Entrevista com a realizadora Dulce Fernandes

Com estreia nas salas portuguesas a 3 de julho, “Contos do Esquecimento” é um documentário que mergulha na temática da memória coletiva e nos silêncios históricos em torno do papel de Portugal no tráfico transatlântico de pessoas escravizadas.

Estivemos à conversa com Dulce Fernandes, a realizadora nos contou sobre a origem do filme e a importância do cinema num debate alargado sobre as questões coloniais.

Dulce Fernandes

Quando e como surge a ideia de fazer o filme “Contos do Esquecimento”?

Acho que tive conhecimento da escavação de Lagos em 2013. A escavação tinha sido feita em 2009 e nessa altura, em 2013, o parque de estacionamento já tinha sido construído. Eu tinha vivido muito tempo fora de Portugal e no meu regresso fiquei perplexa com a forma como se continuava a falar do passado colonial português: um passado heroico, de grandes navegadores e aventuras marítimas, e um apagamento quase completo sobre o tráfico transatlântico de pessoas africanas escravizadas e o papel de Portugal nesse horrível passado. Continuava a viver-se uma fantasia luso-tropical, com os mitos do “bom colonizador”, do “pioneiro da abolição”, da “paz racial do império”— construções profundas sobre a identidade do país que vinham do tempo da ditadura e que pouco tinham mudado depois da revolução. Ao mesmo tempo, vivia-se uma profunda negação do racismo em Portugal. Para mim é claro que a falta de construção de memória em torno do tráfico transatlântico está profundamente ligada ao racismo estrutural. É impossível olhar para o racismo quando nem sequer sabemos que seis milhões de pessoas foram traficadas em navios com bandeira de Portugal e do Brasil ao longo de 400 anos. A escala, a duração, as consequências do tráfico e do envolvimento de Portugal são tão violentas e profundas quanto são omitidas da nossa memória coletiva.

Foi neste contexto que tive conhecimentos das escavações de Lagos, do que tinham encontrado ali e da importância daquele achado arqueológico para a compreensão do nosso presente. Aquele local é de uma importância única, não só material e histórica, mas também simbólica. Aquele que foi o momento inicial do tráfico transatlântico pode de facto ser localizado ali em Lagos, numa manhã quente de Agosto em 1444. O que feito ali — não só o parque de estacionamento, mas também o minigolfe — pareceu-me uma metáfora completa da negação de Portugal em relação ao seu papel no tráfico e do racismo do presente. Fazer um filme a partir dos achados de Lagos acho que nem sequer foi bem uma escolha, foi quase uma inevitabilidade, uma urgência de memória, um imperativo de trazer as histórias dos esqueletos encontrados ali para fora do esquecimento de cinco séculos e do que eles nos podiam mostrar sobre nós mesmos.

Quanto tempo demorou todo o processo?

Quase uma década. Desde ter tido conhecimento dos achados de Lagos em 2013 até à estreia do filme em 2023.

Quais foram as dificuldades encontradas para realizar o documentário?

Para além das dificuldades de financiamento (que são um desafio enorme em Portugal), este filme teve um longo processo de investigação, de escrita, de desenvolvimento. Precisei de encontrar o meu lugar para falar deste tema enquanto pessoa socialmente classificada como branca e que beneficia dos privilégios da branquitude. Foi preciso encontrar os meus ângulos mortos, aquilo que eu nunca tinha precisado de ver, tudo o que eu não sabia. Foi preciso perceber como me aproximar da história a partir de um outro lugar—um lugar de responsabilidade e não de culpa, de coragem e não de vergonha. Estes são processos que nunca têm fim e para os quais é preciso ter comunidade, não é possível percorrer este caminho sozinha.

O debate público em Portugal sobre o tráfico continua a ser, ele mesmo, muito violento. É muito difícil ainda encontrar um caminho coletivo de reparação, de reconhecimento, de cura dessa ferida que nos continua a violentar a todos.

No início queria fazer um filme-manifesto, uma coisa do tipo “Now!” do Santiago Álvarez, ou algo assim. Que seria uma forma válida, mas que para mim deixou de fazer sentido ao longo do processo do filme.

Também foi difícil encontrar uma forma de aproximação ao arquivo, à violência das fontes e dos objectos, sem reproduzir essa violência, uma vez que a estrutura de poder, o sistema de desigualdade racial que o tráfico transatlântico estabeleceu continua operativa, nunca terminou.  

Foi difícil encontrar respostas para questões centrais como mostrar ou não as caixas onde estão os esqueletos. Decidimos que iríamos incluir as caixas apenas se o conseguíssemos fazer de forma digna, não violentadora para os esqueletos e a memória daquelas pessoas. Acho que conseguimos fazer isso, pelo lugar e pela forma que encontramos para estas imagens na montagem do filme. E também porque sentimos que não incluir estas imagens poderia ser quase uma forma de censura, de esconder algo que queríamos que fizesse parte do filme—uma espécie de ritual fúnebre, uma homenagem possível.

Houve muitos desafios na montagem, que durou muitos meses, e que foi onde este filme foi construído. Tínhamos um puzzle complexo, com muitos materiais muito fortes, sensíveis e delicados. Mesmo depois de encontrarmos a forma, o território do filme, foi um longo processo para encontrar o lugar de vários elementos, o ritmo, as relações entre eles. Fizemos muitos visionamentos, ouvimos muitas pessoas, foi um processo de grande envolvimento coletivo, de procurar o filme a partir de vários lugares da mandala. Depois há um mistério no cinema que a partir de certa altura tomou conta do filme e que nos foi mostrando o caminho.

Qual a importância e alcance do cinema (neste caso,  do filme “Contos do Esquecimento”) para retratar questões coloniais? 

Com este filme há uma intenção de olhar para o passado a partir do presente, de observar como somos atravessados pela história, de contemplar como a brutalidade do que aconteceu mantém ainda estruturas de poder que nos violentam. Espero que o filme possa contribuir para o diálogo sobre o nosso passado e as suas continuidades históricas no presente, sobretudo o racismo estrutural. Ao trazer as histórias dos esqueletos encontrados ali para fora do esquecimento de cinco séculos, o que podem essas histórias mostrar sobre nós mesmos? O que pode aquele minigolfe dizer sobre o que queremos lembrar e o que queremos esquecer? Que estrutura de poder mantém ali aquele equipamento de lazer? É um pouco essa a proposta do filme.

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