Dea Kulumbegashvili tem um (re)encontro marcado com o público português, a 18 de setembro nos cinema, cinco anos depois da consagração de “Beginning” e após a experiência da maternidade: o drama April (Abril). Protagonista do filme, a obstetra Nina (papel da atriz Ia Sukhitashvili) trabalha num hospital no leste georgiano. Após um parto difícil, a criança morre, e o pai exige uma investigação sobre os métodos da médica. O escrutínio resultante ameaça trazer à tona a atividade paralela da dedicada doutora — viajar pelo interior em direção a casas de mulheres grávidas, para realizar abortos não autorizados. O filme valeu à realizadora o Prémio do Júri do Festival de Veneza e o prémio Zabaltegi-Tabakalera do Festival de San Sebastián, ambos em 2024.
“Numa clínica especializada em partos, nenhum profissional encara o nascimento de um bebé como um milagre, mas, sim, como rotina. A partir desse dado, tentei estruturar a dramaturgia sob o entendimento do dia a dia de médicas e médicos que ajudam mulheres a dar à luz, numa reflexão sobre como o trabalho afeta uma vida”, disse Dea ao C7nema num Zoom em San Sebastián, enquanto vigiava o seu miúdo, que brincava no quintal de casa. “A arte audiovisual ainda deve ser um espaço de mistério e a força do som amplia o impacto sensorial de uma imagem, o que me leva a explorar a quietude”.

Filmado com base num orçamento estimado em 2 milhões de euros, April retoma o estudo de Dea sobre a resiliência feminina e opressões sexistas, que fez dela umas das artistas mais proeminentes da Geórgia. A sua pátria é reconhecida no audiovisual por ter cineastas autorais como Mikhail Kalatozov, vencedor da Palma de Ouro, em 1958, por Quando Voam as Cegonhas; e Serguei Paradjanov, do premiado A Lenda da Fortaleza Suram. Recentemente, What Do We See When We Look at the Sky?, de Alexandre Koberidze, rendeu àquela nação o Prémio da Crítica (Fipresci) na Berlinale de 2021. Revisitou-se no início desta década, em mostras da Europa, o legado de Nutsa Gogoberidze (1902-1966), a primeira mulher na realização da Geórgia a ganhar notoriedade global, conhecida por longas metragens como Bulba (1930). My Grandma, 1929, uma sátira surreal da burocracia do jovem Estado soviético, assinada pelo ator-realizador Kote Mikaberidze, é outro filme de culto deles.
“Venho de um país visualmente bonito, com uma paisagem natural que encanta, mas que passou por um saldo histórico político controverso na sua conexão com a URSS que criou formas de exclusão que ainda precisamos decifrar. Além disso, não existem laboratórios de revelação de película (para quem filma em 35mm, 16mm ou 70mm), o que nos leva a viajar para concluir os processos criativos”, disse Dea. “Vivemos um processo de mudança histórica no cinema, que foi acelerado depois da pandemia, com a migração das vitrines principais para os streamings, mas ainda procuramos ver os nossos filmes na dimensão gigante de uma tela como a dos festivais europeus. Eu ainda aposto na imersão”.
Envolvida também com videoinstalações, à força de exercícios estéticos como Captives (2022), a realizadora recebeu o prémio máximo de San Sebastián, em 2020, no auge da pandemia, pelo supracitado “Beginning”, um exótico olhar sobre a luta de uma ex-atriz, casada com um pastor religioso, para não ser esmagada pela vaidade e pela libido dos homens.
Presidente do júri do evento espanhol de então, o cineasta italiano Luca Guadagnino definiu essa fita – cujo foco é uma comunidade de Testemunhas de Jeová – como “uma revelação, uma experiência cinemática das mais autênticas”. As vitórias levaram a realizadora a integrar o júri da versão pocket de Cannes, realizada em outubro daquele ano, onde só premiaram curtas metragens. Em 2021, ela passou por Donostia de novo, como presidente do júri ibérico. Agora, Guadagnino foi o seu produtor e ajudou-a no processo de construção de “April”.
“Sou o tipo o tipo de cineasta que formula sequências que assustam os produtores. O susto, no entanto, não se passa com Luca, pois, por ser mais experiente do que eu, como realizador. Ele foi muito solícito quando certas situações das filmagens pareciam impossíveis”, disse Dea. “Gosto de correr riscos e buscar soluções narrativas que estimulem a inteligência da plateia. Eu acredito no meu público”.
No Brasil, a longa-metragem pode ser vista na MUBI.






