Ao posar para o fotógrafo Jorge Fuembuena, do Festival de San Sebastián, por estar na corrida pela Concha de Ouro de 2024, o inglês Mike Leigh fez uma pose que lembra Droopy, criado nos desenhos animados por Tex Avery (1908-1980) em 1943, o mesmo ano em que o realizador britânico, hoje em cartaz em circuito português com “Verdades Difíceis” (“Hard Truths”), nasceu.
“Cresci entre os anos 1940 e a década de 1950, quando a incomunicabilidade era um factor de interseção entre as pessoas, o que me deu a certeza de que a vida é ridícula, pois é capaz de ser muito triste e muito engraçada ao mesmo tempo”, respondeu Leigh ao C7nema na conferência de imprensa um tanto quanto tensa em Donostia, onde ele competiu, mas nada ganhou do júri presidido pela catalã Jaione Camborda. “Comédia, tragédia… tem tudo isso onde nada é dito num filme que não se pretende esquemático”.
Antes de San Sebastián, “Hard Truths” flanou por salas canadianas, no TIFF, em Toronto, e, no início deste ano, passou por Roterdão, onde fez os Países Baixos rir, além de despejar umas lagrimas com o seu estudo sobre a tolerância zero. Mariane Jean-Baptiste, uma das estrelas do aclamado “Secrets and Lies” (Palma de Ouro de Cannes em 1996), é quem vive a irascível protagonista dessa dramédia: Pansy.
“Só com muitos ensaios se chega a uma personagem como ela”, disse a atriz, ovacionada pelo seu desempenho. “Toda gente tem uma Pansy na sua vida. Podes te cruzar com uma ao andar até uma mercearia”.
Vencedor do Leão de Ouro de 2004 com “Vera Drake”, Leigh retrata Pansy como uma pessoa tensa, sem papas na língua, cuja impaciência serve de eixo à crónica de costumes do Reino Unido suburbano promovida pelo cineasta. “Existe um lugar do silêncio, num âmbito político, que se confunde com o medo e, por isso, precisa ser combatido, como eu fiz no recente ‘Peterloo’”, disse Leigh ao C7nema no Festival de Veneza, há sete anos, quando começava a rascunhar a figura de Pansy.
À época, ainda não tinha Marianne consigo. “Trabalhamos buscando detalhes, inclusive questões da infância dessa mulher. Ela é como é por muitas razões”, explicou a atriz.
Lembram-se de Michael Douglas em “Falling Down” (1993), aquele tipo de entrar em fúria por mínimas ranhuras? Pansy é assim, mas sem uma arma. A sua boca é um fuzil. Se ela passa numa loja de colchões e vê alguém a deitar-se para testar o produto, ela estoura ali, mesmo sem ser vendedora do estabelecimento: “Vais comprar? Se não vais, por que te deitaste?”, rosna ela. A sua ida ao dentista é ainda pior: zanga-se com a médica quando a pinça roça a gengiva. No trato com o filho, Moses, ela é uma granada sem cavilha. Basta encontrar as cascas da banana deixadas pelo rapaz na cozinha. Com o marido, ela vocifera igual (ou pior). Tudo enerva Pansy. Ela até se justifica, desabafando no único ombro com o qual mantém a calma, o da sua irmã mais nova, Chantelle (Michele Austin, em estupenda atuação), a dizer: “Estou cansada. Estou tão cansada”. Com movimentos da câmara sinuosos e discretos, abrindo-se muitas vezes aos closes, em planos longos, Leigh não deseja dar muitas justificações para esse cansaço. Como é comum nos seus painéis afetivos, como “All or Nothing” (2002) e “Naked” (1993), cabe ao público preencher as lacunas devidamente pontilhadas. Percebe-se a fadiga de Pansy de muitas formas. Elas passam pelo machismo, por vetores de exclusão raciais (“um rapaz desses a andar pela rua vai ser parado pela polícia, que ataca negros”, diz a respeito do próprio filho) e pela ausência da mãe. Essa parece ser a sua maior dor,
“O meu processo criativo não é diferente do que fazem certos escritores e certos músicos: anda-se pelas ruas e observar pessoas. Ao fazer isso, pouco a pouco, pensa-se num filme. A base para que ele existe é confiança. Trabalhar com pessoas em quem se confia é tudo e, aqui, eu tive a chance de trabalhar com grandes intérpretes, como Marianne, com quem já estive antes”, explicou Leigh. “Nessa história, nós debruçamo-nos sobre a sociedade, sem dar respostas. Há uma visita a um cemitério, por exemplo, em que se subentende a carência que Pansy tem da mãe, mas nada é escancarado. As nuances nascem das performances”.






