grande reunião organizada pelo presidente da República com cidadãos de todo o país. Li o relatório: era admirável, cheio de propostas concretas. Mas os médicos e os políticos ficaram bloqueados. Não querem mexer. Muitos dizem: “Fiquemos com a lei Léonetti [relativa aos direitos dos doentes em fim de vida]. Essa lei teve o seu papel, mas já não basta. Há centenas de formas de morrer, e uma única lei não pode cobrir todas.

Muitos dos seus filmes lidam com o poder e o abuso — do Estado, das instituições, da ideologia. Le Dernier Souffle fala também do poder da medicina?

Sim, de certa forma. A medicina perdeu parte da sua força. Já tivemos uma segurança social admirável, invejada em todo o mundo. Hoje, tudo enfraquece — não por culpa dos médicos, mas da política. E por isso repito: tudo é político.

O Último Suspiro

Como foi a reação do público e dos financiadores ao filme?

O público recebeu-o muito bem. Mostrámos o filme em Angers, diante de 1200 pessoas, e foi uma emoção enorme.

Mas convencer quem financia o cinema foi difícil. Há medo. O tema da morte assusta. Alguns acham que o público não quer ver filmes assim. Felizmente, as reações têm provado o contrário.

De onde vem a energia para continuar a filmar com 92 anos?

Do corpo e da cabeça. A energia vem do corpo; a vontade vem daqui (aponta para a cabeça). Enquanto houver vontade, o corpo acompanha.

Já está a preparar um novo projeto?

Sim, já estou a trabalhar numa nova ideia. Ainda não posso falar muito, mas não tem a ver com a morte — prometo (ri-se).

Continua a ser presidente da Cinemateca Francesa?

Sim, continuo, embora já quisesse ter saído. Pediram-me para ficar mais um pouco. Propus a criação de um Museu Nacional do Cinema em Paris, e o projeto foi aceite. Quero ver isso nascer antes de me retirar. Mas, sinceramente, está na altura de passar o testemunho. E seria bom que fosse uma mulher a assumir o cargo.

O cinema é a sua vida?

Sim, absolutamente. O cinema é a minha vida. Curiosamente, os meus filhos também seguiram este caminho, embora eu quisesse que fossem médicos ou engenheiros (sorri). Mas em casa sempre houve liberdade.

E o que procura ainda no cinema?

Procuro continuar a compreender o mundo. Gostava de fazer um filme sobre os media de hoje, que pertencem cada vez mais a multimilionários. É um tema essencial, mas já não tenho o tempo nem a energia para um projeto tão longo. Farei algo mais possível — algo à minha medida.

Pensa no streaming ou nas plataformas para distribuir os seus projetos?

Não. Cheguei a pensar em fazer uma série para a Netflix, mas percebi que não é para mim. Depois de três episódios, senti que a história se perdia. O cinema tem de ter um princípio, um meio e um fim. O infinito não me interessa.

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