Representante oficial da Noruega por uma vaga ao Oscar, “Armand” não passou pelo crivo da Academia de Hollywood que, sintonizada com a produção escandinava, optou pela Dinamarca e o seu “The Girl with the Needle”, mas, assim mesmo, conquistou lugar de honra na revisão crítica do melhor do cinema europeu de 2024 e ganha agora espaço nas salas em Portugal, esta semana, em várias salas comerciais. A Caméra d’Or de Cannes, confiada ao realizador Halfdan Ullmann Tøndel, assegurou ao filme o prestígio para desbravar os holofotes de territórios diversos. Em terras lusas, o thriller escolar estrelado por (uma colossal) Renate Reinsve (de “A Pior Pessoa do Mundo”) foi estruturado como se fosse uma peça, cujo palco é uma escola. Nele, ao longo de um dia, os pais de dois alunos passam por um inquérito administrativo. Consta dos autos do liceu que dois miúdos de seis anos lutaram, num embate que extrapola os limites morais. É necessário que as famílias de ambos se pronunciem uma vez que a rusga pode estar a refletir traumas dos seus lares.
“É apenas uma tarde, nada mais, mas durante um fluxo de minutos, uma série de limites são ultrapassados na relação de confiança”, disse Renate ao C7nema, em entrevista organizada pela Golden Globe Foundation, ao lado de Tøndel.
“Nos 16 dias de filmagens, a imagem dos miúdos estava sempre fora de quadro, pois o olhar sobre a infância ali retratada reflete os adultos, estruturada sobre o que cada mãe a e cada pai é”, disse Tøndel, num intercâmbio de respostas com a sua estrela.

Estreante nas longas-metragens, o realizador decupou os planos assim que chegou à sala de aula onde filmou, de modo a estruturar a narrativa como se fosse um longo túnel escuro.
“Os enquadramentos foram pensados numa relação de claustrofobia, com bloqueio de janelas, a fim de transmitir uma sensação de pesadelo e manter a pressão num limite máximo. Buñuel e o Spielberg de ‘Duel’ eram influências num rol eclético de inspirações”, disse o cineasta, que também assina o argumento.
Apelidado no Brasil de “Armand e os Limites das Famílias”, o filme resvala em elementos tratados tanto no teatro, pela peça de culto “Deus da Carnificina” (“Carnage”), de Yasmina Reza (filmada por Roman Polanski em 2011), quanto na TV, pelo série da Globoplay “Os Outros”, de Lucas Paraizo. O caminho adotado por Tøndel para tratar de diferentes formas de se criar filhas/os vai por um terreno menos irónico e sociológico do que o das referências supracitadas. Ele parte de uma pergunta, destacada no próprio texto de apresentação do IndeLisboa: “e se um dia acusarem o teu filho de uma coisa tão horrível e te obriguem a sentar diante de um “tribunal” improvisado constituído por familiares, amigos e professores? Podes simplesmente abanar a cabeça, submergir, irritar-te ou ouvir.” O que Tøndel faz é demarcar as fronteiras da intimidade.
“O trabalho de Michael Haneke com Isabelle Huppert em ‘La Pianiste’ foi essencial para que eu construísse uma personagem acossada pela dor, numa rota de transformação”, diz Renate. “O que vemos em ‘Armand’ é a dramaturgia do diálogo… ou da falta dele”.
“Armand” estreia a 5 de junho.






