Arnaud Lemort fala sobre “Terapia em Família”, Christian Clavier e o futuro da comédia francesa

Sem ir vasculhar os resultados do box-office, creio que é seguro afirmar que, quando se trata de comédias francesas a estrear nos cinemas em Portugal, ninguém atrai tanto público como Christian Clavier.

Estrela de filmes como Ibiza (2019), Que Mal Fiz Eu a Deus? (2014) e a sua sequela Que Mal Fiz Eu a Deus Ainda? (2019), além de Oh Lá Lá! (À bras ouverts, 2017), o ator francês — que começou a dar cartas ao lado de Jean Reno na saga Os Visitantes (Les Visiteurs, 1993) — é o grande destaque da comédia Terapia em Família (Jamais sans mon psy, 2024).

O filme, que chegou aos cinemas portugueses em meados de agosto, já ultrapassa os 40 mil espectadores, confirmando o gosto do público nacional pelas comédias francesas de veia comercial.

Por trás de Terapia em Família está o realizador Arnaud Lemort, que além de ter assinado o já citado Ibiza (2019), conquistou ainda o público com O Amor é Melhor a Dois (L’Amour, c’est mieux à deux, 2010).

Arnaud Lemort

Agora, o argumentista e realizador coloca Clavier no papel de um terapeuta farto de um dos seus pacientes — um homem com um estranho pavor a pássaros e que constantemente ameaça o suicídio. Logo nos primeiros minutos do filme, vemos o terapeuta feliz por se livrar dele… até que, um ano depois, esse mesmo paciente aparece como noivo da sua filha, desencadeando todo o tipo de tropelias quando os dois se reencontram.

Foi a propósito de Terapia em Família e da sua colaboração contínua com Christian Clavier que nos sentámos, no início do ano, com Arnaud Lemort à mesa. Numa conversa sem papas na língua, ele falou da sua visão cinematográfica: uma visão orientada sobretudo para o entretenimento e para o poder de fazer rir. E se, pelo caminho, conseguir também falar de coisas importantes, tanto melhor.

Abordou a questão da depressão num dos seus filmes anteriores, Dépression et des potes. Neste novo filme, envolve terapia… quer falar-me sobre isso? (risos) [pose de terapeuta]

(risos) Sim. Podia parecer que eu não estava bem nessa época, mas na verdade acho que foi apenas o acaso. A ideia do Depressão e os amigos nasceu de uma observação: alguém que está em baixo e pede ajuda aos amigos que, muitas vezes, estão tão mal quanto ele. Esse contraste divertiu-me. E também o contexto da época — Paris, os parisienses — ressoava muito nesse pitch.

Não é que tenha uma relação profunda com a psiquiatria, psicologia ou terapia. Sim, já consultei psicólogos, mas de forma muito pontual, meia dúzia de sessões, até terapia de casal, mas nunca fui consumidor assíduo. O que me interessa é encontrar bons pitchs para comédias populares. Quando escrevo um filme, inevitavelmente há sempre algo de mim lá dentro, mas não parto da minha vida, parto de boas ideias.

É fácil escrever comédias hoje em dia?

Fácil? Não. Hoje há temas sensíveis, a cancel culture, e há limites. Mas eu acho que quando as piadas são feitas com talento e inseridas numa boa história, o público aceita. Se for apenas “faço esta piada porque quero chocar”, aí sim, somos destruídos.

Houve alguma polémica durante as filmagens?

Sim, mas curiosamente não pelas razões que se poderia imaginar. No meu filme havia uma cena em que um pássaro embate numa janela. Foi aí que as associações de defesa dos animais protestaram, alegando que se tratava de uma espécie protegida. Mas tudo foi feito com efeitos especiais e dentro das regras. Ainda assim, chegaram a ameaçar boicotar a estreia. Já com o humor sobre deficiência, ninguém se ofendeu, porque perceberam que era sobre um impostor e não sobre a deficiência em si.

Então escreveu essa cena de propósito?

Sim, foi mesmo intencional. Quis mostrar que o pássaro não tinha morrido, para que as crianças não pensassem “coitado, ele matou um animal”. A cena foi escrita apenas para isso: para mostrar que o pássaro estava bem.

Christian Clavier e Baptiste Lecaplain

Então hoje um argumentista tem de ouvir a “modernidade”?

Claro. Somos obrigados a isso. Mas eu acredito que o humor, bem trabalhado, permite quase tudo.

O problema é quando um filme força demasiado uma ideologia — feminismo, sororidade, etc. — e esquece que o cinema é, antes de mais, entretenimento. Veja, por exemplo: saiu ao mesmo tempo que o meu um filme chamado Les Femmes au balcon. Toda a promoção ao filme dizia: “é um filme que denuncia o patriarcado”. Isso é marketing. Eu, pessoalmente, já não tenho vontade de o ver. Se me dissessem: “é um filme genial, onde um tipo se apaixona, depois acaba mal, etc.”, ainda ia. Mas quando me vendem só a ideologia, perco o interesse. Para isso, prefiro ver um documentário.

E, no entanto, já houve obras-primas que falaram de patriarcado de forma brilhante. Lembram-se de Tootsie? É um filme genial: um homem machista, que maltrata mulheres, disfarça-se de mulher para arranjar trabalho e, ao viver na pele delas, percebe como foi um idiota. Esse filme denuncia o machismo de forma extraordinária. Mas nunca foi vendido como “um filme sobre o patriarcado” — foi vendido como uma comédia.

E é isso que eu acho brilhante: quando por trás de um bom pitch, como o de Tootsie, surgem naturalmente temas importantes. Rimo-nos, emocionamo-nos, e ao mesmo tempo somos confrontados com algo sério.

Mas e a questão da representação — deficiência, minorias…?

Sempre trabalhei com atores com deficiência. No meu filme O Amor é Melhor a Dois (2010), filmei com pessoas com deficiência reais e correalizei com Dominique Farrugia, que tem esclerose múltipla e está em cadeira de rodas. Trabalhei com uma Miss França surda, com atores surdos… Nunca discriminei. Se preciso de um ator surdo, escolho um ator surdo. Neste filme, o deficiente é um impostor, mas isso não significa desrespeito.

Claro que há temas delicados e convém ser cuidadoso, mas acredito que com trabalho e boa-fé é sempre possível contornar.

Trabalhou com Christian Clavier em Ibiza. Como foi essa experiência?

Foi extraordinário. Trabalhar com o Clavier é viver uma masterclass diária. Ele não se limita a interpretar: envolve-se no guião, dá ideias, acompanha todo o processo. É generoso, moderno e tem uma energia incrível. Para mim é uma sorte enorme aprender com ele. Ao contrário do que alguns pensam, não é nada difícil trabalhar com ele — difícil é trabalhar com quem não tem talento. Com Clavier, às vezes o problema é que o primeiro take já está perfeito, e temos de inventar desculpas para fazer um segundo.

É muito rigoroso nos guiões que escreve?

Sim, porque um filme é como um TGV em andamento: quando começa a rodagem já não há tempo para corrigir fragilidades. Por isso, é preciso trabalhar muito no guião antes. Depois, nas filmagens, deixo bastante liberdade aos atores. Muitas vezes surgem improvisos mais engraçados do que aquilo que estava escrito.

hristian Clavier e Baptiste Lecaplain

Quando escreve, pensa já em atores específicos?

Não. É arriscado, porque pode acontecer que o ator não esteja disponível ou desista em cima da hora. Prefiro escrever os melhores papéis possíveis e depois encontrar o elenco ideal. No caso do Clavier é diferente, claro, porque a sua presença ajuda a financiar o filme. Mas outros, como o Baptiste Lecaplain ou a Claire Chust, chegaram através de um casting.

Acredita que a comédia vai salvar o cinema, face ao streaming e à quebra de público nas salas?

Não sei. Em França há um certo desequilíbrio: o cinema de autor recebe apoios garantidos, mesmo sem público. Já a comédia popular vive das bilheteiras: se um filme não vende, o realizador pode ficar anos sem filmar. Isso exige mais risco, mas também me entusiasma. O problema é que há cada vez menos gente disposta a fazer comédia popular, porque as críticas são duríssimas. É preciso ter o ego noutro sítio e não depender do reconhecimento oficial.

Para si, o cinema é sobretudo…

Entretenimento. Fazer rir, emocionar, prender o espectador durante 90 minutos e fazê-lo esquecer-se da vida lá fora. É isso que me move e é isso que quero fazer sempre.

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